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Carla Araújo


Carla Araújo

"Pode ir embora", disse Guedes após reclamações de Salim em reunião

Salim Mattar, ex-secretário especial de Desestatização do Ministério da Economia - Antonio Cruz/Agência Brasil
Salim Mattar, ex-secretário especial de Desestatização do Ministério da Economia Imagem: Antonio Cruz/Agência Brasil
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

e Antonio Temóteo, do UOL em Brasília

13/08/2020 14h42Atualizada em 13/08/2020 17h15

No momento em que o então secretário especial de Desestatização Salim Mattar reclamou ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que a agenda de privatizações estava lenta, Guedes não hesitou: "pode ir embora", disse o ministro, segundo relatos de auxiliares do governo.

Salim acompanhou Guedes em uma agenda com o presidente Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto na terça-feira (11) de manhã. Lá, o presidente também não fez esforço para segurar o secretário. Disse que o ministro tem seu apoio e minimizou a demissão de Salim, delegando a Guedes a condução de sua equipe. Depois, em outras conversas com a sua equipe, o ministro reforçou que precisava de alinhamento.

No mesmo dia, Paulo Uebel, então secretário de Desburocratização, Gestão e Governo Digital, que para alguns auxiliares da pasta agia como "sombra de Salim", resolveu anunciar que também não via razões para continuar. Ele estava com a reforma administrativa pronta desde o ano passado, mas Bolsonaro avisou que não queria que ela fosse apresentada neste ano. Guedes novamente não fez esforço para mantê-lo e aceitou "a debandada".

Segundo relatos de pessoas próximas ao ministro, Guedes se rendeu à força política e avisou aos seus subordinados o que também deixou claro publicamente: "quem manda é o presidente" e "ele é quem tem voto".

Por outro lado, o ministro disse que contaria com o apoio mínimo do presidente para a manutenção de sua agenda e pediu um aceno público de Bolsonaro em defesa do teto dos gastos.

A defesa pública do teto seria também uma forma de agradar o Congresso, já que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, é defensor da manutenção do limite dos gastos.

Ontem, ao lado de Maia e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, Bolsonaro fez uma declaração à imprensa dizendo que respeita o teto de gastos e apoia a responsabilidade fiscal.

Carlos da Costa pode ser nova baixa

Pelo menos uma nova baixa é aguardada, mas pode ser adiada para não aumentar os rumores de enfraquecimento de Guedes: o secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade, Carlos da Costa.

Há tempos, ele não tem agradado o ministro. Há relatos de bate-bocas e também de falta de entrosamento com a equipe. Carlos da Costa foi uma indicação do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. O secretário foi calouro de Campos Neto na Universidade da Califórnia.

Cotados

A mudança no Ministério da Economia ainda está sendo avaliada, mas é possível que o organograma com 21 secretarias seja reduzido. Para o lugar de Salim, Guedes deve mesmo escolher a atual secretária do PPI (Programa de Parcerias de Investimento), Martha Seillier.

Para suceder Uebel, três nomes aparecem na lista de apostas. O primeiro é Wagner Lenhart, atual secretário de Gestão e Desempenho de Pessoal do Ministério da Economia. Os outros dois cotados são Gleisson Rubin, secretário-adjunto de Desburocratização, e Caio Paes de Andrade, presidente do Serpro. Andrade, porém, prefere continuar no comando da estatal, onde tem um salário maior.

Ainda amigos

Apesar do desembarque de Salim do governo, ele e Guedes continuam amigos. Os planos do ex-subordinado de Guedes incluem manter residência em Brasília. Ele ficará entre Belo Horizonte e a capital federal.

Além disso, Salim voltará a defender a agenda liberal, por meio do IFL (Instituto de Formação de Líderes). Ele quer formar jovens e espalhar os conceitos do liberalismo econômico no interior do Brasil.

Por dentro de Brasília

Ao chegar ao governo como "superministro" e "posto-ipiranga" do presidente, Guedes tinha pouca experiência no mundo político. Antes mesmo de Bolsonaro tomar posse, durante o governo de transição, o futuro ministro sugeriu que o governo Temer desse uma prensa no Congresso para aprovar a reforma da previdência.

Ali já começou a causar barulho e chamou atenção dos parlamentares pela falta de tato. Ao longo desses 18 meses de governo, o ministro não deixou de colecionar declarações polêmicas, mas agora parece ter entendido que não adianta ser um superministro: o Congresso é soberano. Tem poder. E tem voto popular também.

Em um evento em julho, Guedes disse que se o presidente desistisse "da agenda, se o Congresso interditar a agenda, eu não tenho o que fazer; tenho que ir embora para casa". Nesta mesma ocasião, porém, avisou: "eu só saio abatido à bala; removido à força".

O ímpeto do ministro em continuar no cargo parece continuar. Ele já entendeu que terá que conviver com concessões. Que Bolsonaro —cada vez mais candidato à reeleição— fará acenos a ele, mas agradará também outros aliados, como o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho.

Marinho se contrapõe a Guedes ao defender o aumento do gasto público para o Brasil sair da crise no pós-pandemia.

Carioca, Guedes, que atualmente mora na Granja do Torto, uma das residências oficiais da Presidência da República, parece ter entendido um pouco mais dos meandros de Brasília. Conta com a promessa do presidente de que o teto será mantido e assim tenta seguir com a sua agenda liberal, que, no momento, ainda segue mais no papel.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Carla Araújo