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O que o Brasil teria a perder com um afastamento da Argentina?

Camilla Veras Mota - @cavmota - Da BBC Brasil em São Paulo

10/12/2019 06h44

As trocas de farpas entre Bolsonaro e o presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, ganharam um novo capítulo no último fim de semana, quando o governo brasileiro informou que não enviaria representante à posse, marcada para esta terça (10/12).

Em novembro, Bolsonaro havia decidido que seria representado pelo ministro da Cidadania, Osmar Terra. Neste domingo (08/12), chegou a informar que o Brasil não estaria presente na solenidade. No fim da tarde de segunda voltou atrás e afirmou que enviaria o vice, Hamilton Mourão.

A última vez que um presidente brasileiro não esteve na posse de um presidente argentino foi em 2002, quando o país, que ainda digeria a crise de 2001, trocou de presidente pela quinta vez desde a renúncia de Fernando de la Rúa. Eduardo Duhalde assumiu poucos minutos depois de ser eleito pela Assembleia Legislativa.

Parte dos analistas econômicos e representantes de setores exportadores brasileiros não acreditam que o clima de animosidade entre os dois políticos, que começou ainda antes das eleições argentinas, terá desdobramentos práticos. A avaliação é de que, como os dois países são bastante interdependentes - e diante da desaceleração da economia global -, o pragmatismo falará mais alto.

Mas quais consequências práticas que um eventual afastamento da Argentina teria para o Brasil?

Complementaridade produtiva

O setor que mais sofreria caso houvesse um estremecimento das relações bilaterais seria a indústria.

A Argentina é o principal destino das exportações de produtos manufaturados brasileiros e o terceiro se contabilizados todos os produtos.

Enquanto o Brasil exporta muita soja e minério para a China e para os EUA, por exemplo, vende para o vizinho itens de maior valor agregado, que vão desde calçados e automóveis a máquinas e peças.

Ele é o principal parceiro comercial da Argentina, respondendo por 27% de todas as importações do país (dados de 2017). A China fica em segundo lugar, com 19%.

Desde a criação do Mercosul, em 1991, a indústria dos dois países tem ficado mais integrada. Isso fica mais claro quando se olha no detalhe a composição das exportações brasileiras para a Argentina.

Um estudo conduzido pelas economistas Mayara Santiago e Luana Miranda, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), mostrou que 58% de tudo o que é vendido para o parceiro são bens intermediários.

Ou seja, são motores, peças e outros manufaturados que são usados pela indústria argentina, que vão compor produtos acabados feitos no país.

Assim, em um cenário de distanciamento entre os dois países, a Argentina também seria prejudicada, já que poderia perder fornecedores importantes para sua indústria.

"Manter uma boa relação é benéfico para os dois lados", pondera Mayara Santiago.

O impacto da atual crise argentina sobre o setor no Brasil também dá dimensão dessa interdependência. Ainda de acordo com o estudo das economistas do Ibre-FGV, a recessão da Argentina tirou 0,2 ponto percentual do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2018.

Ou seja, sem o "choque argentino", a economia brasileira teria crescido 1,3% em vez de 1,1% (o estudo foi feito antes da revisão do PIB de 2018 pelo IBGE, que alterou o dado do ano passado para 1,3%).

Para 2019, a projeção é de que esse impacto negativo seja ainda pior, de 0,5 ponto percentual.

Este será, aliás, o primeiro ano desde 2003 que a balança comercial do Brasil com a Argentina vai ficar no vermelho. Entre janeiro e novembro, o saldo é negativo em US$ 641,8 milhões.

A redução das exportações para o vizinho, acrescenta a economista, tem ainda um "efeito transbordamento" importante, que vai além da indústria e afeta o comércio e os serviços. Uma máquina que deixa de ser exportada, por exemplo, significa menos um frete, menos volume de trabalho no escritório de representação comercial e por aí vai.

A recuperação da demanda interna pode atenuar o "efeito Argentina" em 2020, afirma Mayara, e compensar a queda nas vendas para o vizinho.

Ainda assim, a manutenção da boa relação do Brasil com seus parceiros comerciais se mantém uma variável importante, já que a indústria como um todo vem perdendo espaço na economia. Para o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), o país passa por um dos mais graves casos de "desindustrialização prematura" do mundo.

Um estudo divulgado pela entidade em agosto mostrou que, enquanto o setor industrial perdeu 36,1% de peso no PIB global entre 1980 e 2018, no Brasil o recuo foi de 58,6% no mesmo período.

A política e a 'vida real'

Para o economista Guillermo Tolosa, analista da Oxford Economics, o discurso muitas vezes agressivo de ambos os lados tem o objetivo principal de agradar as respectivas bases eleitorais de Bolsonaro e de Alberto Fernández.

Enquanto o presidente brasileiro se define como um político conservador e liberal, o colega argentino é um veterano do peronismo - movimento que, apesar de agregar os mais diferentes matizes ideológicos, lançou os principais nomes da esquerda que chegaram à Casa Rosada, como Néstor e Cristina Kirchner.

