Opinião

Existe um modelo que pode prever o preço do bitcoin? Veja como funciona

Quanto vale o bitcoin? Apesar de serem cada vez mais escassos, ainda existem críticos que insistem que o ativo mais performante de 2023 (excluindo alguns outros criptoativos, 160%) e dos últimos dez anos (84.000%) não possui valor intrínseco e não passa de um esquema de pirâmide.

Mas essa coluna não tem como intuito persuadir os céticos que insistem que o bitcoin não vale nada ou lamentar o fato que não viramos bilionários porque não compramos bitcoin no início da década passada. Estamos aqui para apresentar uma das abordagens teóricas mais usadas por investidores de criptoativos que buscam entender o impacto da dinâmica de oferta sobre o preço do bitcoin.

Como valorizar ativos que não geram renda?

A dificuldade em valorizar o bitcoin surge, em grande parte, como consequência do fato de que o token não gera fluxos de caixa como uma empresa, título ou ação. No caso desses, uma simples análise de fluxo de caixa (DCF) produz um patamar de preço objetivo, que informa prospectivos investidores se o ativo representa um bom investimento no preço atual ou não.

Porém, a ausência de futuros fluxos que podem ser trazidos para valores presentes não significa que não podemos prever futuras movimentações de preço. As commodities como um todo, entre algumas outras classes de ativos, não geram renda e mesmo assim são passíveis a serem valorizadas.

Entre todos esses ativos que carecem de fluxos, o bitcoin é melhor entendido como um bem monetário, mais se assemelhando aos metais preciosos, que, apesar de terem aplicações industriais, servem principalmente como uma reserva de valor.

Dos metais preciosos para os tokens

Já que o pilar estrutural da tese de investimento do bitcoin é a sua atratividade como uma reserva de valor, nada mais lógico do que adaptar um modelo desenvolvido para metais preciosos para prever o seu preço.

O modelo "stock to flow" (S2F, ou relação da oferta ao fluxo) busca prever patamares de preço de acordo com a seguinte lógica: quanto mais escasso for um recurso (baseado na quantidade existente versus a quantidade produzida), mais valioso ele deve se tornar.

Nesse sentido, o bitcoin talvez seja o ativo mais apropriado para ser valorizado por esse modelo, já que a sua oferta circulante é completamente transparente. Apesar de existirem estimativas de quanto ouro é minerado todo ano e total de ouro que existe no mundo (entre reservas soberanas, moedas, jóias, etc.), também existem operações de garimpo ilegal e valores não declarados. Já no caso do bitcoin, temos dados exatos, verificáveis, apresentados com completa transparência e previsibilidade.

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Previsibilidade imutável

Essa previsibilidade programática é uma das características mais atrativas do bitcoin como bem monetário. A sua oferta é perfeitamente inelástica, tornando esse ativo financeiro um excelente candidato para a valorização por meio do modelo S2F. Em outras palavras, essa metodologia é aplicável porque, no longo prazo, não é possível alterar a velocidade em que novos bitcoins são criados.

Devido a um mecanismo de correção automática na dificuldade da mineração, que ocorre a mais ou menos a cada duas semanas, a blockchain produz um bloco, que gera exatamente 6.25 tokens (até o próximo halving), a cada dez minutos.

Fora pequenas variações nesse intervalo de tempo, esse número de novos bitcoins se mantém estável por período de quatro anos (entre halvings), independente do volume de poder computacional dedicado à mineração na rede.

No longo prazo, duas outras regras determinam o número de novos bitcoins introduzidos ao mercado: o corte da recompensa de bloco, que ocorre a mais ou menos a cada quatro anos, e o limite rígido de 21 milhões de tokens.

Os quase 15 anos em que o Bitcoin (a rede) se manteve operante sem alterações que impactam o calendário desse fluxo demonstraram que essas regras de consenso dificilmente serão mudadas no futuro. Como Satoshi, criador da rede, falou em 2009, "A natureza do Bitcoin é tal que, uma vez lançada a versão 0.1, o design central foi escrito em pedra para o resto da sua existência."

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Precisão do modelo

O modelo matemático S2F, que envolve conceitos de estatística como valores logarítmicos, coeficientes e regressão, tem sido utilizado em diversos estudos com variações, mas geralmente mostra uma precisão notável ao prever os preços do bitcoin, especialmente em torno dos halvings. Em 2012, 2016 e 2020, anos de halving, a diferença entre o preço previsto pelo modelo e o preço de mercado foi extremamente pequena.

Previsão do modelo para o próximo ano

Para o próximo halving, previsto para meados de abril do próximo ano, o modelo indica um patamar de preço entre US$ 50/55 mil. Essa previsão sugere que o bitcoin deve manter sua tendência de alta no primeiro trimestre de 2024, e a linha de tendência aponta que o ano inteiro deverá ser marcado por uma tendência de alta, com os preços perdendo ímpeto no final do segundo trimestre de 2025.

Limitações do modelo S2F

Apesar de sua precisão histórica, é importante destacar que o modelo S2F é uma metodologia teórica para entender como a oferta decrescente de bitcoin pode afetar seu preço. O modelo não considera variáveis importantes como taxas de juros, regulação, adoção e liquidez do mercado global, que podem impactar significativamente o preço do bitcoin.

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Além disso, o modelo não leva em conta riscos como a insolvência de grandes exchanges, como no caso da FTX no ano passado. Até 2018, o modelo tendia a subestimar os preços, mas desde 2021 tem apresentado previsões excessivamente otimistas, começando a se ajustar apenas em 2023.

Por fim, é relevante mencionar que a redução na quantidade de novos bitcoins gerados pelo halving representa um percentual cada vez menor do estoque circulante, o que pode diminuir a precisão do modelo com o tempo.

Embora não seja um indicador preciso para o curto prazo, o modelo S2F demonstrou uma capacidade notável de prever os preços do bitcoin em largas janelas de tempo. As previsões do modelo não devem ser utilizadas isoladamente para decisões de investimento.

Contudo, a convergência entre as previsões do modelo S2F e os preços reais do bitcoin em 2022 é um sinal positivo para as perspectivas de investimento em bitcoin em 2024. Este sinal, juntamente a uma confluência de fatores positivos, sugere que os bons tempos para os investidores em criptoativos devem continuar após a virada do ano.

Opinião

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