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Juros subindo depressa ameaçam seu emprego, dizem economistas; por quê?

Posto de Atendimento ao Trabalhor, em São Paulo - Felipe Rau/Estadão Conteúdo
Posto de Atendimento ao Trabalhor, em São Paulo Imagem: Felipe Rau/Estadão Conteúdo

João José Oliveira

Do UOL, em São Paulo

15/08/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Banco Central eleva ritmo de aumento da taxa básica dos juros para tentar segurar inflação
  • Subida mais forte dos juros desestimula consumo e encarece crédito, dizem economistas
  • Nesse ambiente, empresas devem abrir menos vagas

Os juros estão subindo mais depressa, conforme mostra a alta determinada pelo Banco Central neste mês. Isso vai atingir em cheio a possibilidade de reação do mercado de trabalho no Brasil, segundo entidades ligadas a empresas e sindicatos. A expectativa de economistas é de uma taxa de desemprego fechando o ano acima dos 14,6% atuais. E o universo de brasileiros sem trabalho não vai diminuir. Segundo dados do IBGE, está faltando trabalho para 33 milhões de pessoas.

Isso porque os juros mais elevados vão reduzir o consumo, afetando as vendas das empresas, que por tabela suspendem ou adiam planos de retomada de produção ou expansão do negócio. Mesmo as companhias que decidirem ir adiante com os planos terão que gastar mais com empréstimos elevados para bancar o projeto.

Por que o BC acelerou a alta de juros?

A Selic que vinha subindo apenas 0,75 ponto percentual a cada 45 dias, avançou 1 ponto percentual no último encontro do Comitê de Política Monetária (Copom), atingindo 5,25%. E o órgão do governo responsável pelo mercado financeiro já avisou que vai subir novamente os juros básicos para 6,25% em setembro. Segundo estimativas de mercado, a taxa básica de juros vai subir até 7,25% neste ano, pelo menos.

Tudo isso para segurar a inflação. O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), índice oficial de inflação do governo, já atingiu 9% em 12 meses -a pior marca em cinco anos. A inflação tem subido mesmo depois que o Banco Central passou a elevar os juros, em março.

Veja a inflação acumulada nos 12 meses anteriores a cada um dos meses abaixo:

  • Jan.2021: 4,6%
  • Fev.2021: 5,2%
  • Mar.2021: 6,1%
  • Abr.2021: 6,8%
  • Mai.2021: 8,1%
  • Jun.2021: 8,4%
  • Jul.2021: 9%

Como juros afetam o emprego

Os juros mais elevados encarecem o crédito e aumentam o rendimento das aplicações financeiras. Isso desestimula o consumo porque fica mais caro parcelar compras ou financiar um novo imóvel. Ao mesmo tempo, fica mais interessante para o consumidor aplicar o dinheiro em vez de gastar.

O que o Banco Central está fazendo então é aumentar a dose desse remédio para ver se consegue conter a febre da inflação. O problema é que essa droga tem efeitos colaterais, dizem economistas.

Um aumento mais rápido dos juros vai estimular a poupança em detrimento do consumo, e o crédito vai encarecer. São dois fatores contrários à geração de emprego e renda.
Antonio Corrêa de Lacerda, presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon) e professor doutor do Programa de Pós-graduação em Economia Política da PUC-SP

O impacto dos juros mais altos na economia real pode demorar de três a nove meses para ser sentido.

Veja no gráfico abaixo que, quando os juros sobem, a taxa de desocupados começa a aumentar também, mas de forma mais espalhada. A queda dos juros após 2016 vinha tendo como resposta uma redução lenta do desemprego.

Mas esse movimento foi interrompido no fim de 2019 por causa da pandemia. Mesmo com os juros ainda caindo, o desemprego continuou subindo. A nova alta da Selic agora pode provocar nos próximos meses um novo movimento de alta do desemprego, apontam economistas.

taxa de juros x taxa de desemprego - Arte/UOL - Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Construção civil deve lançar menos prédios

Um bom exemplo do impacto da alta dos juros sobre o emprego é a construção civil, diz o diretor técnico do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), Fausto Augusto Junior.

