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XP Investimentos vê avanços, mas segue cautelosa com bolsa no Brasil

06/04/2023 13h36

Por Paula Arend Laier

SÃO PAULO (Reuters) - A XP Investimentos permanece com uma visão cautelosa em relação à bolsa brasileira, em meio a incertezas políticas, fiscais e manutenção de políticas monetárias restritivas, mesmo avaliando que os preços das ações estão bastante descontados.

"Continuamos posicionados defensivamente e preferimos ativos mais resilientes e de alta qualidade", afirma a XP, em amplo relatório que analisa os 100 primeiros dias do ano e busca ajudar na tomada de decisão sobre os investimentos nos próximos 265 dias.

Os analistas da XP citam uma perspectiva um pouco melhor frente ao final de 2022, devido a melhoras nas projeções de resultados das empresas e taxas reais de longo prazo mais baixas - o que apoiou a mudança neste mês do valor justo estimado para o Ibovespa de 125 mil para 128 mil pontos no fim de 2023.

Mas ressaltam que incertezas em relação ao ciclo de alta de juros pelo Federal Reserve e o aumento dos temores de uma recessão, além das incertezas adicionadas com a crise bancária, podem manter o apetite global por risco reduzido por mais tempo.

No Brasil, a equipe de estrategistas, economistas e analistas da XP destaca que, embora as novas regras do arcabouço fiscal do país tenham sido "finalmente anunciadas", ainda existem muitas questões a serem resolvidas, principalmente o impacto em diferentes setores e empresas da bolsa paulista.

Em um cenário pessimista, calculam o Ibovespa em 88 mil pontos, enquanto em um cenário otimista, o índice terminaria o ano em 149 mil pontos.

"A conclusão é que o Ibovespa atualmente precifica um cenário mais próximo do pessimista do que do otimista. Isso corrobora nossa visão de que a margem de segurança das ações brasileiras hoje é bastante elevada."

Na véspera, o Ibovespa, referência do mercado acionário brasileiro, fechou a 100.977,85 pontos, contabilizando uma perda de quase 8% no ano.

Os analistas da XP afirmam que, caso haja espaço para a redução da Selic, com a inflação de fato mais controlada e sem uma desaceleração brusca na atividade econômica, poderão voltar a tomar mais risco em ativos locais, "até mesmo em renda variável".

Os principais temas de investimentos em renda variável da equipe da XP, por ora, continuam sendo commodities, histórias de crescimento secular - que tenham baixa correlação com a expansão da economia - e qualidade a um preço razoável.

ECONOMIA

Os analistas veem a atividade doméstica ainda em trajetória positiva, porém com sinais cada vez mais claros de desaquecimento. Também notam que a inflação, que vinha desacelerando, parece ter se estabilizado em patamar ainda elevado. E avaliam que, na frente fiscal, "avançamos pouco".

Para a equipe da XP, é uma boa notícia que o novo arcabouço tenha um limite para a expansão fiscal à frente. Mas uma "notícia não tão boa" é que esse limite é amplo o suficiente para que a política fiscal continue expansionista, a menos que venha um aumento relevante - e incerto - da carga tributária.

Falando da política monetária, apontam que a nova regra fiscal tende a ser útil, pois fornece limites e alguma visibilidade, embora não necessariamente abra espaço para juros mais baixos ao longo do tempo. Mas ponderam que uma deterioração das condições de crédito pode levar à queda dos juros mais cedo.

Temas como a reforma tributária, parcerias público-privadas (PPPs), o papel do BNDES e da Petrobras são citados no relatório como fundamentais para o desempenho econômico brasileiro em 2023 e nos anos seguintes.

A projeções da XP para o ano apontam crescimento de 1% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve subir 6,2% e a taxa Selic terminará o ano em 12%, com o início dos cortes esperado para a partir do segundo semestre. No câmbio, veem taxa de 5,30 reais por dólar.

"A nosso ver, a incerteza fiscal e os ruídos políticos sobre o quadro fiscal pesam sobre a taxa de câmbio, evitando a valorização que seria esperada pela balança comercial positiva e pelos preços de commodities favoráveis".

POLÍTICA

A XP avalia que o governo ainda está em período de lua de mel, com popularidade na casa dos 40%, avaliação que deve ser mantida entre 30% e 40% se for confirmado o cenário combinado de letargia econômica e inflação persistente.

"Esse intervalo significa que a percepção do governo será, a todo momento, a de que a oposição é uma ameaça eleitoral crível em 2026 e, por esse motivo, deve haver resistência sobre políticas econômicas que incorram em relevante custo político de curto prazo", afirma.

Eles veem arbitragens em favor da equipe econômica, que consideram ilustrativas de que, até aqui, a pressão petista tem sido acomodada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas alertam que a continuidade dessa dinâmica depende do êxito da equipe do ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

E a principal missão da equipe econômica, acrescentam, é criar condições ao Banco Central para reduzir os juros num horizonte curto de tempo e, assim, impulsionar o crescimento que Lula vê como necessário para manter níveis de popularidade suficientes para a disputa de 2026.

"Se não houver êxito nessa missão, o risco é o de que as arbitragens passem a pender cada vez mais para a ala expansionista, deteriorando o cenário atual."

EXTERIOR

O cenário global, na visão da XP, também passa por desafios que podem se intensificar nos meses à frente.

No caso dos Estados Unidos, eles apontam que os dados divulgados desde o começo do ano mostraram que as pressões inflacionárias persistem e o mercado de trabalho segue muito apertado, o que deveria fazer o Fed subir os juros para patamares mais altos e por mais tempo.

"No entanto, a preocupação sobre uma crise financeira nos EUA, desencadeada pelo colapso do SVB e outros bancos, tornou o cenário econômico muito mais nebuloso", escreveram no relatório, estimando que o BC norte-americano deve encerrar o ciclo de alta dos juros em breve, com uma taxa terminal de 5,25% ou 5,5%.

Eles ainda veem espaço para flexibilização da política monetária no começo do próximo ano, conforme o processo de desinflação avance, com a Selic chegando a 3,5% no final de 2024.

Ainda assim, afirmam estar também cautelosos com o mercado acionário norte-americano, entendo que os preços não parecem embutir, entre outros, os riscos crescentes de recessão na esteira do aperto monetário do Fed, com mais espaço para contração de margens e lucros.

Em relação à China, avaliam que o país experimenta um momento diferente do ciclo econômico global, com aceleração do crescimento, enquanto a reabertura daquela economia também começa a ser refletida nos dados, além de um governo mais pró-mercado e estimulando a expansão econômica.

(Edição Alberto Alerigi Jr.)