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Carla Araújo

Racha entre entidades coloca em dúvida adesão à greve de caminhoneiros

27 jan. 2021 - Caminhoneiros do setor frigorífico protestam contra aumento do ICMS em São Paulo - Aloisio Mauricio/FotoArena/Estadão Conteúdo
27 jan. 2021 - Caminhoneiros do setor frigorífico protestam contra aumento do ICMS em São Paulo Imagem: Aloisio Mauricio/FotoArena/Estadão Conteúdo
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

29/01/2021 18h41Atualizada em 29/01/2021 22h01

Uma categoria extremamente descentralizada, mas que conseguiu parar o Brasil por 10 dias em 2018. A mobilização de caminhoneiros autônomos e de algumas entidades que representam os trabalhadores para a realização de uma greve nacional na próxima segunda-feira (1º) tem encontrado resistência de outras confederações, o que amplia as dúvidas sobre o real tamanho e potencial do movimento. O governo, nos bastidores, segue o discurso de que a situação ainda está sob controle.

Apesar disso, o presidente Jair Bolsonaro, que tenta manter o apoio da categoria, sabe que o governo não pode baixar a guarda e nem permitir que o movimento de 2021 ganhe corpo suficiente para trazer problemas ao governo, ao país e até mesmo para o seu projeto de reeleição.

As principais entidades à frente da convocação são a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transporte e Logística (CNTTL), a Associação Nacional de Transporte no Brasil (ANTB), e o Conselho Nacional de Transporte Rodoviário de Cargas (CNTRC).

A CNTTL é originalmente ligada a CUT (Central Única dos Trabalhadores) e afirma reunir cerca de 300 sindicatos. Já a ANTB, presidida por José Roberto Stringasci, diz que representa cerca de 4,5 mil caminhoneiros.

Já a CNTRC, criada em setembro do ano passado e que ainda não possui CNPJ (cadastro Nacional de Pessoa Jurídica), tem prometido ser a grande mobilizadora do movimento. Em ofícios enviados ao governo, o Conselho diz congregar 26 entidades, entre sindicatos, associações e cooperativas, representativas dos transportadores rodoviários de cargas, congregando 40 mil caminhoneiros.

O diretor-presidente da CNTR, Plínio Dias, foi candidato a vereador no ano passado pelo PP, mas teve apenas 99 votos na cidade paranaense de São José dos Pinhais.

As três principais entidades que incentivam o movimento ganharam apoio de algumas outras organizações como a Federação Única dos Petroleiros (FUP) e a Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB).

"Não estamos fazendo ato, estamos fazendo luta. A partir da meia-noite de domingo, estaremos avaliando a situação e seguindo as determinações os dirigentes da categoria", disse à coluna o presidente da CGTB, Ubiraci Dantas de Oliveira.

Pauta virou política?

Uma das figuras que ganhou notoriedade durante a greve de 2018, o presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava), Wallace Landim, conhecido como Chorão, decidiu não aderir à greve de 2021.

Em nota, Chorão argumentou que está acontecendo um uso político dos caminhoneiros. "A Abrava não participará da paralisação do dia 1º de fevereiro por entender que estão tentando utilizar a categoria dos caminhoneiros como massa de manobra e perdendo o objetivo de luta de direitos da categorias".

Ele alertou ainda que grupos estão aproveitando a luta considerada legítima da categoria para erguer bandeiras de "fora Dória, fora Bolsonaro e fechamento do STF".

Apesar da decisão institucional de não aderir, a entidade reforça que continuará trabalhando pelas demandas da categoria e ofereceu o departamento jurídico para caminhoneiros que quiserem aderir à greve para "auxiliar em qualquer eventualidade e problema que ocorra" durante as manifestações.

Fora de hora

Por outro lado, há confederações que defendem que, principalmente por conta da pandemia, o momento não é para greves.

Uma delas é a CNT (Confederação Nacional do Transporte), que atua desde 1954 e reúne 26 federações e quatro sindicatos nacionais. Em nota, a entidade disse que mesmo que haja algum movimento de paralisação as transportadoras podem garantir o abastecimento do país, "desde que seja garantida a segurança nas rodovias".

A CNTA (Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos) também divulgou nota afirmando que ser contra o movimento grevista e disse que "apesar das dificuldades dos caminhoneiros, este não é o momento ideal para uma paralisação, principalmente, em virtude da delicada realidade que o País está passando".

"A entidade acredita que o atual cenário é propício para o fortalecimento do trabalho do caminhoneiro e a sua contribuição para o enfrentamento da pandemia", diz a confederação.

Na argumentação da CNTA, uma paralisação pode acarretar aglomeração e aumentar o risco de contaminação dos caminhoneiros, familiares e da população em geral. Além disso, a entidade afirma que eventuais impactos na circulação de mercadorias podem impactar no combate e tratamento da doença.

"Reforço a necessidade de que os "caminhoneiros do bem" busquem se informar para que não sejam utilizados como massa de manobra por outros entes, com interesses políticos e pessoais não relacionados com as necessidades reais da categoria", disse à coluna o assessor executivo da CNTA, Marlon Maues,

Para ele, o "verdadeiro caminhoneiro" e a sociedade não podem pagar o preço de uma possível paralisação "articulada por pessoas irresponsáveis e sem condições técnicas e relacionais para conduzirem propostas construtivas na busca de soluções para a categoria".

O argumento de prejudicar a sociedade em meio à pandemia também foi utilizado pela Conftac (Confederação Nacional dos Caminhoneiros e Transportadores Autônomos de Bens e Cargas), que reúne diversas federações estaduais. A decisão de se manifestar de forma contrária à greve aconteceu após uma reunião no último dia 25 com a diretoria da Abcam (Associação Brasileira dos Caminhoneiros).

Na nota, após o encontro, a entidade diz que a maioria dos representantes acredita que o "momento não é oportuno para a realização de um movimento de paralisação, visto os danos irreparáveis que podem ser gerados para a sociedade brasileira".

"A maioria é contrária à especulação política escancarada de alguns, ávidos por obter benefícios escusos sobre a já dolorida experiência da pandemia do covid-19, vivida por milhares de famílias enlutadas; que não podem sofrer mais um baque, como o de um desabastecimento no país", diz o texto.

Reivindicações continuam

Apesar de posicionamentos divergentes em relação à greve, praticamente todas as entidades representativas possuem a mesma pauta de reivindicações e dizem que seguirão buscando melhores condições para os caminhoneiros do país.

Eles reclamam do alto preço do Diesel e dos pedágios, dos baixos preços dos fretes e descumprimento da lei que prevê o piso mínimo de fretes, medida cuja constitucionalidade está para ser analisada pelo STF (Supremo Tribunal Federal).

Errata: o texto foi atualizado
A cidade de São José dos Pinhais fica no Paraná, não em São Paulo. A informação foi corrigida no texto.