José Paulo Kupfer

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Opinião

BC adota plano de voo mais claro e tira o bode dos juros da sala de Lula

A sucessão de novidades que marcou a reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) de agosto, quando foi iniciado um ciclo de cortes na taxa básica de juros (taxa Selic), culminou com a publicação, nesta terça-feira (8), de uma ata também com novidades.

O "estilo" diferente da ata em relação às anteriores, assim como as surpresas já registradas no comunicado divulgado após o encerramento do encontro, na quarta-feira (2), coincide com a presença no Copom de dois novos diretores do Banco Central, indicados pelo governo Lula.

Ata descreve divergências no Copom

Para detalhar as divergências de posição entre os membros do colegiado, a ata da reunião de agosto precisou gastar mais palavras. O documento se estendeu por três mil palavras, quase 70% a mais do que padrão seguido desde o BC presidido por Ilan Goldfajn, no governo Temer. Nos últimos sete anos, as atas continham em média pouco menos de duas mil palavras, metade da extensão das atas no BC presidido por Alexandre Tombini, no governo Dilma.

Ainda mais clara do que o comunicado, a ata confirmou a conclusão de que o BC tirou o bode dos juros altos da sala.

A marcha de cortes previstas ficou delimitada ao ritmo de 0,5 ponto percentual a cada reunião do Copom, sendo "improvável", conforme adjetiva a ata, a necessidade de cortes mais fortes, por exemplo, de 0,75 ponto, como defende o ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

Mais confiança no controle das contas públicas

Ao mesmo tempo em que o BC decidiu acreditar nas promessas de controle das contas públicas pelo governo, o presidente Lula e Haddad ficaram sem a justificativa das taxas em níveis muito elevados como fator determinante das dificuldades de crescimento da atividade econômica.

O Boletim Focus, que reúne as projeções de uma centena de analistas de conjuntura econômica, em maioria do mercado financeiro, já havia incorporado a mensagem do comunicado, agora reforçada na ata, e aumentado a aposta numa Selic mais baixa, no fim de 2023. De acordo com a mediana das apostas, a taxa Selic fechará o ano em 11,75% nominais, ante previsão anterior de 12%, descendo a 9%, no fim de 2024, e a 8,5%, no encerramento de 2025.

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Ciclo de cortes: mais curto ou mais longo?

Se o roteiro sinalizado pelo Copom e incorporado pelo Focus for cumprido, o ciclo de cortes dos juros básicos se estenderá até o segundo semestre de 2024, com a taxa Selic permanecendo estacionado até fins de 2025.

Há, porém, especialistas com expectativas de que o ciclo seja mais curto, terminando ainda no primeiro trimestre de 2024, com a Selic entre 9,5% e 10,5% nominais. Outros consideram que possa acontecer uma aceleração no ritmo das reduções ainda no fim deste ano, caso a atividade econômica reaja mais devagar, no decorrer de 2023, ao alívio relativo na política de juros.

Mas o fato relevante é que o Copom, agora com novos membros, se mexeu e estabeleceu um plano de voo de redução dos juros básicos, depois de um ano com a taxa Selic estacionada em elevados 13,75%. Embora possa levar algum tempo para se efetivarem, crescem as perspectivas de ampliação dos financiamentos para expansão dos investimentos e ampliação do consumo.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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