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Pacto do petróleo de Putin e sauditas ampliaria guerra na Síria

Henry Meyer e Glen Carey

(Bloomberg) -- Os esforços conjuntos da Rússia e da Arábia Saudita para interromper a queda do petróleo poderão acabar colocando ainda mais combustível na guerra na Síria.

O acordo que os dois maiores produtores de petróleo do mundo assinaram nesta semana para limitar a produção esconde ardentes animosidades relacionadas à Síria, onde os dois países apoiam facções rivais em um conflito multifacetado que já custou mais de 250.000 vidas.

"A ironia é que se o acordo entre sauditas e russos conseguir estabilizar ou elevar os preços do petróleo, ambos os países terão recursos extras para financiar sua guerra por procuração em um momento em que a Arábia Saudita ameaça avançar para uma intervenção direta", disse James Dorsey, pesquisador sênior de estudos internacionais na Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura.

Na semana passada, a Arábia Saudita mobilizou aviões de guerra na Turquia, que derrubou um jato russo próximo à fronteira síria em novembro, e disse que está disposta a enviar soldados juntamente com seus aliados se os EUA liderarem uma ofensiva por terra contra o Estado Islâmico. Um movimento como esse, descartado até o momento pelo governo Obama, poderia provocar um confronto com as forças do presidente Bashar al-Assad, apoiado por uma ofensiva aérea russa que inverteu a maré na guerra travada há cinco anos. Os EUA, a Arábia Saudita e a Turquia querem a derrubada de Assad.

Apostas altas

As apostas estão subindo no momento em que bombardeiros russos ajudam na ofensiva de Assad para retomar Aleppo. A perda daquela que antes era a cidade mais populosa da Síria seria um grande revés para os rebeldes apoiados por turcos e sauditas. A Turquia também está alerta devido ao avanço, ao longo de sua fronteira, de curdos sírios financiados pelos russos, que são considerados terroristas em Ancara e estão restringindo as linhas de abastecimento aos rebeldes. No fim de semana, a Turquia começou a bombardear posições curdas do outro lado da fronteira.

O acordo petrolífero da Rússia com a Arábia Saudita reflete apenas os interesses comuns, e não alguma diminuição nas diferenças em relação à Síria, segundo o porta-voz do presidente Vladimir Putin, Dmitry Peskov.

"São assuntos separados", disse Peskov a repórteres na quarta-feira.

"O tenso cenário diplomático para o acordo do petróleo é intrigante, mas esta não é a primeira vez que a Rússia adota a postura pragmática de separar os assuntos de política externa de seus interesses econômicos vitais", disse Lilit Gevorgyan, economista sênior da IHS Global Insight em Londres.

A maioria dos analistas não acredita que o congelamento da produção próximo a altas recorde reforçará os preços se outros grandes produtores da Opep acompanharem a liderança da Arábia Saudita. O Irã, que está retornando aos mercados internacionais após anos de sanções, tem dito que pretende reconquistar participação de mercado independentemente dos preços.

'Sentindo o calor'

A queda do petróleo para o menor valor em 12 anos representa uma ameaça real tanto para a Rússia quanto para a Arábia Saudita, que estão sendo forçadas a cortar gastos em meio à queda das receitas com energia. Putin enfrenta a recessão mais longa da Rússia em duas décadas, impulsionada pelo duplo golpe da queda dos mercados de commodities e das sanções relacionadas à Ucrânia.

"Essa tentativa de aumentar os preços do petróleo poderão acabar sendo de curto prazo, ou até completamente ilusórias", disse Paul Sullivan, professor de estudos de segurança da Universidade de Georgetown, em Washington. "No entanto, este é um sinal de que a Rússia e a Arábia Saudita estão sentindo o calor dos problemas econômicos".

Mesmo assim, os dois países se recusam a retroceder em suas assertivas agendas de política externa. Putin minimizou os desafios econômicos sem precedentes de seu país para manter o controle sobre o conflito travado há dois anos na Ucrânia, onde um frágil cessar-fogo continua em vigor.

Na semana passada, em Munique, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, e seu par russo, Sergei Lavrov, ajudaram a intermediar um cessar-fogo limitado na Síria e concordaram em realizar entregas de ajuda humanitária conjuntas ao país.

A Rússia, que é acusada por Washington e seus aliados de mirar os oponentes menos militantes de Assad em vez do Estado Islâmico, tem dito que continuará bombardeando o que classificar como grupos terroristas, independentemente de quem os apoie.

 

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