Taxas futuras caem com baixa dos yields nos EUA e risco fiscal menor no Brasil

Por Fabricio de Castro

SÃO PAULO (Reuters) - As taxas dos contratos de DI encerraram a terça-feira em queda firme, reagindo à baixa dos rendimentos dos Treasuries após comentários de dirigentes do Federal Reserve e a uma percepção de risco fiscal menor no Brasil, após notícias de que a meta de resultado primário para 2024 não será alterada no curto prazo.

No exterior, o dia foi de queda das taxas dos Treasuries, com os papeis refletindo a leitura de que o Fed está próximo de encerrar seu ciclo de alta de juros. Comentários de alguns dirigentes do banco central norte-americano contribuíram para isso.

O presidente do Fed de Chicago, Austan Goolsbee, afirmou nesta terça-feira que houve avanços significativos para levar a inflação nos EUA de volta à meta de 2%.

“Enquanto estivermos progredindo, como venho dizendo há algum tempo, o momento de discutir até que ponto a taxa deve subir vai desaparecer e se transformar em até quando devemos manter os juros nesse nível, já que a inflação está caindo", disse.

Na segunda-feira, a diretora do Fed Lisa Cook já havia adotado um discurso semelhante, ao dizer que espera que a taxa de juros atual, de 5,25% a 5,5%, seja restritiva o suficiente para que a inflação volte à meta ao longo do tempo.

Com uma visão um pouco mais hawkish (dura com a inflação), o presidente do Fed de Minneapolis, Neel Kashkari, disse que a instituição pode ter que fazer mais para levar a inflação de volta à meta.

“Os investidores gostaram do discurso de alguns membros do Fed, sinalizando que talvez o juro não seja mais elevado este ano, pelo menos, e indicando que a alta das taxas longas (dos títulos), se sustentadas, podem ajudar a política monetária”, comentou o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno.

Neste cenário, os rendimentos dos Treasuries cederam e, em paralelo, a taxa dos contratos futuros de juros caíram no Brasil, em especial entre os vencimentos com prazos mais longos.

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Internamente, uma visão mais otimista em relação à área fiscal contribuiu para a queda do dólar ante o real e para o fechamento da curva a termo.

O jornal Folha de S.Paulo noticiou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva descartou o envio, ainda nesta semana, de mensagem ao Congresso para modificar a proposta da meta fiscal de 2024.

A Reuters confirmou a apuração com duas fontes a par das negociações. Segundo elas, o governo manterá, ao menos por enquanto, a busca pelo déficit zero para dar tempo ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de negociar a aprovação de medidas que ampliam a arrecadação e tentar evitar uma mudança.

O discurso no governo é de que, depois de ser atropelado pela declaração inesperada de Lula de que dificilmente a meta de déficit zero será mantida, Haddad conseguiu retomar as rédeas do processo.

“Isso ajuda a diminuir um pouco o prêmio na curva, embora o cenário base continue sendo que é apenas questão de tempo para a meta fiscal ser alterada. Mas é um recuo tático do governo”, comentou Rostagno durante a tarde.

O governo estabeleceu meta de resultado primário zero para 2024, mas Lula colocou em dúvida recentemente a capacidade de sua administração alcançar o resultado. No mercado financeiro, é dado como certo que em algum momento o parâmetro precisará ser mudado.

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Pela manhã, a ata do último encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central registrou que, “no período mais recente, cresceu a incerteza em torno da própria meta estabelecida para o resultado fiscal, o que levou a um aumento do prêmio de risco”. Ao mesmo tempo, o BC defendeu a busca firme da meta estabelecida. No documento, a instituição descreveu ainda uma piora do cenário externo.

“A ata do Copom trouxe um tom mais ‘duro’ que o comunicado pós-encontro, principalmente atentando-se aos riscos no exterior e trazendo a palavra ‘cautela’ cinco vezes -- enquanto na última ata havia sido citado apenas duas vezes”, pontuaram o economista-chefe Alexandre Espirito Santo e a analista de macroeconomia Eduarda Schmidt, da Órama Investimentos, em comentário enviado a clientes.

A ata do Copom, apesar de bastante observada, ficou em segundo plano nesta terça-feira, com a curva a termo refletindo mais diretamente o exterior e certo alívio com a questão fiscal.

Perto do fechamento a curva a termo precificava em 92% as chances de o corte da taxa básica Selic em dezembro ser de 0,50 ponto percentual, como vem sinalizando o BC. Já as chances de corte de apenas 0,25 ponto percentual eram precificadas em 8%. Atualmente, a Selic está em 12,25% ao ano.

No fim da tarde, a taxa do DI para janeiro de 2025 estava em 10,805%, ante 10,865% do ajuste anterior, enquanto a taxa do DI para janeiro de 2026 estava em 10,61%, ante 10,719% do ajuste anterior.

Entre os contratos mais longos, a taxa para janeiro de 2027 estava em 10,755%, ante 10,917%, enquanto a taxa para janeiro de 2028 estava em 10,975%, ante 11,155%.

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Às 16:37 (de Brasília), o rendimento do Treasury de dez anos --referência global para decisões de investimento-- caía 10,20 pontos-base, a 4,5603%.

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