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Por que o coronavírus afeta tanto o dólar e a Bolsa?

Vinícius Pereira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

05/03/2020 04h00Atualizada em 16/03/2020 12h34

Os temores dos possíveis efeitos do coronavírus na economia têm causado forte reação, deixando em pânico investidores e derrubando mercados acionários por todo o mundo.

No Brasil, a Bolsa tem sofrido quedas recordes e até enfrentou paralisação automática (chamada de circuit breaker) , que ocorre quando as perdas chegam a 10% num dia. O dólar, por outro lado, tem disparado.

Mas, para além do pânico, há razões para tanto? Especialistas ouvidos pelo UOL afirmam que a reação da Bolsa e do dólar antecipam futuras implicações que o coronavírus pode trazer à economia real e às empresas, principalmente do setor aéreo e ligadas a commodities.

Mercado tenta antever consequências

O mercado acionário tenta sempre antever as consequências de eventos que ocorrem no mundo, sejam positivos ou negativos. Como o coronavírus é de fácil contágio, governos e empresas de todo o mundo estabeleceram restrições à circulação de pessoas, como tentativa de conter a disseminação do vírus.

A tática, contudo, pode trazer consequências negativas à economia, principalmente da China, epicentro inicial do vírus, local com maior número de pessoas infectadas e segunda maior economia do mundo.

Por isso, agentes do mercado acionário tentaram se proteger dessa possível redução na atividade econômica mundial vendendo ações, o que fez com que os preços caíssem.

Fábricas paradas acendem sinal de alerta

"O mercado sempre olha para qualquer coisa que possa trazer aceleração ou desaceleração econômica, como o caso do coronavírus. Na China, com diversas fábricas parando para evitar a extensão do vírus pelos funcionários, isso começou a gerar uma desaceleração industrial. Cerca de 360 milhões de funcionários foram para casa", afirmou Jefferson Laatus, estrategista-chefe do Grupo Laatus.

"Isso traz uma expectativa de redução da atividade que acaba acertando a economia em efeito cascata: o empregado não recebe, aí não consome e depois a fábrica não vende e também não precisa tanto de recursos", disse.

Aéreas sofrem

Uma das primeiras medidas para combater a disseminação do coronavírus foi a restrição à circulação de pessoas. Isso deve afetar a receita das companhias aéreas, que irão realizar menos viagens e podem ter uma queda em suas receitas.

"Nas companhias aéreas, muita gente vem cancelando viagens a turismo, e isso reduz bastante o número de voos e, consequentemente, o custo dessas empresas paradas é muito alto, diminuindo suas margens. Muita gente cancelando pacotes afeta o ciclo, e o mercado financeiro espera e reflete a queda", afirmou Jefferson Laatus.

Além das empresas do setor aéreo, companhias que operam no setor de turismo também sofrem pelo mesmo motivo.

"Tudo que diminui a atividade econômica tem um impacto na Bolsa. A magnitude da queda parece um pouco exagerada, mas em um momento de incerteza, os investidores querem vender os ativos de qualquer maneira, começando por esses", disse Virginia Preste, professora da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP).

Desaceleração chinesa afeta exportações

A China, epicentro da doença no momento, possui a segunda maior economia do mundo e um grande consumo de commodities, como petróleo e minério de ferro (usado para fazer aço), por exemplo. Com uma economia crescendo menos, a demanda chinesa por esses produtos deve cair, derrubando seus preços.

Com o preço de seu principal produto em queda, empresas como a Petrobras e a Vale podem ter impactos em seus balanços financeiros, perdendo valor de mercado na Bolsa, com investidores tentando prever esse efeito.

Além disso, essa nova onda tem um impacto ainda maior no Ibovespa, já que as ações da Vale e Petrobras têm um peso maior em relação aos demais papéis no índice. Assim, caso esses papéis caíam, puxam o Ibovespa junto.

"A diminuição das atividades econômicas da China tem um impacto ainda maior globalmente. Impacta os EUA e o Brasil de tabela, já que exportamos muito para lá também", disse Virginia Prestes.

Dólar também disparou por temores

Além do impacto na Bolsa, os temores com as consequências que o coronavírus pode trazer também chegaram ao dólar. O preço da moeda americana em relação ao real, que já vinha em trajetória de alta, subiu ainda mais.

Segundo especialistas ouvidos pelo UOL, além da taxa básica de juros (Selic) historicamente baixa no Brasil, o que faz com que o país fique menos atrativo ao capital estrangeiro, há também um fenômeno chamado "voo para qualidade" em momentos tensos como o atual.

"Globalmente, há um voo para qualidade muito relevante, dando uma pressão muito grande em dólar e ouro, que são ativos para onde o pessoal corre quando há um evento como esse", afirmou Virginia Prestes.

Dessa forma, a cotação do dólar em relação ao real subiu graças à alta demanda pela moeda americana, considerada segura pelos investidores do mundo todo. Com mais gente comprando dólar, o preço sobe e a disparidade com o real cresce.

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