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Como troca no comando na Petrobras pôs fim ao flerte de Bolsonaro com o mercado

Para muitos investidores, o presidente Jair Bolsonaro acabou com o sonho do renascimento do livre mercado no Brasil  - Reuters
Para muitos investidores, o presidente Jair Bolsonaro acabou com o sonho do renascimento do livre mercado no Brasil Imagem: Reuters

Sabrina Valle, Gram Slattery e Lisandra Paraguassu

No Rio de Janeiro

17/03/2021 08h10

Para muitos investidores, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) acabou com o sonho do renascimento do livre mercado no Brasil por meio de uma publicação no Facebook em uma noite de sexta-feira.

Em uma nota curta divulgada em 19 de fevereiro, Bolsonaro anunciou a saída do presidente da estatal Petrobras, depois de ficar irritado por causa do aumento nos preços dos combustíveis. Na mesma publicação, Bolsonaro indicou um general da reserva sem experiência no setor de óleo e gás para comandar a maior produtora de petróleo da América Latina.

O movimento abrupto, que ocorreu após Bolsonaro garantir que não interferiria na empresa, desencadeou uma liquidação nas ações da Petrobras e em outros papéis brasileiros. Analistas rapidamente rebaixaram uma série de ativos locais, de bancos estatais à dívida soberana.

A Petrobras perdeu 18% de seu valor neste ano, empurrando o índice Ibovespa à queda mais acentuada entre os principais índices acionários do mundo.

Embora a "bomba" representada pela mudança na Petrobras tenha pegado alguns investidores de surpresa, a medida é consistente com o histórico de Bolsonaro. O ex-capitão do Exército, admirador declarado da ditadura militar, há muito defende um populismo de direita que, em relação ao apoio ao controle de indústrias pelo governo, coincide com visões de políticos de esquerda que ele adora criticar.

Em quase três décadas como deputado, Bolsonaro votou repetidas vezes a favor da manutenção de monopólios estatais.

Durante a campanha eleitoral de 2018, no entanto, Bolsonaro mudou de discurso para conquistar o apoio da classe empresarial do país. Ele retratou a si mesmo como alguém convertido pelo livre mercado, pronto para liberar 1 trilhão de dólares em privatizações, e indicou alguns economistas pró-mercado para sua equipe, prometendo deixar a Petrobras ser administrada nos moldes de uma empresa privada.

Mas os movimentos recentes do presidente prejudicaram essa aliança tênue.

Nos últimos meses, Bolsonaro criticou o presidente do Banco do Brasil por cortes de pessoal, desacelerou privatizações e viu prometidas reformas saírem do trilho —incluindo uma que facilitaria a demissão de funcionários públicos e o corte de seus benefícios. Nesse processo, atraiu comparações da imprensa local com outro militar que se tornou presidente: o falecido líder venezuelano Hugo Chávez, um incendiário socialista.

Mirando a eleição presidencial de 2022, Bolsonaro pode ter pouco incentivo para mudar de rumo. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva —importante figura da esquerda brasileira e inimigo declarado das privatizações — se apresenta agora como um possível oponente.

Essa pressão pode afastar Bolsonaro ainda mais da já enfraquecida ala pró-mercado de seu governo.

"Todas essas reformas controversas perderam o apelo para um presidente que nunca foi um fã de políticas econômicas ortodoxas", disse Leonardo Barreto, diretor da consultoria política Vector Brasília. "Bolsonaro usará cada vez mais um traje populista."

A Petrobras não comentou o assunto.

Bolsonaro não respondeu a pedidos por comentário. Ele disse recentemente que as empresas estatais brasileiras devem ter uma "função social" — e que qualquer presidente de empresa pública que não compartilhe dessa visão deve deixar seu cargo.

Rusgas pelo preço do diesel

Bolsonaro é apenas o mais novo presidente a intervir na Petrobras, cujo virtual monopólio no refino dá à empresa controle sobre os preços domésticos dos combustíveis.

A presidente Dilma Rousseff, por exemplo, subsidiou os preços dos combustíveis de 2011 a 2014 para controlar a inflação, medida que custou 40 bilhões de dólares à Petrobras. Seu sucessor, Michel Temer, deixou os preços subirem por um tempo, mas acabou enfrentando uma greve de caminhoneiros que paralisou a economia.

Como Dilma e Temer, Bolsonaro tem encarado forte pressão neste 2021, diante do aumento nos preços internacionais do petróleo, que atingiram máximas em um ano, levando o CEO da Petrobras, Roberto Castello Branco, a subir os preços do combustível seis vezes entre o início de novembro e janeiro. Os caminhoneiros responderam com ameaças de uma nova greve no final de janeiro, testando o compromisso declarado de Bolsonaro com uma Petrobras independente.

Castello Branco, um economista de 76 anos formado pela Universidade de Chicago e indicado há dois anos para reestruturar a empresa, disse durante um webinar em 28 de janeiro que a demanda dos caminhoneiros por preços mais baixos do diesel "é um problema que não é da Petrobras", comentário que irritou Bolsonaro, conforme disseram duas fontes à Reuters.

