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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Há inflação no mundo, mas Brasil é campeão, e o governo tem parte da culpa

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José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

13/10/2021 18h42Atualizada em 13/10/2021 20h24

O ministro Paulo Guedes continua firme no papel de animador de auditório do governo Bolsonaro. Classificado como um "cheerleader" da economia pelo respeitado economista Affonso Celso Pastore, Guedes voltou a exagerar diante de câmeras e microfones.

Desta vez em Washington, onde se encontra para a reunião de outono (no hemisfério norte) do FMI/Banco Mundial, o ministro lamentou, nesta terça-feira (12), a inflação elevada, que passou dos dois dígitos em setembro, no acumulado em 12 meses. Mas, como o governo de que faz parte e as políticas que ele mesmo determina não tivessem nada a ver com o problema, Guedes considerou que a alta de preços no Brasil acompanha um fenômeno global e culpou a subida de preços de alimentos e da energia pela atual pressão sobre o poder aquisitivo da população.

O ministro segue o estilo do chefe Bolsonaro, tirando o corpo fora de responsabilidades. Se é verdade que muitos países vivem, neste momento, ciclos inflacionários, o Brasil foge ao padrão com inflação mais intensa. No grupo das 20 maiores economias do mundo, a inflação brasileira só não é tão alta quanto a da Argentina (47% de alta em 12 meses) e da Turquia (17,8%). Os três países são os únicos do grupo com inflação acima de 10%.

Mais do que essa incômoda companhia, a inflação de alimentos no Brasil é uma excrescência, para o país que é o segundo maior exportador mundial de alimentos. No agregado do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), em um ano, o aumento nos preços dos alimentos passou de 15%, mas os preços de alguns itens de grande peso na cadeia alimentar explodiram.

Preços de soja, milho e algodão subiram mais de 70%, em 12 meses até setembro. Essas altas impactaram nos preços do óleo de soja, com alta acima de 30%, frango e carne bovina de segunda, também 30% mais caros, enquanto o preço do arroz registrou elevação de 55%. A culpa por essa explosão de preços, pelo menos em parte, é diretamente do governo.

Bolsonaro e seu ministro da Economia estão preferindo garantir renda total para o agronegócio em lugar de procurar regular, mesmo parcialmente, a oferta de alimentos no mercado interno. Com a alta do dólar e a demanda forte por exportação, sem qualquer ação do governo, acionando algum mecanismo para manter estoques reguladores dentro do país, tem ocorrido até mesmo a situação esdrúxula de o país importar produtos dos quais é exportador importante.

É o caso do arroz, que está sendo exportado em grandes volumes, a ponto de obrigar a que haja importação do produto para fazer frente à demanda interna. Sem estoques reguladores, diferentemente do que fizeram outros exportadores de arroz - por exemplo, o Vietnã -, a população é duplamente penalizada: pela redução da oferta interna, que eleva os preços, e pela alta do dólar, que encarece o produto importado.

Outra pressão inflacionária forte vem da área dos combustíveis. O preço do gás de botijão subiu 35%, em 12 meses, até setembro, enquanto o preço da gasolina aumentou 40% e o do etanol, quase 65%. As altas nos preços dos combustíveis também poderiam ser reduzidas se o governo tivesse atuado para evitar tanto desequilíbrio no mercado.

A política de preços hoje praticada pela Petrobras, que amplia a margem de venda, independentemente dos custos de produção e da composição dos impostos, é boa para os acionistas da empresa, mas prejudicial para consumidores e a própria economia como um todo. Não se trataria de descapitalizar a Petrobras, nem estimular, com preços artificialmente baixos, o consumo de combustível fóssil poluente, mas de usar o poder de mercado da gigante empresa estatal para assegurar um pouco mais de equilíbrio ao dito mercado.

Em lugar de uma ação concreta nessa direção, Bolsonaro prefere mentir, transferindo a culpa para os estados. O presidente recorre a falácias e desinformação sobre o peso dos impostos, principalmente do ICMS estadual, na alta dos preços nas bombas.

A verdade é que os impostos, inclusive o estadual, pesam bastante nos combustíveis - como não poderia deixar de ser num item cujo consumo não deve ser estimulado, em razão dos danos causados ao meio ambiente. Mas seu peso não tem aumentado, proporcionalmente, na composição dos preços, mantendo-se em torno de 30% do preço final. Os aumentos vêm da rigidez das margens de venda e das altas nas cotações do dólar.

Quando o dólar sobe e empurra preços para cima, não só os dos combustíveis, mas praticamente de todas as cadeias de produtos e serviços, também Bolsonaro tem parte da culpa. O presidente é o principal responsável pelo "forte barulho político" de que tem se lamentado Guedes, nas conversas e entrevistas em Washington, quando deixa insinuar que a inflação alta não é com ele.

É Bolsonaro quem produz, com seus atos e declarações belicosas, e com suas ameaças de romper linhas institucionais, turbulências políticas quase permanentes. O resultado é escassez de dólares e a consequente alta nas cotações, que vão ajudar a empurrar a inflação para cima. São essas turbulências que trazem incerteza em relação ao futuro, afugentando recursos domésticos e repelindo investimentos externos. Em Washington, Guedes lembrou que o Brasil é o quarto principal destino de investimentos externos diretos do mundo. Na verdade, o país já foi o segundo, mas, em 2020, caiu para a décima primeira posição.

Finalmente, pressões inflacionárias fortes derivam da crise hídrica e da definição de bandeiras tarifárias mais altas para os preços da energia. Menos culpado por essa situação, que provoca disseminada interferência negativa nos preços da economia, resultando em inflação, o governo poderia reduzir danos dos problemas climáticos, atuando com mais eficácia na administração dos picos de energia e na gestão do sistema de geração e transmissão.

A preferência, porém, tem sido tentar forçar a redução do consumo pela via de aumentos pesados nas tarifas, o que já se sabe há tempos não funcionar bem, em lugar de estimular, por exemplo, grandes consumidores a deslocar produção para turnos fora dos horários de pico. Idem para o esforço, pelo menos até aqui desconhecido, de buscar aumentos de eficiência na gestão das fontes de geração e das linhas de transmissão de energia.

Tendo já batido no teto, a inflação, sem uma ação ativa do governo, continuará muito alta. As projeções indicam que ainda rodará acima de 8%, em 12 meses, pelo menos até meados de 2022. No grito e na base da desinformação, sem trabalhar mais duro para conter as pressões sobre os preços, a inflação brasileira continuará por mais um bom tempo entre as indesejadas campeãs nos rankings globais.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL