PUBLICIDADE
IPCA
0,26 Jun.2020
Topo

Rio reage contra morte de adolescente negro pela polícia com pano de fundo de protestos nos EUA

08/06/2020 10h35

Por Gram Slattery e Ricardo Moraes

SÃO GONÇALO (Reuters) - O assassinato de um adolescente negro por parte da polícia do Rio de Janeiro no mês passado foi, com base nos números, apenas mais um de centenas que ocorrem todos os anos por uma das forças policiais mais violentas do mundo. Mas a reação surpreendeu.

Na sexta-feira, o Supremo Tribunal Federal (STF) proibiu operações da polícia do Rio durante a pandemia de Covid-19, e domingo foi um dia de manifestações contra o presidente Jair Bolsonaro em todo o país. Atos nos Estados Unidos e um debate global sobre a violência racial motivaram movimentos também no Brasil.

João Pedro Matos Pinto, um menino estudioso de 14 anos que falava em se tornar advogado, brincava com os amigos ao redor da piscina de seu tio em São Gonçalo, no subúrbio do Rio, no dia 18 de maio.

Quando helicópteros da polícia começaram a circular nas proximidades, os meninos assustados correram para dentro de casa, disseram a mãe e o tio de João Pedro à Reuters. Policiais fortemente armados invadiram a casa, lançando uma granada em seu interior e cravando a estrutura de tiros.

Uma das balas atingiu João Pedro no peito e o matou.

"Quando você entra em uma comunidade atirando, é como se todos da comunidade fossem bandidos. É como se ninguém que presta morasse aqui", disse Rafaela Coutinho Matos, mãe do menino assassinado, em uma entrevista.

Autoridades disseram à família que a morte foi um acidente, disse ela. Elas disseram que helicópteros flagraram um homem que acreditaram ser o alvo de uma operação policial saltando uma cerca perto da piscina.

Em um comunicado, a Polícia Militar do Rio disse que foi aberta uma investigação do incidente e que três policiais foram suspensos. A Polícia Federal, que também participou da operação, não respondeu a um pedido de comentário.

Tais tragédias são comuns no Rio, onde uma força policial notoriamente violenta matou 1.814 pessoas no ano passado, de acordo com estatísticas oficiais. Nos quatro primeiros meses de 2020 foram outras 606.

Muitas mortes de homens negros desarmados, ou crianças, provocam pouco protesto ou atenção da mídia, mas a revolta com a morte de João Pedro e outras queixas recentes de brutalidade policial cresceu com o pano de fundo dos protestos norte-americanos generalizados contra a morte de George Floyd sob custódia da polícia no dia 25 de maio.

ORDEM DO STF

Na sexta-feira, centenas de pessoas se reuniram diante da prefeitura de São Gonçalo bradando "Sem justiça não há paz".

Muitas direcionaram a ira contra Bolsonaro e o governador do Rio, Wilson Witzel, ambos políticos que incentivam a polícia a matar mais criminosos. Witzel, um ex-juiz, disse que o aumento de mortes causadas pela polícia em seu governo "não é difícil de justificar".

Ainda na sexta-feira, Edson Fachin, ministro do STF, emitiu uma ordem proibindo operações da polícia nas favelas do Rio até o pior do surto da Covid-19 passar. A ordem, que fez referência à morte de João Pedro, só permite batidas em "circunstâncias excepcionais", com aprovação prévia de procuradores estaduais.

No domingo, marchas antirracismo em grandes cidades do Brasil atraíram as maiores multidões de manifestantes contra o governo desde a chegada da pandemia, em março. Na capital Brasília, manifestantes carregaram cartazes com o lema "Vidas Negras Importam", que incluíam o nome de João Pedro.

O especialista em segurança pública Ignacio Cano disse que tal reação a uma morte causada pela polícia é inédita, sugerindo que as notícias dos EUA atiçaram a sensibilidade dos brasileiros.

"É triste, de certa forma, que parte da sociedade brasileira tenha que olhar para os EUA para perceber que o problema existe em casa", disse Cano, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

"E a mídia está dando muito mais cobertura agora depois do caso George Floyd do que daria normalmente, dados os casos recorrentes de execuções nas favelas", acrescentou.,

No protesto de sexta-feira em São Gonçalo, a universitária negra Mykaella Moreira ecoou as exigências de direitos humanos que também ganharam os holofotes nos EUA.

"Não podemos aceitar este Estado genocida, que pensa que podemos morrer por nada", disse Moreira. "Também somos gente. Também temos direito de viver".

São Gonçalo é patrulhada pelo 7º Batalhão da Polícia Militar do Rio, a força policial mais letal do Estado, como mostram registros públicos. Em outubro, a Reuters publicou uma investigação sobre a morte de Brayan Mattos dos Santos, jovem de 19 anos que também foi uma vítima não intencional de uma operação no município.

Neste ano, a polícia da área se encaminha para bater seu próprio recorde soturno, já tendo matado 103 pessoas nos primeiros quatro meses. Em março, a corporação estabeleceu um recorde mensal ao matar 33 pessoas, segundo dados públicos.

Embora os brancos componham metade da população fluminense, representam só 12% das mortes causadas pela polícia, de acordo com dados obtidos pela Reuters no ano passado graças a um pedido de liberdade de informação.

(Reportagem adicional de Gabriel Stargardter, no Rio de Janeiro, e Ricardo Brito e Maria Carolina Marcello, em Brasília)

Economia