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Funcionários se demitem porque não querem voltar ao trabalho presencial

Abre matéria demissão e retorno ao trabalho presencial - Carol Malavolta/UOL
Abre matéria demissão e retorno ao trabalho presencial Imagem: Carol Malavolta/UOL

Henrique Santiago

Do UOL, em São Paulo

23/04/2022 04h00Atualizada em 25/04/2022 08h42

*Os entrevistados desta matéria aceitaram falar com o UOL sob condição de anonimato, por temerem possíveis represálias de suas antigas empresas

Em dezembro de 2021, o analista de importação e exportação Rodrigo*, 28, pediu demissão da multinacional de petróleo onde trabalhava havia 10 anos por ser contrário à volta do trabalho presencial em meio à pandemia de covid-19. Ele teria que deixar a cidade de São Paulo, onde se instalou desde o início da crise sanitária, para ir de ônibus a Macaé (RJ) ao menos duas vezes por semana.

Além de passar cerca de 10 horas na estrada só para ir, Rodrigo tomou a decisão por acreditar que consegue ser mais produtivo no home office. Segundo ele, a companhia exigiu o retorno ao escritório por duas razões: os custos de manutenção do prédio e o entrosamento da equipe.

Por discordar das diretrizes, preferiu abrir mão de benefícios como FGTS (Fundo de Garantia de Tempo de Serviço) e seguro-desemprego e se demitiu. Nenhum dos seus superiores apresentou uma proposta para mantê-lo no time depois de uma década de serviços prestados, conta.

"Existe uma preocupação com a minha saúde, claro, é o primeiro ponto. Não há necessidade de me expor porque o que eu faço pode ser feito de casa", diz. O analista era responsável por elaborar as atividades de importação e exportação da empresa e lidava diariamente com uma série de documentos na frente do computador.

Imediatamente após o desligamento, Rodrigo conseguiu um novo emprego na área, agora em São Paulo. O esquema é híbrido, com ida à sede da empresa duas vezes por semana, mas ele já manifestou aos seus superiores a vontade de trabalhar de casa 100% do tempo.

"No home office, além da vantagem de custo menor [com transporte e alimentação], eu fico mais confortável. Posso dormir até mais tarde, não me estresso no trânsito e tenho mais tempo para mim", avalia.

Trabalho 'vigiado' de longe

Embora seja uma realidade para poucos brasileiros, a pandemia forçou um novo jeito de trabalhar para muitos que se adaptaram a uma nova realidade dentro de casa. No fim de março, o governo publicou uma MP (Medida Provisória) que permite a adoção de trabalho híbrido pelas empresas.

De acordo com pesquisa da Ipsos, 31% dos brasileiros preferem trabalhar mais tempo ou completamente no modelo home office no pós-pandemia.

É o caso da arquiteta Alessandra*, 29, que se sentia incomodada com a volta ao trabalho presencial em um escritório de arquitetura na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo.

Depois de passar 15 dias afastada por ter contraído covid, ela afirma que via seu chefe sem usar máscara numa época em que ainda não havia sido vacinada com as duas doses. Ela foi contratada no final de agosto de 2021 e se desligou em janeiro deste ano.

Mesmo quando podia trabalhar de casa, se sentia pouco à vontade porque a empresa mandou que ela instalasse um sistema de gestão de home office em seu computador pessoal.

Contratada como PJ, ou seja, sem vínculo empregatício, Alessandra diz que o software monitorava suas atividades a todo momento e solicitava justificativas até quando ela se levantava para ir ao banheiro.

De acordo com ela, a gota d'água foi em janeiro, quando o trabalho presencial se tornou obrigatório três vezes por semana. Nessa época se espalharam os casos da variante ômicron, que dominou os diagnósticos positivos de covid no início do ano — e até atrasou a ida ao escritório porque funcionários haviam sido infectados na virada para 2022.

Desde então, Alessandra tem desenvolvido projetos de arquitetura por conta própria — no escritório dentro de seu quarto. "O home office para mim já é uma realidade, não vejo mais motivo para sair de casa para trabalhar."

Modelo híbrido traz equilíbrio, diz professor

Para a pesquisadora do Gefam (Sociedade Brasileira de Economia da Família e do Gênero), Regina Madalozzo, empregadores e empregados estão se adaptando a essas novas questões. No entanto, o temor do desemprego, que hoje atinge 12 milhões de pessoas no Brasil, pode fazer com que os trabalhadores aceitem empregos presenciais mesmo a contragosto.

"É bonito imaginar que os empregados vão poder negociar com o patrão para trabalhar de casa e morar no interior, mas a realidade se apresenta de forma diferente", diz. "Se as condições econômicas do país não forem favoráveis, os trabalhadores não vão ter poder para fazer acordos", complementa.

O professor sênior da FEA-USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo) Hélio Zylberstajn afirma que o modelo híbrido é uma tendência para o pós-pandemia.

Ocupações nas áreas de tecnologia, comunicação e administrativa se beneficiam da possibilidade de ir à empresa ao menos uma vez por semana e trabalhar de casa na maior parte do tempo.

Zylberstajn declara que o equilíbrio entre casa e escritório tende a ser mais produtivo para as duas partes. "As pessoas estão insatisfeitas com o tempo para chegar ao trabalho, e fazer tudo de casa traz uma flexibilidade maior na rotina. Por outro lado, estar com colegas é uma coisa gostosa por causa do convívio", declara.

A fala do professor da USP vai ao encontro de um recente estudo publicado pela Harvard Business School que compreende o trabalho híbrido como modelo ideal.

Os pesquisadores organizaram três grupos de 108 funcionários ao longo de nove semanas —o primeiro foi ao escritório entre zero e oito dias; o segundo entre nove e 14 dias; e o terceiro grupo passou de 14 a 23 dias.

Segundo eles, o grupo que passou menos tempo dentro da empresa conseguiu ser mais produtivo. "O trabalho híbrido intermediário é plausivelmente o ponto ideal. Os trabalhadores desfrutam de flexibilidade e ainda não são tão isolados em comparação com colegas que trabalham predominantemente em casa", diz.

Ainda segundo Zylberstajn, áreas com alta rotatividade de funcionários motivam as demissões nessa volta às atividades presenciais.

Sem negociação, restou a demissão

Foi a falta de acordo com a chefia que fez o designer gráfico Andrei*, 25, demitir-se de uma editora depois de seis anos. A empresa onde ele trabalhava entregou as chaves da sede, na região da Saúde, zona sul de São Paulo, no começo da pandemia e reabriu em novo endereço na Consolação, no centro, no início deste ano.

Ainda que sem vínculo empregatício, ele tentou negociar nos primeiros dias de março sua permanência em home office para conseguir conciliar os dois empregos que tinha desde antes da pandemia. Porém, não deu certo.

Para ele, o desligamento significou uma perda de renda ao fim do mês, mas se mostrou um acerto. Andrei declara que, ao ir ao novo prédio da companhia para devolver os equipamentos, reparou que nenhum protocolo sanitário era seguido entre seus colegas —como o espaço entre as mesas e o uso de máscara. A máscara deixou de ser obrigatória no estado de São Paulo em 17 de março.

Andrei reforça a ideia de que consegue executar suas tarefas com mais eficiência longe de uma baia com pessoas por perto. Ainda assim, o designer gráfico não descartaria uma oferta para o trabalho presencial. "Não vejo problema, desde que tenha algumas vantagens. Um salário maior, flexibilidade e benefícios como alimentação."

* Os nomes reais dos entrevistados foram trocados