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Riscos bancários espreitam Portugal após queda dos títulos

Anabela Reis

(Bloomberg) -- Enquanto o mercado de títulos se preocupa com a política portuguesa, um outro drama custoso pode estar se desenrolando no setor bancário do país.

Os títulos do país despencaram pelo temor de que o governo socialista de minoria não adote medidas suficientes para conter o déficit orçamentário.

Contudo, na semana passada o primeiro-ministro António Costa chamou a atenção para um assunto completamente diferente, dizendo ao jornal semanal Expresso que a Caixa Geral de Depósitos, um banco estatal, terá que captar recursos para reforçar suas contas.

Este ano tem sido marcado por uma das piores turbulências nos bancos europeus desde 2008.

Assim como no caso dos bancos de países endividados como Espanha e Itália, as ações do Deutsche Bank, na Alemanha, e do Credit Suisse Group, na Suíça, caíram.

Em Portugal, a situação é um legado da forma como o país lidou com os cerca de 40 bilhões de euros (US$ 45 bilhões) em baixas contábeis reconhecidas por seus bancos entre 2008 e 2014, principalmente devido a empréstimos inadimplentes.

"Existe um aumento significativo nas exigências de capital para os bancos e com o crescimento lento não se pode criar capital organicamente", disse Owen Callan, estrategista de renda fixa da Cantor Fitzgerald em Dublin. "É preciso acertar os empréstimos inadimplentes nos bancos em algum momento".

Sob pressão

A Irlanda adotou uma abordagem do tipo "big bang" para recapitalizar seu setor financeiro como parte de um resgate internacional em 2010. Portugal usou uma abordagem mais gradual, temendo que os prejuízos afundassem as contas do governo e, por sua vez, prejudicassem ainda mais o setor financeiro, processo conhecido como ciclo diabólico.

O país, contudo, está vulnerável novamente porque a dívida continua alta. Portugal faz parte de um grupo de seis países europeus com uma proporção de empréstimos inadimplentes acima dos 10%, juntamente com Itália, Irlanda e Chipre, disse o Banco de Portugal no mês passado.

Em dezembro, quase dois anos após deixar seu programa de resgate, Portugal foi obrigado a separar 1,8 bilhão de euros para o Banif SGPS.

O Banco Comercial Português ainda precisa pagar 750 milhões de euros em títulos convertíveis contingentes ao governo e a Caixa Geral precisa pagar 900 milhões de euros.

Essa situação ocorre depois de os oito maiores bancos de Portugal captarem mais de 26 bilhões de euros em capital entre 2008 e 2014, incluindo ajuda estatal, durante o resgate e o socorro ao Banco Espírito Santo, segundo o Banco de Portugal.

Fazendo perguntas

Se você tem uma dívida como a de Portugal, "que é alta, e não possui controle sobre sua moeda, há sempre o risco de o mercado começar a questionar e a funcionar contra você", disse David Schnautz, diretor de estratégia de taxas do Commerzbank. "Mesmo que seja por uma boa razão, não se pode simplesmente sobrecarregar ainda mais o país".

Os títulos portugueses de 10 anos caíram desde que Costa assumiu o poder, em novembro, prometendo diminuir os cortes de gastos.

A diferença no rendimento em relação à Alemanha subiu para mais de 300 pontos-base na semana passada pela primeira vez desde 2014 e agora está em 3,05 pontos percentuais.

Os títulos ampliaram sua queda em janeiro após a decisão do Banco de Portugal de impor prejuízos para alguns detentores de títulos seniores do Novo Banco, instituição criada a partir das cinzas do Espírito Santo, após testes do Banco Central Europeu mostrarem um possível déficit de capital.

"Existe um risco de que os bancos portugueses precisem de mais capital e isso pode ser difícil de captar no mercado, dada a incerteza quanto à reestruturação do Novo Banco e o ânimo geral em relação aos bancos na Europa", disse Jens Peter Soerensen, analista-chefe do Danske Bank A/S em Copenhagen.

"Todos têm custos de financiamento mais elevados".

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