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Cinco elementos do passado da China que explicam seu presente

Prof. Rana Mitter* - Especial para a BBC

Para entender as notícias sobre a abordagem chinesa a questões como comércio, relações exteriores e censura na internet, é preciso voltar ao passado.

A China talvez seja mais consciente de sua própria história do que qualquer outra grande sociedade no mundo. Essas recordações vão até certo ponto - eventos como a Revolução Cultural (1966-76) de Mao Tsé-Tung são ainda muito difíceis de serem discutidos dentro do país. Mas é impressionante como ecos do passado podem ser vistos no presente.

1 - Comércio

Os chineses costumam lembrar um tempo em que seu país era forçado a fazer trocas comerciais contra sua vontade. Tanto que, hoje, o país considera os esforços do Ocidente para abrir os mercados chineses como uma recordação desse período infeliz.

Atualmente, os EUA acusam Pequim de inundar os mercados americanos de produtos baratos enquanto fecha seu mercado às exportações americanas. No entanto, a balança comercial externa nem sempre favoreceu os chineses.

Há cerca de 150 anos, o país asiático tinha pouco controle sobre seu próprio comércio internacional. Foi a época em que o Reino Unido atacou a China nas chamadas "guerras do ópio", a partir de 1839. Nas décadas seguintes, os britânicos fundaram uma instituição chamada Serviço Imperial Alfandegário Marítimo, para determinar tarifas a serem impostas nos produtos importados da China. O órgão era parte do governo chinês, porém ficou séculos sob comando britânico.

As memórias desse tempo ainda reverberam.

Tudo era diferente na época da dinastia Ming, no século 15, quando o almirante Zheng levou sete grandes frotas ao Sudeste Asiático, ao Ceilão (hoje Sri Lanka) e até à costa da África Oriental para promover seu comércio e exibir o poderio chinês.

Um dos objetivos das viagens de Zheng era impressionar os parceiros comerciais chineses e trazer incríveis e exóticos itens "importados" - por exemplo, a primeira girafa a chegar à China veio dessas expedições. Poucos outros impérios eram capazes, à época, de enviar enormes frotas pelos oceanos.

E Zheng podia entrar em combates se assim o desejasse - derrotou, por exemplo, um governante do Ceilão. No entanto, suas viagens são um raro exemplo de um projeto marítimo estatal. Nos séculos seguintes, a maioria do comércio exterior chinês ocorreria por vias não oficiais.

2 - Problemas com os vizinhos

A China sempre demonstrou preocupação em manter a paz nos países com os quais faz fronteira. Isso ajuda a explicar por que o país até hoje aceita lidar com o imprevisível regime norte-coreano.

Mas, historicamente, essa não é a única fronteira delicada do gigante asiático.

Pequim já enfrentou vizinhos mais difíceis do que Kim Jong-un (que, por sinal, fez recentemente uma visita surpresa aos líderes chineses, em sua primeira viagem internacional oficial).

Em 1127, época da dinastia Song, uma mulher chamada Li Qingzhao fugiu de sua casa, na cidade de Kaifeng. Conhecemos sua história porque ela se tornou uma das melhores poetas chinesas, sendo amplamente lida até os dias de hoje. Ela saiu em fuga porque sua comunidade estava sob ataque.

Um povo do norte, os Jurchen, havia invadido a China após um longo período de frágil aliança com o imperador da dinastia Song. Enquanto as cidades eram incendiadas pelos invasores, a elite da China se via forçada a se espalhar pelo país.

A história de Li Qingzhao e de toda a dinastia serviu na China como lição de que apaziguar vizinhos é uma estratégia com efeito limitado. Por muito tempo, a dinastia Jin comandou o norte da China, e os Song fundaram um novo reino ao sul. Mas, no fim, ambos foram dominados por um novo grupo de conquistadores: os mongóis.


A mudança de traçado nos mapas ao longo do tempo mostra como foi mudando a definição da própria China. A cultura do país é comumente associada a algumas ideias, como idioma, história e sistemas éticos, como o confucionismo.

No entanto, outros povos, como os manchus e os mongóis, ocuparam o trono chinês em vários momentos, dominando o país com as mesmas ideias e princípios que os chineses étnicos.

Esses vizinhos nem sempre ficavam "quietos", mas muitas vezes encamparam e exercitaram valores chineses de modo tão eficiente quanto os próprios.

3 - Fluxo de informação

A China moderna censura informações politicamente sensíveis na internet, e os que ousam dizer nas redes verdades políticas consideradas problemáticas pelas autoridades podem ser detidos ou sofrer punições ainda piores.

A dificuldade em falar a verdade aos poderosos é uma questão sensível há tempos. Historiadores chineses muitas vezes se viram forçados a escrever não o que achavam realmente importante, mas, sim, o que os líderes queriam que fosse escrito.