O setor vinha atravessando a crise da pandemia graças aos juros baixos e, assim, abrindo vagas. Agora deve desacelerar o ritmo de lançamentos.

A construção civil fechou o primeiro semestre do ano com um saldo positivo de 178 mil novos empregos com carteira assinada, acréscimo de 7,9%, segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic).

Mas o ritmo de contratações já vem recuando em quase 50%. A média mensal de novas vagas caiu de 44 mil, em janeiro e fevereiro, para 22,6 mil nos quatro meses seguintes.

O setor imobiliário, por exemplo, vinha ajudando na recuperação do emprego, influenciado exatamente pelos juros menores no ano passado. As pessoas tiraram dinheiro da aplicação para colocar no setor imobiliário. Agora, começam a fazer o contrário porque os juros estão subindo.
Fausto Augusto Junior

Indústria deve desistir de projetos

Quando uma empresa vai decidir se investe ou não numa nova linha ou unidade de produção, ela compara o lucro esperado com o custo do financiamento que vai precisar para bancar o projeto.

Quanto mais elevados os juros, menor a chance de uma empreitada nova ser vantajosa, destaca o diretor-executivo de economia e estratégia da Fiesp, André Rebelo.

Segundo ele, projetos que eram viáveis a uma taxa básica de juros de 2% se tornam inviáveis com uma Selic de 7%.

Claro que a aceleração da alta da Selic afeta a retomada do emprego. Não é o objetivo final do Banco Central, mas vai acontecer. Com alta de juros, o Banco Central está arquivando projetos de expansão e suspendendo decisões individuais de gastos.
André Rebelo

As indústrias brasileiras já perderam 1,4 milhão de empregos entre 2013 e 2019, o que representa 15% dos postos de trabalho do setor, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Desestímulo à inovação na agropecuária

Os grandes produtores agrícolas do país sofreram menos que outros setores da economia brasileira durante a pandemia. Grande parte da produção de grãos e carnes é voltada para o mercado internacional, onde os preços desses itens vêm subindo, em dólar, desde 2019.

Mas projetos de expansão da produção, como investimentos em tecnologia, por exemplo, podem ser afetados pelos juros altos. Por tabela, diminui o potencial de abertura de novas vagas.

O crescimento da agropecuária continuou a ocorrer mesmo na pandemia porque, diferentemente do passado, quando a Selic alta estimulava empresários a colocarem o capital no mercado financeiro, e não na produção, a Selic baixa no ano passado estimulou o investimento na atividade produtiva. Isso pode mudar agora.
Tirso Meirelles, vice-presidente da Faesp (Federação da Agricultura e Pecuária de SP)

Pequenos e médios sofrerão mais em serviços

No setor de serviços, que responde pela maioria das vagas de trabalho no país, a alta dos juros deve atingir principalmente pequenos e médios, aponta Fausto Augusto Junior, do Dieese.

Segundo ele, os pequenos empresários, que já estão sofrendo com os custos mais elevados de alimentos e energia elétrica, terão dificuldade para repassar esses aumentos de custos. Isso reduz o espaço para contratação de mais pessoal.

O diretor do Dieese projeta uma taxa de desemprego no fim do ano acima dos atuais 14,6% e um contingente superior a 20 milhões de pessoas sem trabalho.

Economista diz que juros podem ser benéficos ao emprego

Para o economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, especialista em emprego, mais importante para o mercado de trabalho do que a velocidade da alta dos juros é o ponto máximo que a Selic vai atingir. Na visão dele, a taxa encerra o ano em 8% e vai parar por aí.

José Márcio Camargo traça um cenário em que o Banco Central pode conseguir controlar a inflação mais rapidamente e assim evitar que a taxa de juros tenha que ir além desse patamar.

O economista projeta uma redução da taxa de desemprego para 12,5% até o fim deste ano. Esse movimento, aponta Camargo, será liderado pelo setor de serviços, com destaque para o trabalho informal.

Estamos saindo de uma situação muito atípica, que foi a pandemia. Por isso, a reversão da economia pode ser muito forte, independentemente da Selic. E nossa avaliação é que a volta da atividade será muito forte. E vai favorecer o trabalhador informal, justo o que mais sofreu com a pandemia porque depende do trabalho presencial.
José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos

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