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Opinião: BCE está cercado por bancos centrais do mundo

Mohamed A. El-Erian

08/03/2016 13h38

(Bloomberg View) - Enquanto seu conselho se prepara para uma reunião em Frankfurt na quinta-feira (10), o Banco Central Europeu percebe que o escopo de suas ações não é influenciado apenas por questões regionais, mas também por outros bancos centrais do mundo que têm uma importância sistêmica.

O BCE está incomodamente prensado entre, por um lado, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) --que é capaz de se embrenhar mais profundamente em uma política monetária pouco convencional, mas não está disposto a isso-- e, pelo outro lado, o Banco Central do Japão e, em menor grau, o Banco Popular da China, que continua disposto a fazer mais, mas com medidas que parecem cada vez mais ineficientes para dar apoio à atividade econômica.

Em meio a esse equilíbrio frágil, é provável que o BCE opte por fazer mais. No entanto, embora suas medidas progressivas e pouco convencionais provavelmente tenham um impacto no curto prazo, o banco central chegará mais perto do ponto de ser cada vez menos eficiente e talvez corra o risco de ser contraproducente.

As autoridades do BCE serão muito pressionadas para ampliar o apoio do banco à economia europeia, que está perdendo o impulso de crescimento e recentemente viu sua taxa de inflação se tornar negativa.

Com esse objetivo, elas se sentirão tentadas a aumentar o ritmo das compras mensais de grande escala de títulos, o programa conhecido como flexibilização quantitativa, e poderiam ir além, empurrando ainda mais as taxas de juros para território negativo e modificando a estrutura da taxa.

Tais medidas contrastariam fortemente com o caminho escolhido pelo Fed, que abandonou seu programa de flexibilização quantitativa e, pela primeira vez em quase dez anos, elevou as taxas de juros - não porque a economia dos EUA tenha decolado, mas porque as autoridades estão cada vez mais preocupadas com os danos colaterais e as consequências imprevistas da dependência excessiva e prolongada dos experimentos do banco central com a política econômica.

Em vez disso, o BCE estará se aproximando de seu equivalente japonês, que enfrenta dificuldades para cumprir as metas propostas, embora tenha surpreendido os mercados há pouco com amplas medidas de estímulo.

Embora não haja certezas de que as políticas experimentais sejam sempre potentes, é provável que as ações do BCE nesta semana gerem algum impacto sobre a taxa de câmbio e sobre o preço dos ativos financeiros, e elas também poderiam provocar alguns efeitos secundários benéficos para a economia.

Especificamente, elas provavelmente ajudariam a enfraquecer o euro, o que impulsionaria as exportações e as atividades de substituição de importações. E é provável que elas ajudem os mercados acionários europeus a ter um desempenho melhor, pelo menos em termos relativos, o que contribuiria marginalmente para o fortalecimento do consumo.

Contudo, esses efeitos de curto prazo vão se dissipar rapidamente se não forem suplementados por uma transição mais ampla da política europeia - que a afaste da dependência excessiva do BCE e a aproxime de uma resposta política abrangente que turbine reformas estruturais em prol do crescimento, solucione as deficiências da demanda agregada, lide com os bolsos restantes de endividamento excessivo e fortaleça a arquitetura econômica e financeira da região.

Além do mais, como disse o ex-presidente do Fed Ben Bernanke em agosto de 2010, os "benefícios" das políticas pouco convencionais trazem "custos e riscos".

A dependência excessiva e contínua que a economia europeia tem do banco central está se tornando cada vez mais um esquema difícil de defender, porque aumenta a vulnerabilidade política do BCE e solapa a efetividade de sua política de longo prazo, cria um ambiente mais complicado para os bancos e distorce a alocação de capital.

Na verdade, o BCE poderia estar vulnerável seguindo o caminho do Japão, e os benefícios cada vez menores poderiam ser superados pelo aumento dos custos e dos riscos.

Quando o Banco do Japão surpreendeu os mercados há algumas semanas ao adotar taxas de juros negativas, é provável que ele não tenha previsto o que aconteceu depois: uma moeda mais valorizada (em vez de mais fraca), uma queda forte no mercado acionário (em vez de uma recuperação), um parlamento furioso exigindo explicações e evidências de que mais famílias abandonavam a intermediação do sistema bancário.

Esse é um lembrete vívido de que, depois de certo ponto, o do ativismo pouco convencional e prolongado do banco central - especialmente quando envolve taxas de juros nominais negativas - pode deixar de ser parte de uma solução de curto prazo e passar a provocar complicações que não são fáceis de conter.

A principal pergunta a fazer antes da reunião do BCE não deveria ser se as autoridades vão fazer mais. Elas vão. A questão é quão rápido elas vão se aproximar inadvertidamente da situação lamentável em que o Banco do Japão se encontra hoje - de menor efetividade da política e maior vulnerabilidade política.

Ninguém que se importe com a saúde da Europa e com a economia mundial gostaria que outro banco central com importância sistêmica chegue a esse estágio.

Esta coluna não necessariamente reflete a opinião do conselho editorial nem da Bloomberg LP e de seus proprietários.