Mas Sima Qian - comumente descrito como o "grande historiador" da China - escolheu um caminho diferente.


Autor de uma das mais importantes obras de recriação do passado chinês, no século 1 a.C., Sima ousou defender um general que havia perdido uma batalha. Isso foi considerado uma afronta ao imperador, e Sima foi condenado à castração.

Ainda assim, ele deixou um legado que até hoje molda a forma como se escreve a história na China.

Seus registros mesclavam diferentes tipos de fontes, criticavam figuras do passado histórico e usavam técnicas da história oral para ser mais preciso nos relatos. Tudo isso configurava, à época, uma forma totalmente nova de fazer história e abriu precedente para futuros escritores: se você estivesse disposto a sacrificar sua segurança, conseguiria escrever os fatos em vez de se autocensurar.

4- Liberdade de religião

A China moderna é muito mais tolerante a práticas religiosas do que na época da Revolução Cultural de Mao, mas movimentos de cunho religioso que possam desafiar o governo ainda são vistos com desconfiança.

Em geral, a abertura religiosa foi durante muito tempo parte da história chinesa.


No auge da dinastia Tang, no século 7, a imperadora Wu Zetian abraçou o budismo como uma forma de combater o que ela provavelmente via como as sufocantes normas das tradições confucionistas.

Na dinastia Ming, o jesuíta Matteo Ricci foi tratado pela corte chinesa como um interlocutor de respeito, ainda que provavelmente houvesse mais interesse nos conhecimentos dele sobre a ciência ocidental do que em suas tentativas de conversões religiosas.

Mas a fé sempre foi um assunto perigoso.

Ao fim do século 19, a China foi convulsionada por uma rebelião iniciada por Hong Xiuquan, homem que clamava ser o irmão mais jovem de Jesus; A rebelião Taiping prometia trazer um reino de paz celestial à China, mas acabou levando a uma das mais sangrentas guerras civis da história, com a morte de até 20 milhões de pessoas, segundo algumas estimativas.


Algumas décadas mais tarde, o cristianismo estaria ao centro de um novo levante. Em 1900, camponeses rebeldes passaram a perseguir missionários cristãos e seus convertidos, a quem chamavam de traidores da China.

A princípio, a corte imperial os apoiou, o que levou à morte de muitos cristãos chineses, antes que a rebelião fosse eventualmente contida.

Ao longo de boa parte do século seguinte, e com efeitos até os dias de hoje, a Estado chinês oscila entre tolerância religiosa e o temor de que a religião abale o país.

5 - Tecnologia

A China atual almeja se tornar um hub global de novas tecnologias e já é líder em aspectos como inteligência artificial, reconhecimento de voz e big data.

Vale lembrar que, um século atrás, o país passou por uma primeira revolução industrial - e as mulheres tiveram papel tão central na época quanto têm hoje.

Muitas das fábricas que hoje produzem chips de celular para o mundo inteiro têm como mão de obra jovens mulheres muitas vezes submetidas a terríveis condições de trabalho, mas que pela primeira vez também estão buscando seu lugar na economia industrial.

Elas herdaram a experiência das jovens de 100 anos atrás que foram empregadas nas fábricas de tecidos de Xangai e do delta do rio Yangtze. O trábalho era árduo, comumente levava a ferimentos físicos e câncer de pulmão, e as condições dos dormitórios dos empregados costumavam ser espartanas.

Ainda assim, esas mulheres relatavam o prazer de ganhar seus próprios (baixos) salários e de ocasionalmente sair para passear.

Algumas gostavam de admirar as vitrines (provavelmente sem poder comprar nada) das lojas de departamento então recém-inauguradas no centro de Xangai.

Até hoje, na mesma cidade, ainda é possível ver a nova classe trabalhadora chinesa consumindo bens e serviços como parte da nova economia chinesa, movida pela tecnologia.

O que dirão futuros historiadores?

Estamos vivendo uma nova significativa era de transformação na China. Futuros historiadores notarão um país que, se em 1978 era empobrecido e voltado a si mesmo, um quarto de século depois começaria a se tornar a segunda maior economia do mundo.

Eles também observarão que a China foi o mais importante país a rejeitar o que parecia ser uma onda inevitável de democratização.

Talvez outros fatores, como a (já extinta) política do filho único e o uso de inteligência artificial na vigilância da população também chamem a atenção de futuros escritores. Ou mesmo questões relacionadas ao meio ambiente, à exploração espacial ou ao crescimento econômico que ainda não estão tão claramente definidas para nós.

Mas uma coisa é quase certa: daqui a um século, a China ainda será um local fascinante para os que vivem ali e os que convivem com ela, e sua rica história continuará a informar seu presente e sua direção futura.

*Rana Mitter é professor de História e Política da China Moderna na Universidade de Oxford e diretor do centro de estudos chineses da instituição

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