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Norwegian Air: a trajetória da 1ª companhia aérea a fazer voos de baixo custo entre Brasil e Europa

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Imagem: Divulgação

Luis Barrucho

Da BBC News Brasil em Londres

29/11/2018 08h47

O norueguês Bjørn Kjos, de 72 anos, acostumou-se a encarar desafios. Nasceu prematuro, pesando apenas 600 gramas, cinco vezes menos do que seu irmão gêmeo, Jon. Em 1967, durante um salto de treinamento, seu paraquedas principal apresentou um defeito. O de emergência não abriu. Segundos antes de se espatifar no solo, conseguiu solucionar o problema e aterrissou sem ferimentos. E há 25 anos, salvou uma pequena empresa de aviação da falência.

Agora, se prepara para uma nova missão, anunciada nesta semana: operar o primeiro voo de baixo custo entre o Brasil e o Reino Unido. A rota, sem escalas, ligará Londres ao Rio de Janeiro, a partir de 31 de março de 2019.

Ex-piloto de jatos e advogado de carreira, Kjos fundou a Norwegian Air Shuttle. Sob seu comando, a companhia aérea se transformou na maior da Escandinávia e na terceira maior do segmento de baixo custo na Europa, atrás da Ryanair e da easyJet, transportando 33 milhões de passageiros em 2017.

Para o Brasil, estão previstos quatro voos por semana (às segundas, quartas e sextas-feiras, além de domingos) com aeronaves Boeing 787-9 Dreamliner de até 344 assentos, considerando classe econômica e cabines Premium.

De acordo com informações da companhia, os voos do Rio partirão às 22h25, chegando às 13h35 ao Aeroporto de Gatwick. As saídas de Londres estão previstas para ocorrer às 12 horas, chegando ao Brasil às 19h25. Os horários são locais.

O grande diferencial da Norwegian, no entanto, está no preço: a partir de 240 libras (cerca de R$ 1.185) cada trecho. O valor representa uma redução de pelo menos 30% frente ao da concorrente, segundo cotação online feita pela BBC News Brasil na primeira semana de abril. A venda das passagens já está disponível no site da companhia.

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Bjørn Kjos transformou a Norwegian na 3ª maior aérea de baixo custo da Europa Imagem: Divulgação

Atualmente, apenas a British Airways faz voos diretos entre Londres e Rio de Janeiro. A Latam deixou de operar a rota em 2014 e agora os voos da empresa ligando Londres ao Rio têm pelo menos uma escala.

"Nossa nova rota no Rio de Janeiro quebra o monopólio dos voos diretos entre o Reino Unido e o Brasil, já que estamos comprometidos em reduzir as tarifas e tornar as viagens mais acessíveis para turistas e viajantes de negócios", disse a empresa por meio de comunicado.

A inclusão do Brasil na lista de destinos internacionais operados pela Norwegian aumenta sua presença na América do Sul. Atualmente, a empresa faz voos diretos ligando a capital argentina, Buenos Aires, a Londres.

Atualmente com quatro frequências semanais, a rota vai passar a ser diária a partir de 3 de dezembro por causa do aumento da demanda. Em outubro deste ano, a companhia aérea inaugurou voos domésticos na Argentina, com duas rotas de Buenos Aires para Mendoza e Córdoba, além de rotas planejadas para Salta, Iguazú, Bariloche e Neuquén.

Por ora, a empresa informou que não tem planos de fazer o mesmo no Brasil. Mesmo se quisesse operar rotas regionais, esbarraria na legislação brasileira, que impede o controle acionário total de empresas aéreas nacionais por capital estrangeiro. Atualmente, o máximo permitido pelo Código Brasileiro de Aeronáutica é de 20%.

No início deste mês, a empresa chilena Sky Airline tornou-se a primeira aérea estrangeira a operar um voo de baixo custo regular internacional de passageiros para o Brasil, de Santiago, no Chile, ao Rio de Janeiro.

Já as argentinas Flybondi e Avian (grupo Avianca), também de baixo custo, devem passar a voar ao Brasil no ano que vem. A primeira recebeu autorização do governo argentino para operar no país, mas ainda tem que entrar com o pedido de autorização jurídica e operacional na Anac (Agência Nacional de Aviação Civil). Enquanto isso, a segunda está autorizada juridicamente a iniciar suas operações no Brasil.

Modelo de negócios

O início dos voos da Norwegian ao Brasil coincide com mudanças regulatórias no mercado de aviação do Brasil, entre elas a regra que permite a cobrança pelo despacho de bagagens, em vigor desde o ano passado.

Esse é considerado um dos principais elementos do tripé que baseia o modelo de negócio das companhias aéreas de baixo custo.

"A principal diferença entre as transportadoras de baixo custo e as companhias aéreas tradicionais divide-se em três grupos: economia de serviços, economia operacional e economia de custos indiretos", diz um relatório da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), agência especializada da ONU, publicado em 2003.

