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"Biohackers" russos ultrapassam os limites do corpo humano

19/02/2020 13h05

Moscou, 19 Fev 2020 (AFP) - Com um bisturi, Vladislav Zaitsev faz uma incisão entre o dedo indicador e o polegar do paciente e insere um pequeno cilindro de vidro: um chip subcutâneo que lhe permitirá abrir a porta de seu consultório.

"Decidi fazer isso há muito tempo", conta o paciente Alexéi Rautkin, programador de informática de 24 anos com um sorriso. "É prático e, de alguma forma, é algo único: ninguém mais o possui".

Vladislav Zaitsev e Aléxei Rautkin fazem parte dos adeptos russos do "biohacking", um movimento iniciado no Vale do Silício que consiste em "aprimorar" o corpo humano através da introdução de dispositivos.

Alguns dispositivos tecnológicos são implantados para facilitar a vida, outros impõem um controle exaustivo do corpo, na esperança de viver mais e há ainda os que optam pela terapia genética.

Ainda existem poucos na Rússia, mas os fóruns na internet, conferências e empresas especializadas no assunto estão se multiplicando.

Vladislav Zaitsev, um programador de 28 anos, aprendeu de maneira autodidata a implantar chips no corpo humano, depois de não conseguir concluir o curso de medicina.

Em 2015, captou a atenção internacional ao implantar o chip do seu cartão de metrô de Moscou.

"Gosto de coisas que têm um impacto real, como o implante de chips", explica o jovem, que estima que cerca de mil russos tenham esse tipo de dispositivo.

Em outros países, os chips são implantados para ligar carros, telefones, computadores ou impressoras, controlar a temperatura e armazenar informações médicas. Alguns magos profissionais utilizam-nos para apresentações.

O mecanismo suscita preocupações sobre o risco de vigilância e pirataria.

Alguns chips foram aprovados para uso humano, mas os usados por Zaitsev são destinados a veterinários. São fabricados em Taiwan e comprados on-line a um preço de 500 rublos (cerca de 8 dólares).

- Vida eterna -Algumas pessoas querem mais do que simplesmente implantar um dispositivo. Para Stanislav Skakun, o objetivo é prolongar a vida, potencialmente até o infinito: é o trans-humanismo, que defende e prevê o surgimento de um "hiper-humano" quase imortal.

"No entanto, ainda não encontrei um chip útil para prolongar a vida", afirmou esse empresário de 36 anos, que frequenta regularmente uma clínica particular para exames de sangue cujos resultados determinarão seu estilo de vida.

Isso faz parte de uma rotina que foi imposta há cinco anos. Ele mede centenas de marcadores bioquímicos e consome uma quantidade diária de vitaminas e suplementos nutricionais.

Stanislav Skakun se recusa a revelar a dieta, mas garante que os suplementos contém iodo, vitamina D, magnésio e probióticos.

Ele também se submete a testes genéticos para identificar qualquer fator de risco hereditário, avaliar o colesterol e glicose, densidade óssea ou o nível de hormônio do estresse (cortisol).

"Nos últimos cinco anos, minha idade biológica não mudou", afirma. "Se derrotarmos o câncer, a doença de Alzheimer e as doenças cardiovasculares, teremos superado quase todas as causas da mortalidade", acrescenta.

Por enquanto, o registro histórico conhecido de longevidade é de 122 anos.

- Tesouras moleculares -Nesta busca pela vida eterna, alguns biohackers estão interessados em terapia genética, um dos campos mais promissores da pesquisa médica.

O biohacker americano Josiah Zayner causou sensação em 2017 ao transmitir uma tentativa de modificar seu genoma utilizando "tesouras moleculares" Crispr.

Esta ferramenta revolucionária inventada em 2012 simplifica as técnicas de modificação de DNA. Foi utilizada com sucesso no tratamento de uma doença genética no sangue, a anemia falciforme.

Mas as autoridades médicas e a Administração de Alimentos e Medicamentos alertam contra o uso de tesouras nos kits DIY (faça você mesmo) disponibilizados ao público.

Os biohackers estão certos quando dizem que, em teoria, o envelhecimento pode desacelerar e até parar, afirma o biólogo russo Maxim Skulachev, especialista em longevidade da Universidade Pública de Moscou.

"Acreditamos que o envelhecimento é, de uma maneira ou de outra, como um programa em nosso genoma", diz o pesquisador. "A única maneira de combater o envelhecimento é quebrar esse programa, cortá-lo de alguma forma".

"No momento, não há tecnologia para interromper esse programa e, desse ponto de vista, os biohackers aumentam as ilusões", acrescenta.

- "Aproveite ao máximo" -Essa é uma questão de sonhos e também de dinheiro. Em sua empresa Biodata, Stanislav Skakun oferece análises médicas por 150.000 rublos (2.320 dólares) para um estudo completo.

Alguns dos clientes mais ricos pagavam 250.000 rublos por ano para acessar um clube esportivo de Moscou chamado "laboratório de biohacking".

O clube foi inaugurado no ano passado sob o lema "Aproveite ao máximo". Os membros são "diretores da empresa ou executivos sêniores", explica seu fundador Artiom Vasiliev.

O jovem de 29 anos se lançou na "ciência do esporte" após uma carreira de alto nível como atleta. Atrás dele, em uma esteira, um membro do clube coloca uma máscara que analisa o ar exalado.

Após alguns minutos, o instrumento mostra quando seu treinamento foi mais eficaz. Mais tarde, entrará em uma sala refrigerada com nitrogênio líquido, o que ajudará a se recuperar do esforço.

Apesar de seu entusiasmo, Vasiliev duvida que viverá centenas de anos. "Em vez disso, acho que pode-se viver 100, 115 ou 120, mas vivê-los de uma boa maneira".

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