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Brumadinho, um túmulo a céu aberto

30/01/2019 13h26

Rio de Janeiro, 30 Jan 2019 (AFP) - Há cinco dias, um tsunami de barro atingiu Brumadinho, destruindo a vida dessa pequena cidade mineira, onde todo mundo conhece alguém que agora está morto, ou ainda soterrado pela lama.

Por ora, a catástrofe deixou 84 mortos e 276 desaparecidos, e cada vez mais há menos esperanças de que sobreviventes sejam encontrados.

Os parentes e amigos choram seus entes queridos talvez soterrados ao longo de 290 hectares por 2,7 milhões de metros cúbicos de rejeitos tóxicos liberados pela barragem que se rompeu.

A violenta correnteza de barro encobriu a sede administrativa da mineradora, o refeitório dos funcionários, uma pousada inteira, um ônibus e várias casas no extenso distrito rural da mineira Brumadinho.

Para quem teve o corpo de um familiar, ou amigo, reconhecido, resta o consolo de poder enterrá-lo e chorar sua morte.

Os coveiros se esforçam para conseguir espaço no cemitério municipal e, sob o sol inclemente da tarde, exumam uma sepultura antiga.

Precisam fazer isso com rapidez, porque logo chegará o caixão de uma mulher de 28 anos que trabalhava para a Vale.

O cortejo fúnebre cruza com o de outra funcionária falecida. O silêncio é quebrado pelos soluços inconformados e pelo anúncio de mais dois enterros.

Ninguém escapou da destruição causada pela avalanche de barro.

"Muitos amigos, muitos conhecidos, isso chocou todo mundo. O que aconteceu não deveria ter acontecido. Houve muita imprudência. Hoje Brumadinho está toda de luto", afirma Gustavo França, agente imobiliário de 25 anos, em um velório realizado na noite de terça-feira.

Desse velório, ele vai para outro, o de um amigo que acabaram de encontrar. O enterro é rápido, apenas 15 minutos de oração por causa da decomposição dos corpos.

Dezenas de moradores colocaram velas em torno do letreiro que dá as boas-vindas à cidade.

Também há fotos de falecidos, recordações que fazem uma mulher ter de ser atendida.

Uma mensagem escrita com spray exprime o sentimento geral: Vale Assassina.

- Terra da Vale -O nome da poderosa multinacional brasileira - a terceira mineradora mundial e a primeira produtora de minério de ferro - domina o asfixiante ambiente de luto, barro e calor que tomou o centro de Minas Gerais.

Em um estado outrora rico em ouro e diamantes e agora com enormes reservas de minério de ferro, os tentáculos e atividades terceirizadas da Vale são enormes.

É fácil ver o logotipo da empresa aparecer entre a mata atlântica, apontando para a entrada da área de exploração da terra avermelhada.

"Eu não gosto de ficar culpando ninguém porque acidente a gente não prevê, mas eu acho que tem que achar os responsáveis por isso", afirma Ana Olívia Jardim, estudante de 19 anos, com lágrimas correndo pelo rosto inchado de tanto chorar.

A mãe de um amigo e vários conhecidos de sua família estão desaparecidos.

Quando questionada sobre se a culpa é da Vale, ela responde em voz baixa: "Pelo que estamos vendo, sim".

No mesmo momento, o presidente da Vale, Fabio Schvartsman, anuncia em Brasília que o grupo vai desmantelar as dez represas semelhantes às que romperam em Brumadinho e em Mariana (em novembro de 2015) e que ainda restam em Minas Gerais.

Nada disso compensa, porém, para quem vive sitiado pelos grandes contêineres naturais de lixo químico.

"Isso tem que acabar, de verdade. Pode acontecer de novo. Há três anos aconteceu em Mariana, e não se aprendeu nada. Ninguém fez nada", reclama Paulo Vinicus, um técnico em Informática de 22 anos, que chora pelos amigos que, segundo ele, foram mortos por uma sequência de imprudências.

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