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Trump propõe candidato para Banco Mundial que pode gerar revolta

05/02/2019 19h22

Washington, 5 Fev 2019 (AFP) - O controverso nome proposto pelo presidente Donald Trump para liderar o Banco Mundial (BM) pode desatar uma rebelião contra o domínio americano nessa entidade e impulsionar outros países a lançarem um candidato alternativo.

A Casa Branca confirmou ao Grupo dos Sete (G7) que Trump indicará o alto funcionário do Tesouro David Malpass, disse à AFP uma fonte ligada ao tema, a fim de manter o controle americano sobre uma das maiores entidades financeiras do mundo.

O BM, com sede em Washington, sempre foi presidido por um americano, desde sua fundação após a Segunda Guerra Mundial. Em contrapartida, sua entidade irmã, o Fundo Monetário Internacional (FMI), sempre esteve sob liderança europeia.

Nos últimos anos, diversos países considerados economias emergentes se voltaram contra essa norma não escrita e exigem um processo de seleção mais aberto e baseado nos méritos do candidato.

Especialistas acham improvável que esses países possam somar forças e derrotar o candidato dos Estados Unidos. Contudo, podem se lançar ativamente contra Malpass - um crítico contundente do FMI e do BM, que costuma dizer que seus empréstimos são "corruptos".

Muitos, inclusive americanos dos dois partidos, criticam Malpass e suas credenciais por não terem previsto a crise financeira mundial e sugeriu soluções - que rapidamente se provaram infundadas - à política adotada pelo banco central americano para tirar os Estados Unidos da recessão de 2008-2009.

- 'Opção tóxica' -"David Malpass seria um presidente do Banco Mundial desastroso. É uma opção tóxica", disse o ex-secretário assistente do Tesouro Tony Fratto.

Justin Sandefut, membro do instituto Center for Global Development, disse que Malpass "se envolveu em práticas ruins em muitos assuntos, desde desenhar os primeiro indícios da crise global de 2008 até considerar a ideia de abolir o FMI".

Malpass, atual subsecretário do Tesouro para assuntos internacionais criticou duramente o BM por continuar a emprestar dinheiro à China e a outros países relativamente ricos.

Em uma declaração diante do Congresso em novembro de 2017, disse que o BM e o FMI "costumam ser corruptos em suas práticas de empréstimos e não obtêm lucros para o povo comum dos países", mas "voam de primeira classe para aconselhar funcionários dos governos".

Malpass foi economista-chefe do banco de investimentos Bear Stearns desde 1993 até o colapso desta entidade no início da crise financeira de 2008. Fez uma tentativa infrutífera de chegar ao Senado antes de integrar a equipe de transição de Trump após as eleições de 2016.

Contudo, no ano passado liderou negociações que terminaram com um "histórico" aumento de 13 bilhões de dólares de capital de empréstimos após os membros do BM admitirem reduzir empréstimos e cobrar mais de países como a China.

A inesperada e prematura saída do presidente do BM, Kim Yong Kim, efetivada em 1 de fevereiro, quando não tinha chegado nem à metade de seu mandato de cinco anos, permitiu a Trump sair em busca de um sucessor.

A direção do banco receberá candidaturas a partir de 7 de fevereiro até 14 de março e planeja anunciar seu novo líder antes das reuniões do BM e do FMI em Washington entre 12 e 14 de abril. Qualquer um dos 189 membros do BM pode indicar um candidato.

Os Estados Unidos são o maior acionista do BM, mas não têm poder de veto e precisam de respaldo de nações europeias para votar ter maioria na votação da direção do banco.

Mas se a Europa se opuser à proposta americana, está tacitamente renunciando à liderança do FMI - que é muito mais importante que o BM - quando acabar o mandato de sua atual diretora-gerente, a francesa Christine Lagarde.

- Sem credibilidade -Mark Sobel, que tem uma longa carreira no Tesouro, supervisiona as relações com o FMI e trabalha junto a Malpass, se negou a comentar a candidatura.

Ele afirmou, contudo, que se não foi designado um candidato "crível", muitos membros do BM poderiam se unir contra o proposto pelos Estados Unidos; especialmente "se essa pessoa for vista como hostil à instituição".

Sobel considera que está na hora de terminar com a tradição de americanos e europeus à frente das maiores entidades multilaterais de crédito.

"Em última instância, as instituições estarão mais bem atendidas por uma pessoa confiável, qualquer que seja sua nacionalidade", disse Sobel à AFP.

Massod Ahmed, com extensa trajetória no FMI e no BM e atualmente presidente do instituto Center for Global Development, em Washington, alertou que se o novo líder não foi escolhido em um processo "realmente baseado nos méritos", acabará "corroendo um pouco mais a legitimidade e a credibilidade da instituição".

Outros potenciais candidatos que Trump teria considerada são a ex-ministra de Finanças da Nigéria, Ngozi Okonjo-Iweala, que já foi indicada por países africanos contra Kim em 2012, e a americana de origem indiana ex-CEO da Pepsico, Indra Nooyi.

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