Ele vê as trocas de farpas como naturais. A expectativa, entretanto, é que elas se mantenham na esfera da política e não tenham grandes desdobramentos práticos.

"O incentivo para se colocar barreiras de comércio não existe, de um lado e de outro", avalia. "Não faz sentido se autoinfligir 'mais dor' (além daquela causada pela recessão argentina) em uma guerra comercial ou algo parecido."

A aparente hostilidade entre os dois presidentes seria algo como, na expressão em espanhol, "mucho ruido y pocas nueces", brinca o economista, citando o ditado que no Brasil equivale a "muito barulho por nada".

Assim esperam os setores exportadores brasileiros.

Haroldo Ferreira, presidente da Abicalçados, que representa a indústria calçadista, diz acreditar que a diplomacia vai resolver eventuais desentendimentos entre os chefes de Estado.

"A parte política é uma coisa, o mundo real é outra."

Mesmo com a retração da economia argentina, conta Ferreira, o país segue sendo o segundo principal comprador dos calçados brasileiros, absorvendo a produção de diferentes polos, do Rio Grande do Sul e São Paulo à Bahia e ao Ceará.

Assim, a principal expectativa do setor em relação ao novo governo, diz ele, é em relação à sua capacidade de reaquecer a economia argentina.

Ferreira, que trabalhou na Azaleia por 23 anos, lembra das barreiras à importação impostas por Cristina Kirchner - hoje vice de Alberto Fernández - quando ela esteve na presidência, entre 2007 e 2015.

No pior momento, os obstáculos colocados pelo governo argentino para a compra de produtos brasileiros, que precisavam de licenças especiais para entrar no país que às vezes demoravam meses para sair, impôs prejuízos de quase US$ 200 milhões ao setor.

"Mas é melhor lidar com barreiras alfandegárias e ter uma Argentina que compre nossos produtos do que o contrário", diz ele, referindo-se à situação do país nos últimos dois anos.

A chegada de Mauricio Macri ao poder, em 2015, foi um ponto de inflexão na orientação protecionista da política de comércio exterior. A crise econômica que se intensificou a partir de 2018, entretanto, corroeu o poder de compra dos argentinos e derrubou a demanda.

De janeiro a outubro, as exportações de calçados para o país recuaram 35,7% em relação ao mesmo período do ano anterior.

O percentual é parecido com o observado pela indústria de máquinas e equipamentos. Entre janeiro e novembro, o recuo foi de 31,9%, para US$ 621,3 milhões, de acordo com os números da Abimaq, que representa o setor.

"Para nós, é extremamente importante que o Brasil busque o diálogo, não só com a Argentina, mas com qualquer mercado", diz Patrícia Gomes, diretora de mercado externo da entidade.

Segundo ela, o Brasil vende ao país um leque amplo de produtos, que vão de máquinas usadas no setor têxtil e do plástico, por exemplo, a maquinário agrícola. A Argentina é o segundo principal destino para as empresas associadas à Abimaq, atrás apenas dos EUA.

Morde e assopra

Bolsonaro e Alberto Fernández têm trocado provocações desde meados deste ano.

Quando a crise na Argentina apertou e a possibilidade de reeleição de Macri, que era dada praticamente como certa até 2018, foi colocada em dúvida, o presidente brasileiro chegou a dizer que um eventual retorno de Cristina Kirchner ao poder poderia transformar o país "em uma Venezuela".

Em julho, por sua vez, Alberto Fernández visitou o ex-presidente Lula na prisão em Curitiba e, em agosto, após a vitória de sua chapa nas primárias, ressaltou que o Brasil continuaria sendo o principal parceiro comercial do país, para depois emendar que Bolsonaro era "um elemento da conjuntura na vida do Brasil" e alguém "misógino, racista e violento".

Dias depois, o presidente brasileiro também causou polêmica ao dizer que avalizava as declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes, que afirmara que, se o peronismo vencesse e Fernández impusesse restrições à abertura comercial do Mercosul, o Brasil poderia deixar o bloco.

No dia em que os argentinos foram às urnas, durante a apuração dos votos, Fernández postou no Twitter uma foto parabenizando Lula.

"Faz aniversário hoje o meu amigo Lula, um homem extraordinário que está preso injustamente", escreveu.

https://twitter.com/alferdez/status/1188529944491708417

No mesmo dia, Bolsonaro afirmou que o Brasil pretendia ampliar o comércio com o vizinho, mesmo que o favoritismo da chapa de Fernández e Cristina se confirmasse.

No dia seguinte, após a confirmação, declarou que os argentinos haviam "escolhido mal" e disse que não parabenizaria o colega.

Finalmente, na semana passada, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, visitou o presidente eleito em Buenos Aires e levou um recado de Bolsonaro, de que esperava que se construísse uma "boa relação" entre os dois governos.

"Se nos respeitamos, fica mais fácil conviver", disse Fernández. "Transmitam ao presidente Jair Bolsonaro meu respeito e apreço por trabalharmos juntos."


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