José Paulo Kupfer

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Opinião

'Retrospectiva 2024': o que aconteceu no ano que vai começar

Escaldados pelas surpresas — e erros — nas projeções para a economia, no ano passado, economistas ainda foram driblados pela realidade quando 2024 chegou ao fim. Mas, desta vez, foi bem menor a distância entre o que previram e o resultado concreto.

A expansão da atividade econômica, medida pela variação do PIB (Produto Interno Bruto), neste 2024 que acaba de terminar, foi de 2,2%. Ficou abaixo dos 2,5% previstos um ano antes pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, mas acima do 1,8% estimado por especialistas dos departamentos de análise econômica dos bancos e do setor privado em geral.

PIB cresceu, mas em ritmo menor

A previsão de menor ritmo de crescimento se apoiava tanto na contribuição menor da agropecuária quanto no menor impulso dos gastos públicos para a atividade econômica, em relação a 2023. Também pesava a expectativa, confirmada, de que o setor externo, mesmo com bons resultados, não repetiria os recordes de 2023. O cálculo de menor crescimento refletia ainda a percepção de que a base de comparação — o PIB de 2023 — era mais elevada.

De fato, a economia continuou a crescer em 2024, absorvendo mão de obra e produção, acima dos números cheios de 2023, só que a um ritmo mais lento. Isso também explicou por que a marcha mais moderada de crescimento afetou pouco o mercado de trabalho. Previsões, no início de 2023, apontando desemprego em torno dos 8% em 2024, ficaram perto da realidade, no fim de 2024.

Chamou a atenção que previsões mais próximas do que de fato ocorreu vieram de um movimento de ajuste mais otimista nas estimativas perto do fim de 2023. No Boletim Focus, por exemplo, em fins de 2023, a mediana das previsões indicava crescimento de apenas 1,5%, em 2024. Também houve correção, para melhor, em outros indicadores do comportamento da economia.

Inflação se aproximou do centro da meta

Nessa onda de correção para melhor, as projeções para a inflação, por exemplo, antes com previsão de fechar 2024 com alta em torno de 4% ou mesmo 4,5%, foram reduzidas, no apagar das luzes de 2023, para o entorno de 3,5%. O resultado oficial bateu com essa estimativa, o que garantiu mais um ano — o segundo consecutivo — de alta de preços dentro do intervalo de tolerância do sistema de metas de inflação, cujo centro estava fixado em 3%, com limite entre 1,5% e 4,5%.

Embora a inflação de 2024 tenha acabado em nível mais baixo do que inicialmente previsto, sua composição foi bem diferente da registrada em 2023. Neste ano que agora se encerra, os preços administrados subiram praticamente a metade da alta no ano anterior, ao passo que os alimentos tiveram alta, depois de encerrar 2023 com deflação de 1%. Em 2024, os preços dos alimentos registraram alta de 4%.

O setor externo continuou em marcha forte, aproveitando a consolidação da recuperação das economias dos países desenvolvidos e na China. A economia chinesa cresceu 5% em 2024, enquanto Estados Unidos e Europa do euro se aproveitaram do relativo alívio nas políticas de juros para impulsionar a atividade.

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Se, em 2023, as exportações bateram recordes, com vendas ao exterior de US$ 340 bilhões, a demanda mais intensa nos mercados globais não resultaram em novas altas nas vendas externas, com o volume exportado repetindo o total obtido no ano anterior. Já as importações avançaram de US$ 240 bilhões para US$ 250 bilhões, em mais uma indicação de que a economia, mesmo com crescimento menor do que em 2023, não ficou parada. Com isso, o saldo comercial manteve-se alto em 2024, perto de US$ 90 bilhões, mas cerca de 10% abaixo do volume excepcional de quase US$ 100 bilhões alcançado em 2023.

Luta por mais receita e menos déficit público

Como em 2023, as incertezas continuaram a dominar a área fiscal. Dificuldades se repetiram no Congresso para fazer passar reformas no sistema tributário. As leis complementares da reforma tributária do consumo, tema do primeiro semestre no Legislativo, foram aprovadas com exceções definidas pelos parlamentares. A busca de receitas, escondidas em regras pouco transparentes ou com origem em jabutis pendurados nas árvores tributárias, para garantir expansão dos gastos públicos, com menos pressão sobre a dívida pública, foi a marca do governo, na economia, em 2024.

A espinhosa reforma do imposto de renda e do patrimônio esbarrou nos recessos brancos do Congresso, em razão das eleições municipais. Mas avançou mais do que o previsto em meados do ano, quando, de fato, começou a ser discutida — inclusive com a aprovação da tributação de lucros e dividendos, na pessoa física. Também outras medidas, que garantiram aumento na arrecadação, foram aprovadas.

Essa melhora na arrecadação, ainda que longe dos alvos do governo, mitigou as desconfianças no lado fiscal, mesmo com a mudança na meta de resultado primário. Como previsto, seria impossível manter o déficit zero, mas o saldo negativo das contas públicas, no fim de 2024, não chegou a 1% do PIB, como não poucos previam no início de 2024.

Com isso, a dívida pública continuou a subir, em marcha menos acelerada do que as previsões no início do ano, fechando 2024 abaixo dos 78% do PIB projetados. Com atribulações fiscais ainda no radar, a taxa básica de juros desceu menos do que o desejado, mas ainda terminou o ano em 9%. Não foi o suficiente para uma reversão positiva mais acentuada na taxa de investimento, se bem que, no fim de 2024, as sondagens conjunturais apontavam progresso na confiança dos empresários. Já a cotação do dólar acabou 2024 ligeiramente abaixo de R$ 5, mais um sinal positivo para 2025.

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Entre os riscos e os desafios que nos esperam em 2024, a coluna, de volta do futuro imaginado no texto acima — amparado num necessário, mas moderado otimismo —, deseja o melhor Novo Ano a seus leitores!

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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