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Com inflação de serviços à espreita, Copom deve começar a subir Selic em maio, diz ex-BC

Expectativa predominante no mercado é de que Copom manterá a taxa de juros nominal na mínima recorde de 2% hoje - Getty Images
Expectativa predominante no mercado é de que Copom manterá a taxa de juros nominal na mínima recorde de 2% hoje Imagem: Getty Images

20/01/2021 08h33

O Comitê de Política Monetária (Copom) deveria retirar o 'forward guidance' do seu comunicado na reunião desta semana e começar a subir os juros a partir de maio, no máximo, afirma o ex-diretor do Banco Central Tony Volpon, que se diz preocupado com o cenário inflacionário no país e no mundo diante das perspectivas positivas trazidas pela vacinação.

O economista, estrategista-chefe da gestora Wealth High Governance, nota que o avanço da imunização cria condições propícias a um novo repique de consumo, desta vez mais focado em serviços, setor fortemente baqueado pela crise e cuja oferta estará necessariamente restrita.

Ainda que esse aquecimento do consumo possa sofrer tropeços no Brasil, diante do atraso observado na vacinação, o país já seria impactado por uma inflação em alta no exterior, que pode levar a uma reversão das políticas de forte estímulo adotadas nas grandes economias, diz Volpon.

"O que eu acho que o Banco Central deveria fazer rapidamente, e quando digo rapidamente minha expectativa seria a reunião de maio, é já começar normalizar a Selic", diz Volpon. "Gostaria que ele fizesse isso mais cedo, na reunião de março, mas acredito que talvez seja um pouco rápido demais para este Banco Central começar esse ajuste."

Volpon destaca a importância de o Banco Central evitar ser obrigado a promover altas abruptas da Selic à frente caso adote a postura de negar agora os riscos e manter a taxa de juros reais em terreno negativo por mais tempo.

"É muito melhor você acelerar um processo já em curso", afirma, acrescentando que uma elevação gradual da Selic ainda permitiria alguns meses de política estimulativa, já que a taxa real hoje é negativa.

O economista ressalta que, além de a volatilidade da Selic ser danosa à atividade econômica, o Brasil já tem hoje juros básicos abaixo dos praticados em outras economias emergentes com as quais disputa recursos externos, como México e Turquia. "Quem está atrasado, vai sofrer mais."

A expectativa predominante no mercado é de que Copom manterá a taxa de juros nominal na mínima recorde de 2% nesta quarta-feira. A dúvida é se os diretores já eliminarão do comunicado o 'forward guidance', ou orientação futura, como indicaram que fariam "em breve" na reunião anterior, em dezembro.

Com o 'forward guidance', adotado em agosto, o Copom se comprometeu a não elevar os juros até que as expectativas e projeções de inflação se aproximassem das metas e contanto que o governo mantivesse seu regime fiscal.

Desde então, a inflação ganhou força no país, em parte alimentada, segundo especialistas, por um aumento da demanda gerada pelo pagamento do auxílio emergencial às famílias mais vulneráveis pelo governo.

Sob a pressão dos preços de alimentos, o IPCA acabou fechando 2020 em 4,52%, acima da meta central do governo, de 4%. O BC tem frisado que esse choque é temporário, mas deu início ao que Volpon chama de "ritual de enterro" do 'forward guidance', comunicando que a orientação está prestes a ser retirada.

Volpon diz que, ao cabo, o "forward guidance" foi ineficaz em reduzir a curva de juros por causa do risco fiscal que o país enfrenta e que a manutenção dessa sistemática agora é "contraproducente" e também contribui para pressionar a curva.

Isso pode ser revertido, segundo o ex-diretor do BC, com a sinalização pelo BC de que o cenário econômico mudou, com alta de inflação, queda econômica menor do que a esperada e perspectiva de crescimento "bastante forte" por causa das vacinas.

"(Isso) já deve de fato ter um impacto positivo na curva de juros, os juros devem cair, os prêmios devem diminuir", afirmou.

Olhando à frente, Volpon não demonstra muito otimismo com a possibilidade de avanços ainda neste governo de reformas que contribuam para diminuir o risco fiscal. Sua expectativa é que ao longo deste ano o Congresso aprove apenas alguma proposta que combine elementos das propostas de emenda constitucional do Pacto Federativo e a Emergencial, viabilizando o congelamento temporário de despesas.

"Mas isso pode ser uma ponte para a gente chegar no próximo ciclo eleitoral com a situação fiscal relativamente organizada", diz Volpon, acrescentando que então o país terá que definir os passos a serem dados para enfrentar um déficit primário ainda elevado combinado a uma dívida crescente, em um cenário de juros mais altos do que os vigentes hoje.