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Carla Araújo

Ao pedir patriotismo ao mercado, Bolsonaro enfraquece agenda de Guedes

Jair Bolsonaro e Paulo Guedes - Uéslei Marcelino/Reuters
Jair Bolsonaro e Paulo Guedes Imagem: Uéslei Marcelino/Reuters
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

14/08/2020 14h49

A declaração do presidente Jair Bolsonaro pedindo mais tempo e patriotismo ao mercado financeiro foi lida por especialistas como um teste, além de ficar cercada de desconfiança. Além disso, não é de hoje que de tempos em tempos a possível saída do ministro da Economia, Paulo Guedes, volta a ser ventilada.

A postura dúbia do presidente amplia a desconfiança dos investidores de que a agenda de Guedes será de fato mantida. "A percepção de uma incerteza elevada deve continuar, mesmo que não se tenha a ruptura formal do teto", afirmou o cientista político da Tendências Consultoria, Rafael Cortez, à coluna.

Na avaliação de Cortez, a antecipação do calendário eleitoral e o ganho de popularidade do presidente são boas notícias para Bolsonaro e talvez nem tanto para o ministro da Economia. "Um presidente mais forte do ponto de vista político é menos dependente de qualquer que seja a agenda", disse.

Guedes aprendeu a perder

Desde a campanha eleitoral, Bolsonaro avisou que não entendia de economia. Delegou tudo ao seu "posto Ipiranga": Paulo Guedes. Em 18 meses, Guedes teve que aprender a lidar com o Congresso e já amargou uma série de derrotas.

De Congresso, Bolsonaro entende. O presidente passou quase 30 anos na Câmara dos Deputados, fez os filhos políticos. Com atuação parlamentar discreta, Bolsonaro investiu em campanha. E agora parece que 2022 está chegando depressa. Esse é um dos principais focos do presidente no momento. Guedes entendeu.

Candidato do nordeste

O presidente também já avisou que o dinheiro que parte da sua equipe quer a mais para investir em obras públicas será destinado ao Nordeste. "Os R$ 20 milhões que a gente quer arrumar (...) é para água no Nordeste", disse.

Bolsonaro tem dedicado atenção especial a esta região do país, que amarga tristes índices de carência e que politicamente representa boa parte do eleitorado brasileiro.

Além disso, o Nordeste foi uma das regiões mais ligadas ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que ampliou o Bolsa Família e foi acusado de usar o programa para garantir voto.

Bolsonaro agora está justamente sentindo o aumento de popularidade. E ela vem principalmente por conta do auxílio emergencial, que já atendeu 66 milhões de brasileiros mais vulneráveis.

Nesta sexta-feira, ele inclusive compartilhou nas redes sociais a capa do jornal Folha de S.Paulo, que estampava a manchete: "Bolsonaro tem aprovação recorde; rejeição cai 10 pontos".

Lula teve que entender

Ao investir no Nordeste, Bolsonaro também parece repetir gestos de Lula que, apesar de atualmente não poder ser candidato, é visto como o principal antagonista do presidente.

Quando ainda era candidato, em junho de 2002, Lula publicou a "Carta ao Povo Brasileiro", em um claro recado ao setor financeiro de que se eleito respeitaria contratos e haveria diretrizes econômicas.

O aceno, eternizado em um papel de compromisso público, foi positivo para Lula, que conquistou o apoio do mercado. E foi eleito.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.