A briga absurda sobre documentos de fundos que quase ninguém lê

Robert Schmidt

(Bloomberg) -- Como muitos americanos, Ken Winterhalter quer que o setor financeiro seja punido pelos descuidos do passado. A punição escolhida por ele, no entanto, não é cadeia para altos executivos, nem multas maiores.

Em vez disso, o presidente da fabricante de papel Twin Rivers Paper Co. foca em algo a seu alcance: frear um plano da Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC) que incentivaria mais investidores a acessar os relatórios sobre seus fundos mútuos pela internet.

"Após o pesadelo que foi o colapso de 2007, quando milhões de cotistas assistiram à evaporação de seu patrimônio, Wall Street precisa continuar assumindo responsabilidades por meio de comunicados em papel e informações impressas", escreveu Winterhalter em carta à SEC após a apresentação da proposta no ano passado.

A empresa de Winterhalter, sediada em Madawaska, no Estado do Maine, fabrica material usado nos saquinhos de batata frita do McDonald's, em bulas de remédio e, claro, o papel finíssimo no qual os fundos mútuos imprimem documentos. Geralmente, a companhia não se envolve em discussões sobre regulamentação financeira. Porém, sua campanha ganhou apoio de parlamentares e aliados insólitos, como sindicatos de funcionários dos correios, a principal associação de aposentados dos EUA e grupos de defesa do consumidor.

Pleito a autoridades

A campanha colocou os fundos mútuos na defesa, obrigando-os a levar o pleito a comissários da SEC e a comprar espaço publicitário para informar o público sobre os benefícios ambientais do plano. Os custos de impressão e postagem são bancados pelos investidores. A digitalização desses documentos proporcionaria economia anual de aproximadamente US$ 200 milhões e preservaria milhões de árvores, segundo as gestoras de fundos.

Poucos esperavam qualquer polêmica em torno do trabalho da SEC para popularizar a entrega eletrônica de documentos, que faz parte de uma proposta mais ampla para modernizar a regulamentação dos fundos . A briga é bizarra e vem machucando os dois lados, que trocam acusações sobre objetivos subjacentes escusos e uso de estatísticas de forma criativa, além de discutirem se idosos são capazes de digitar no computador um endereço longo de website. A presidente da SEC, Mary Jo White, ainda não definiu a data da votação da regra final.

A SEC implementou a maioria das exigências de prestação de contas muito antes de as pessoas começarem a usar smartphones ou mesmo e-mail. Embora investidores e empresas geralmente concordem que a agência precisa migrar mais rapidamente para o ambiente digital, a disputa em torno da documentação dos fundos mútuos alerta sobre as dificuldades desse processo.

Mudanças radicais

"Por que estamos debatendo se deveríamos enviar relatórios em papel?", questionou Tom Quaadman, diretor sênior do Centro para Competitividade nos Mercados de Capitais da Câmara de Comércio dos EUA, que apoia a proposta digital."Se você parar e pensar sobre isso alguns minutos, conclui que haverá mudanças radicais nos próximos cinco anos."

A proposta da SEC representa um pequeno passo, que cobre apenas o tipo de documento conhecido como relatório aos cotistas. Atualmente, os investidores recebem o documento impresso, a menos que optem por recebê-lo somente em formato digital. Os relatórios são enviados duas vezes por ano e contêm dados sobre os ativos do fundo, o desempenho dos mesmos e os gastos da entidade, mas também contêm especificidades jurídicas e ofertas de marketing. A regra proposta simplesmente permitiria à gestora do fundo alterar o padrão de entrega para o formato eletrônico.

A medida não cobre outras correspondências dos fundos, como prospectos e informativos a clientes, e ainda exige que as gestoras enviem por correio um aviso com o endereço do website onde ficam as informações online. O aviso também incluiria um número de telefone para o qual os investidores podem ligar gratuitamente para solicitar entrega em papel em caráter permanente.

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