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Preço do ópio triplica no Afeganistão após retorno do Talibã

15.set.2021 - Membros do Talibã fazem patrulha em posto de controle de Kunduz, no norte do Afeganistão - Ajmal Kakar/Xinhua
15.set.2021 - Membros do Talibã fazem patrulha em posto de controle de Kunduz, no norte do Afeganistão Imagem: Ajmal Kakar/Xinhua

Da AFP

29/09/2021 12h51Atualizada em 29/09/2021 13h16

Em um mercado no sul do Afeganistão, os vendedores sorriem ao lado de suas sacolas de ópio. Enquanto o país afunda na miséria, o preço de sua droga mais famosa disparou após o retorno do Talibã ao poder.

Sentado sobre uma lona empoeirada, Amanullah (pseudônimo) perfura com sua faca um grande saco plástico contendo quatro quilos de um barro marrom. De dentro, tira uma bolinha que coloca em uma tigela e a aquece.

A resina da papoula começa a ferver e torna-se líquida, mas compacta. É um ópio puro que não foi modificado com aditivos químicos para aumentar seu peso.

Seu colega Mohamad Masom sorri. Vão poder vender a um preço alto nesse mercado ao ar livre de Howz-e-Madad, sul do Afeganistão, onde se comercializa uma ínfima parte da vasta produção de ópio no país.

Após o retorno ao poder do Talibã em meados de agosto, o preço do ópio, que se transforma em heroína neste mesmo país ou nos vizinhos Paquistão e Irã e chega ao mercado europeu, triplicou.

Nesse mercado, um quilo do produto custa hoje 17.500 rúpias paquistanesas, cerca de US$ 100, explica Mohamad, sob a lona que protege sua barraca do sol no meio de uma planície árida.

A poucos quilômetros, também na província de Kandahar, Zekria (pseudônimo) confirma o aumento espetacular dos preços.

Este agricultor vende seu ópio, de melhor qualidade que o de Mohamad, por mais de 25.000 rúpias, cerca de 150 dólares, enquanto em agosto o vendia por 7.500 rúpias.

Temor de proibição

O clima, as questões políticas, o fechamento das fronteiras... A lista de fatores que podem causar um aumento repentino no preço do ópio é longa.

Os motivos do atual aumento estão no centro das discussões no mercado Howz-e-Madad, onde centenas de produtores, vendedores e clientes, com barbas pretas e turbantes brancos, debatem a respeito enquanto tomam chá verde.

Segundo eles, as declarações do porta-voz do Talibã, Zabihullah Mujahid, em 17 de agosto foram fundamentais.

Na ocasião, ele garantiu que o Afeganistão pararia de produzir drogas com a condição de "receber ajuda internacional" para fornecer aos agricultores uma safra para substituir o ópio.

Isso multiplicou os rumores de uma proibição iminente do cultivo de papoula, especialmente na província de Kandahar (leste), feudo histórico do Talibã e área onde se concentra a produção e o tráfico de ópio.

Os compradores anteciparam uma futura escassez de ópio "e isso aumentou os preços", explica Zekria, de 40 anos.

Tendo passado os últimos 20 anos cultivando ópio, seguindo o exemplo de seu pai e avô, não acredita que o Talibã "possa erradicar todo o ópio do Afeganistão".

Durante seu primeiro regime, os fundamentalistas proibiram seu cultivo antes da intervenção militar ocidental, cujo governo tutorado também tentou erradicá-lo sem muito sucesso.

Equação impossível

A produção de papoula no Afeganistão sempre se manteve em níveis muito elevados e o país produziu em 2020 até 6.300 toneladas em 224.000 hectares, segundo a ONU.

Parece uma equação quase impossível erradicar a produção de ópio, que movimenta cerca de 2 bilhões de dólares por ano, em um dos países mais pobres do mundo.

Para os camponeses do sul do país, essa proibição é quase uma quimera.

"Sabemos que não é certo, que é proibido pelo Islã. Mas somos obrigados a fazê-lo, pois de outra forma não poderíamos ganhar a vida. Não há água, não há cereais e dificilmente podemos plantar outra coisa", explica Mohamad.

"Sem o ópio, nem sequer pagaríamos os custos" de produção, admite Zekria, que deve alimentar uma família de 25 pessoas.

"Não temos emprego nem alternativa se a comunidade internacional não nos ajudar", acrescenta.

Apesar dos montantes faraônicos nas últimas duas décadas, a ajuda econômica dos Estados Unidos, avaliada em cerca de 8,6 bilhões de dólares, não serviu para promover culturas alternativas.

O Talibã usou o ópio para financiar sua revolta contra a presença de tropas ocidentais e em 2016 obteve "metade de sua renda" graças a essa droga, segundo a ONU.

Depois de assumirem Cabul, os insurgentes são ambíguos nessa questão.

"A produção de ópio é proibida pelo Islã e é ruim para o povo", disse o mulá Noor Mohamad à AFP de seu escritório em Kandahar.

Mas não confirma uma possível proibição e delega esta questão espinhosa à comunidade internacional.

"Se eles estiverem preparados para ajudar os agricultores a parar de cultivar ópio, então vamos bani-lo".

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