A Norwegian não é exceção em meio às empresas áereas de baixo custo. Quem opta pela tarifa mais básica (não reembolsável) só tem direito a viajar com uma mala de mão, qualquer outra bagagem é cobrada à parte. Todo o serviço de bordo também é cobrado: do travesseiro à água. Marcar o assento com antecedência só é possível mediante pagamento antecipado. Esqueceu de imprimir o cartão de embarque em casa? Não há totem no aeroporto.

Esse também será o caso da rota entre Brasil e Reino Unido.

Mas é justamente essa redução de custos um dos fatores que permitiu a essas companhias baixar os preços e revolucionar o mercado de aviação civil, especialmente em rotas de curta e média distâncias.

"Além da simplificação do serviço, temos a padronização das frotas, um aumento nas horas voadas e uma redução do tempo em solo", explica à BBC News Brasil, André Castellini, sócio da consultoria Bain & Company e especialista no setor de aviação.

Voos transatlânticos

O que difere a Norwegian de outras companhias de baixo custo, no entanto, vem sendo sua aposta feroz em operar voos transatlânticos, ou de longa distância.

De Londres, a companhia voa para 100 destinos diferentes, dos Estados Unidos à Tailândia.

Até agora, a empreitada parece ter sido bem-sucedida. Recentemente, a Norwegian ultrapassou a British Airways como a maior companhia aérea fora dos Estados Unidos a operar rotas transatlânticas de e para a região de Nova York.

Nos 12 meses terminados em julho deste ano, a empresa norueguesa transportou 1,67 milhão de passageiros, contra 1,63 milhão da rival britânica.

Não surpreende, portanto, que o crescimento acelerado tenha transformado a Norwegian em objeto de disputa entre as gigantes do setor aéreo.

A IAG, conglomerado que é dono da British Airways e já detém 4,6% da Norwegian, já tentou comprá-la duas vezes, sem sucesso. Luftansa e Ryanair também teriam demonstrado interesse na companhia.

Brasil

Apesar do sucesso da Norwegian mundo afora, Castellini diz não acreditar que o início de suas operações no Brasil vá "revolucionar o setor". Ele prevê, contudo, uma queda nos preços cobrados pela concorrência.

"O que acontece é que sempre que um novo player entra no mercado, especialmente uma empresa capitalizada, aumenta-se a oferta de voos e o preço da tarifa cai. Isso acontece independentemente se a empresa é de baixo custo ou não", diz.

Ele acrescenta que o modelo de negócio das companhias aéreas de baixo custo em rotas de longa distância não vem se demonstrando "tão disruptivo quanto nas de curta e média distâncias".

"A questão principal é quão sustentável vai ser a operação. O modelo de negócios dessas empresas é baseado na otimização de custos. Mas em voos de longa distância, alguns desses fatores, como a padronização da frota e a redução do tempo no solo, não são tão relevantes quanto nos de curta e média distâncias", explica.

"Isso sem falar no comportamento dos passageiros. Quando se viaja por 12 horas (duração média de um voo do Rio a Londres), muitas pessoas valorizam o mínimo de serviço de bordo", acrescenta.

Modelo sustentável?

A sustentabilidade do modelo de negócios da Norwegian em rotas de longa distância é, de fato, uma das principais dúvidas levantadas por especialistas do setor aéreo mundo afora.

Em 2017, a Norwegian teve um prejuízo líquido de 300 milhões de coroas norueguesas (R$ 135 milhões), principalmente devido ao mau desempenho de outubro a dezembro. Apesar disso, surpreendeu o mercado no segundo semestre daquele ano ao registrar resultado positivo acima do esperado.

Em outro desdobramento, a companhia anunciou que vai cancelar a rota entre Londres e Cingapura, apenas um ano após ser lançada.

Além disso, como a operação de voos de longa distância da Norwegian prima pela otimização de custos, há menor flexibilidade se um piloto fica doente ou um avião apresenta problemas técnicos. Em alguns trechos, há apenas uma aeronave disponível. É o caso da viagem entre Oslo e Los Angeles, por exemplo. No dia seguinte, a mesma aeronave pode ser usada em outro trecho.

Exemplo disso aconteceu em março deste ano, quando passageiros de um voo da Norwegian a Nova York ficaram retidos no aeroporto de Gatwick, em Londres, por quase 24 horas, devido a um defeito técnico no avião. A companhia se negou a oferecer acomodação e a polícia teve que ser chamada.

Outro problema tem fundo político. A Noruega tem um dos mais altos custos trabalhistas do mundo. Depois de ter tido negado o pedido para contratar tripulação tailandesa, a Norwegian estabeleceu a operação de voos de longa distância a partir de uma companhia registrada na Irlanda, de forma a atender as regulações da União Europeia.

Críticos dizem que a iniciativa abre o precedente para que companhias aéreas, especialmente as de baixo custo, usem "bandeiras de conveniência" para cortar despesas.

Por fim, a expansão da frota (a Norwegian comprou 222 aviões em 2012, uma das maiores compras do setor) e o aumento no preço do combustível podem criar um novo obstáculo para a saúde financeira da empresa.

"Será preciso aguardar para ver qual o nível de tarifa necessário para manter essa operação", conclui Castellini.

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