A questão atingiu o ápice no dia 5 de fevereiro, uma sexta-feira, quando Castello Branco chegou a Brasília para uma reunião presencial para discutir os preços dos combustíveis com Bolsonaro e seu gabinete.

Em uma entrevista coletiva após a reunião, Bolsonaro disse que o governo reduziria os preços nas bombas por meio de cortes impostos sobre os combustíveis, sem interferir na petroleira.

"Jamais controlaremos o preço da Petrobras. A Petrobras está inserida internacionalmente com suas políticas próprias e nós a respeitamos", afirmou Bolsonaro.

A declaração acabou contestada naquela mesma tarde, quando a Reuters publicou uma matéria revelando que a Petrobras havia ampliado seu prazo para calcular a paridade internacional de preços de combustíveis, movimento que permitiu que as cotações nas bombas permanecessem artificialmente baixas.

A reportagem desencadeou uma queda de 4% nas ações da Petrobras, revertendo uma recuperação inicial de 3,5% na esteira da promessa de Bolsonaro de não interferir na empresa. Na sequência, vieram os rebaixamentos de recomendações de analistas.

Castello Branco —ansioso para demonstrar sua independência, segundo uma pessoa próxima a ele — elevou o preço do diesel em mais 6% em 8 de fevereiro.

Um aumento ainda maior no diesel em 18 de fevereiro, de 15,2%, deixou Bolsonaro furioso, de acordo com duas fontes próximas à situação. Para o presidente, o reajuste desestabilizou os esforços do governo para acalmar os caminhoneiros, disseram as fontes.

Naquela noite, durante uma transmissão ao vivo semanal em redes sociais, o presidente reclamou do aumento "excessivo" nos preços e ameaçou. "Alguma coisa vai acontecer na Petrobras nos próximos dias", disse, sem dar mais detalhes.

Bolsonaro anunciou a substituição de Castello Branco no dia seguinte, por meio de uma publicação no Facebook que chocou o mercado. O mandato do executivo na empresa encerra em 30 de março.

Castello Branco preferiu não comentar o assunto.

Sua vaga será ocupada pelo general da reserva e ex-ministro da Defesa Joaquim Silva e Luna, o mais recente de uma série de militares de quem Bolsonaro se cercou desde que assumiu a presidência.

Questionado pela Reuters sobre especulações de que daria ao governo uma influência desproporcional na companhia, Luna destacou que a Petrobras é uma empresa de capital misto, com participação tanto pública quanto privada, classificando a governança da petroleira como "muito equilibrada e controlada".

Ele preferiu não fazer mais comentários.

Dúvidas sobre privatizações

No mês passado, Bolsonaro disse que as privatizações de empresas estatais —especificamente os Correios e a Eletrobras —, estão entre suas prioridades legislativas para este ano.

Seu compromisso com esse esforço, porém, ainda precisará ser demonstrado.

Em meados de janeiro, ele esteve perto de demitir o presidente-executivo do Banco do Brasil, André Brandão, por causa de planos do banco para fechar 361 agências, como parte de um programa de corte de custos.

Em 25 de janeiro, o presidente da Eletrobras, Wilson Ferreira Junior — indicado por Temer em 2016 e depois incumbido por ele da missão de privatizar a empresa —, renunciou alegando falta de tração para a desestatização. Em conferências com analistas e jornalistas, ele culpou o Congresso, e não Bolsonaro.

No mesmo dia, a diretora de Refino e Gás da Petrobras, Anelise Lara, se aposentou. Ela liderava um ambicioso programa para a venda de oito refinarias no país, ou cerca de 50% da capacidade de refino do Brasil. Analistas do BTG Pactual e de outros bancos disseram que esse plano foi colocado em dúvida devido à mudança no comando da empresa.

Poucos dias depois, o diretor de Governança da Petrobras, Marcelo Zenkner, também deixou a empresa.

Preocupações com a interferência do governo na Petrobras tiveram um papel nas decisões tomadas pelos ex-executivos, disseram à Reuters duas pessoas próximas a eles.

Zenkner não respondeu a um pedido por comentários. Lara preferiu não comentar e encaminhou a Reuters à assessoria de imprensa da Petrobras, que reiterou declarações anteriores de que Lara havia se aposentado e que Zenkner deixou o cargo por motivos pessoais.

Os investidores que ainda esperam que Bolsonaro promova grandes alterações nas estatais brasileiras estão se iludindo, disse Mauro Cunha, ex-membro independente do conselho da Petrobras e ex-presidente da Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec).

"Os argumentos de que 'desta vez é diferente' são como um sonho de criança", afirmou Cunha.

(Reportagem adicional de Tatiana Bautzer, Anthony Boadle, Rodrigo Viga Gaier, Jamie McGeever e Gabriel Araujo)

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