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Apesar da pandemia, ucranianos partem para salvar colheitas na Europa

19/05/2020 09h34

Kiev, 19 Mai 2020 (AFP) - Centenas de ucranianos partem todos os dias para diferentes países da Europa para trabalhar em fazendas, apesar do fechamento das fronteiras decretado pelo governo na luta contra a pandemia do coronavírus.

Em um terminal quase vazio no aeroporto Boryspil de Kiev, Yuri faz fila para embarcar no avião que o levará a Helsinque, onde os agricultores o esperam ansiosamente para salvar a colheita.

Seu voo é uma exceção, pois a Ucrânia fechou suas fronteiras e suspendeu as ligações aéreas regulares em março para retardar o progresso da pandemia. Com isso, bloqueou os trabalhadores temporários que viajariam para trabalhar nos países europeus.

Temendo que suas frutas e legumes apodrecessem nos campos, agricultores de vários países, incluindo Reino Unido e Finlândia, acabaram fretando voos para trabalhadores agrícolas.

"Os salários na Ucrânia são muito baixos. Não são suficientes", diz Yuri, de 35 anos, que viaja para a Finlândia pela terceira vez.

Durante cinco meses, ele colherá alface e brócolis para ganhar um total de 7.500 euros, quatro vezes mais do que ganharia como motorista de empilhadeira, seu trabalho habitual.

Yuri é um dos milhares de trabalhadores temporários ucranianos que trabalham duro nas fazendas da Europa Ocidental todos os anos, porque não conseguem encontrar empregos bem remunerados em seu país.

Com cerca de 40 milhões de habitantes, a Ucrânia é um dos países mais pobres da Europa. As consequências econômicas da pandemia de coronavírus podem piorar ainda mais as dificuldades financeiras da população.

O país, que iniciou um desconfinamento gradual há uma semana, atualmente registra 18.616 casos de coronavírus, incluindo 535 mortes.

A partida dos trabalhadores ucranianos ocorre no momento em que vários países europeus começam a reabrir cuidadosamente as fronteiras e relaxar o confinamento para reativar suas economias.

A Finlândia, por exemplo, autorizou esses voos, embora suas fronteiras permaneçam parcialmente fechadas.

As autoridades "perceberam que precisaremos de alguns trabalhadores estrangeiros", disse à AFP a embaixadora finlandesa na Ucrânia, Paivi Laine.

Cerca de 1.500 trabalhadores temporários receberam permissão de entrada, dois terços deles ucranianos, considerados trabalhadores "confiáveis" pelos agricultores finlandeses, disse.

- "Hora de trabalhar" -A Ucrânia inicialmente relutou em deixar seus trabalhadores irem, acreditando que as viagens representavam um risco à sua saúde.

As autoridades também mencionaram que havia trabalho suficiente no país, inclusive para os estimados dois milhões de ucranianos que retornaram ao país desde o início da pandemia.

"Parece ilógico fretar voos para a partida em massa de ucranianos" para a Europa, enquanto o país tenta organizar o repatriamento de seus cidadãos perdidos no exterior, disse em abril o ministro das Relações Exteriores, Dmytro Kouleba.

Em abril, um voo com trabalhadores temporários para Londres atrasou nove horas depois que as autoridades se recusaram a autorizar a decolagem.

Uma avalanche de comentários furiosos nas redes sociais acusando o governo de sujeitar seus cidadãos à "escravidão" forçou as autoridades a mudarem de atitude.

Em maio, o vice-primeiro-ministro Vadym Prystaïko disse que dezenas de empresas austríacas aguardavam a chegada de mais de 800 trabalhadores ucranianos e admitiu que os salários eram melhores no exterior.

Ele mencionou que Kiev estava negociando o envio de "milhares" de ucranianos para a Finlândia.

Antes de embarcar no avião para a Finlândia, Mykola, 32 anos, agradeceu por essa mudança de posição.

Agora que a política e a burocracia cederam, "é hora de ir trabalhar, ganhar dinheiro e depois voltar para casa feliz", disse à AFP.

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