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Carla Araújo


Economia vê irresponsabilidade na discussão de ampliar auxílio emergencial

Paulo Guedes retira os óculos para fixar o olhar num ponto distante - Foto: Jorge William/Agência O Globo
Paulo Guedes retira os óculos para fixar o olhar num ponto distante Imagem: Foto: Jorge William/Agência O Globo
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

13/05/2020 12h26

A despeito da importância de garantir uma renda mínima aos brasileiros mais vulneráveis durante a pandemia do coronavírus, a pressão crescente para que o governo estude uma forma de ampliar o auxílio emergencial é vista como uma "irresponsabilidade" pela equipe do ministro Paulo Guedes (Economia).

"É claro que todo mundo quer dar um auxílio maior para a população. Se a gente pudesse seria ótimo, mas não temos condições fiscais de manter o auxílio de maneira perene", afirmou o secretário-executivo da pasta, Marcelo Guaranys, à coluna.

Ontem, o ministério já havia rebatido em nota qualquer intenção neste sentido e desautorizado uma fala do secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade, Carlos da Costa.

Guaranys disse ainda que é possível que a pasta discuta formas de tornar mais eficientes os programas sociais, mas que para isso será preciso dar mais flexibilidade ao Orçamento, por exemplo, eliminando outras despesas.

Outra fonte do Ministério reclama da irresponsabilidade na discussão, lembra que o país não tem dinheiro para arcar com essa ampliação ou permanência do benefício e lamenta que as discussões políticas atrapalhem a condução da economia.

Além disso, salienta que a dívida pública já está numa trajetória de elevação e que isso pode vir a paralisar o país em breve.

Pressão política

O presidente Jair Bolsonaro tende a ampliar seu capital político com uma extensão do auxílio, mesmo que divida com o Congresso a paternidade da medida. Isso porque programas de transferência de renda historicamente acabam gerando ganhos políticos e aprovação.

Pesquisa Datafolha feita em 27 de abril já mostrou que entre os entrevistados com renda familiar de até dois salários mínimos 30% consideraram o governo ótimo ou bom, número superior aos 22% identificados na pesquisa anterior, feita em dezembro do ano passado.

Ontem, questionado sobre a possibilidade de estender ou tornar permanente o benefício, o presidente mostrou indecisão sobre o tema e depois recorreu à resposta padrão: "Economia é com o Paulo Guedes".

Apesar da resistência e da tentativa de manter o mínimo de responsabilidade fiscal, a equipe de Guedes já amargou algumas derrotas para a chamada ala política e também para o próprio Congresso. Só lembrar o próprio auxílio emergencial mesmo: inicialmente o governo propôs dar parcelas de R$ 200 aos vulneráveis.

Ao chegar no Congresso, porém, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ampliou o benefício para R$ 500. E depois, Bolsonaro - que segue protagonizando disputas com Maia - quis ter a palavra final e chegou aos R$ 600.

Se de um lado não há dinheiro para o país pagar e de outro há pressão política para que o auxílio dure mais do que o previsto, há no meio de tudo isso pelo menos um fator que independe da vontade desses atores: a pandemia e a incerteza sobre o quanto ela vai durar. Infelizmente, nesta área, o país não para de registrar recordes. Ontem, bateu a marca de 12 mil mortes, sendo 881 óbitos em apenas um dia.

Carla Araújo