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Opinião: Brasil fica mais animado com Olimpíada

Mac Margolis

(Bloomberg) -- Tenho uma confissão: outro dia fui velejar no Rio de Janeiro. Fui com toda a família, na verdade, em uma tarde de ventania antes da Olimpíada. E nós adoramos. Não havia lixo nem cadáveres boiando na água, como tantas mensagens alarmantes advertiram antes dos jogos. É verdade que minha filha não se sentiu muito bem, mas não por causa da poluição; é que ela fica mareada. Sim, há ondas na Baía de Guanabara.

Não quero ser do contra, mas acho que dará tudo certo na Olimpíada. A julgar pela elegante cerimônia de abertura e pelo primeiro fim de semana de competição, os jogos não vão decepcionar: seis recordes mundiais foram superados só na piscina, e pesos sem precedentes foram levantados. As mulheres brasileiras deslumbraram na quadra de vôlei, de handball e no campo de futebol. (O que não aconteceu com os jogadores de futebol que, apesar dos esforços do célebre atacante Neymar, não conseguiram fazer nenhum gol diante do humilde Iraque).

O que deu certo? Um exemplo é a cerimônia de abertura. Dizem que pelo menos os brasileiros sabem como fazer uma festa. Mais precisamente, eles sabem como fazer um espetáculo. Orquestrada por um trio de cineastas e cenógrafos, encabeçado por Fernando Meirelles ("Cidade de Deus"), a cerimônia de 5 de agosto no Maracanã foi simples, elegante e sedutoramente sóbria. Em vez de uma diva esgoelando o hino nacional, os diretores escolheram Paulinho da Viola, o adorado cantor de samba que apresentou o hino brasileiro quase sussurrando enquanto tocava violão acompanhado por um octeto de cordas.

A Olimpíada do Rio ainda pode dar errado. Há muitos perigos e tristezas além dos muros da Vila dos Atletas. (Pergunte aos jornalistas chineses, cujo translado de ônibus para a Vila Olímpica foi atrasado por um tiroteio ao lado da via expressa do aeroporto). E sim, partes da baía do Rio (embora felizmente não onde a maioria das competições será realizada) ainda está repleta de dejetos humanos. Nós fomos velejar, não nadar na Baía de Guanabara.

Mas os turistas estrangeiros não estão dando um passeio no inferno, como representantes do sindicato dos policiais alertaram recentemente em uma manifestação no saguão de chegada do aeroporto, na tentativa de transformar uma queixa trabalhista em uma oportunidade midiática. Com mais ou menos 85.000 soldados, patrulheiros, homens da guarda municipal e seguranças particulares para cuidar do Rio e de seus visitantes, é provável que você esteja mais seguro aqui do que em qualquer outro lugar do Brasil. Com certeza mais que no Rio Grande do Norte, onde chefes do crime presos com celulares clandestinos orquestraram recentemente mais de 100 atos de violência e desordem em dezenas de cidades.

A maioria dos brasileiros parece receptiva à Olimpíada, apesar das pesquisas sombrias antes dos jogos. Embora os dados de rating ainda não estejam disponíveis, a TV Globo, emissora líder, informou que teve a maior audiência televisiva em 20 anos em São Paulo com a cerimônia de abertura. Claro que alguns encrenqueiros tentaram apagar a tocha olímpica no caminho para o Rio, e a polícia dos estádios foi criticada por censurar torcedores que protestavam contra o presidente interino Michel Temer. Atenção para a ironia: eles estão sendo silenciados por uma lei de mordaça assinada pela presidente afastada -- e, aparentemente, em breve impedida -- Dilma Rousseff, que queria evitar constrangimentos durante a Copa do Mundo de 2014.

Mas as travessuras deram lugar ao orgulho quando a supermodelo Gisele Bündchen desfilou pelo Maracanã na cadência de "Garota de Ipanema", e todos aplaudiram quando o adorado ex-maratonista olímpico Vanderlei Cordeiro de Lima -- que perdeu a liderança e terminou em terceiro lugar nos jogos de Atenas quando um torcedor irlandês demente o agarrou -- subiu o estrado para acender a pira olímpica.

Uma boa amiga que, como eu, também se tornou carioca há muito tempo, disse que tem certeza de que a repentina melhora de ânimo brasileiro é mais teatro do que conversão. O mundo pode estar desabando, ela me disse, mas coloque plumas e maquiagem, chame uma supermodelo e deixe que adereços luxuosos e produção cuidem do resto.

Há algo de verdade neste argumento. Afinal, esta é a terra de Ivo Pitanguy, famoso cirurgião plástico, que morreu no sábado aos 93 anos. Junto com o jogador Pelé, Pitanguy é reverenciado como um ícone brasileiro, o homem que transformou seu país em um centro internacional de recriações artísticas.

Talvez isso seja ríspido demais. Os brasileiros estão magoados, não cegos. Eles estão certos em se irritar com um governo que bagunçou a economia e com políticos que ainda confundem mandatos eleitos com direitos inatos. Os atletas do País podem não estar entre as estrelas da Olimpíada do Rio, mas seus torcedores sabem a diferença entre ganhar o ouro e roubá-lo. E isso merece uma comemoração olímpica.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial nem da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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