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No Sudão, busca pelo ouro deixa doenças graves e poluição

19/07/2022 10h13

Banate, Sudão, 19 Jul 2022 (AFP) - Aos seus quatro anos, Taleb não consegue ver, nem andar. O mercúrio e o cianeto, dois metais pesados usados para extrair artesanalmente o ouro do subsolo do Sudão, arruinaram sua saúde.

"Meus primeiros quatro filhos estão bem, exceto Taleb, que é o único que nasceu depois que o pó de ouro cobriu a cidade", conta Awadya Ahmed, de 45 anos, à AFP.

O "pó de ouro" é uma mistura de metais pesados usados por garimpeiros artesanais para explorar o ouro. Contém mercúrio, cianeto e outros agentes nocivos aos humanos e ao meio ambiente.

Em Banate, cidade de 8.000 habitantes e 360 quilômetros ao norte da capital Cartum, pequenos montes desse pó branco são vistos por toda a parte, da sombra de um pomar ao meio de um campo.

Para Aljayli Abdelaziz, uma autoridade local, tudo começou há cinco anos. "Desde que esses depósitos de poeira apareceram, as crianças nasceram com malformações, e houve abortos. Contei 22 nascimentos com malformações", disse à AFP.

- Mercúrio na água e no corpo -Em janeiro, um grupo de pesquisadores encontrou grandes quantidades de mercúrio na água potável de Banate. Também encontrou rastros do produto na urina e no sangue dos moradores.

Este metal líquido de cor prateada é especialmente perigoso quando está na água, porque é ingerido pelos animais e acaba na cadeia alimentar.

Além disso, pode afetar permanentemente o cérebro e o sistema nervoso em desenvolvimento da criança, no caso de mulheres grávidas.

Embora Banate seja o epicentro do fenômeno, no total há "450.000 toneladas de resíduos de extração de ouro cheios de mercúrio nocivo" no Sudão, afirma Ali Mohammed Ali, da Associação Sudanesa para a Proteção do Meio Ambiente.

A extração do ouro acontece desde a Antiguidade no Sudão, quando os homens desciam às entranhas da terra para extrair pepitas de ouro. Mas por muito tempo, nenhum produto químico foi usado.

Além disso, nas últimas décadas, apenas empresas profissionais foram responsáveis por este trabalho e pela posterior gestão de resíduos químicos. Em contraste, as minas artesanais representam atualmente 80% da produção de ouro no Sudão, com dois milhões de trabalhadores diários. Os 20% restantes, ou seja, 30,3 toneladas no primeiro semestre de 2021 segundo dados oficiais, são extraídos por empresas registradas oficialmente.

Os garimpeiros "manuseiam produtos químicos com resíduos perigosos, como mercúrio, que devem ser tratados por pessoas especializadas e de forma altamente supervisionada, sobretudo, longe de residências e de fontes de água", alerta Saleh Ali Saleh, professor universitário e especialista no assunto.

- "Anos para compensar os danos" - A cerca de 50 quilômetros de Banate, um grupo de garimpeiros procura pepitas de ouro em baldes d'água cheios de rocha misturada com mercúrio. Nenhum deles usa equipamento de proteção.

Entre eles, está Mohammed Issa, de 25 anos, que mora em uma região a 1.600 quilômetros dali.

"Quando cheguei aqui, vi que todos faziam isso e que era o próprio chefe da mina quem trazia o mercúrio para a gente", conta à AFP.

Em 2019, alguns meses depois do fim da ditadura militar-islâmica de Omar al-Bashir, o governo proibiu o uso de mercúrio e de cianeto nas minas. Ainda hoje, no entanto, em qualquer lugar de Sudão, "podemos comprar", disse à AFP, sob anonimato, o proprietário de uma mina artesanal que emprega 95 mineradores.

O comércio do ouro - US$ 720 milhões no primeiro trimestre de 2022, segundo o Banco Central - foi controlado por muito tempo por grupos vinculados aos serviços de segurança sob o governo de Bashir.

O comércio continua crescendo e, com ele, os danos ambientais, alerta Saleh.

"As consequências não são facilmente eliminadas. Mesmo que parássemos tudo hoje, levaria anos para compensar os danos", lamenta.

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