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E se você não for tão rico quanto pensa que é?

Satyajit Das

(Bloomberg) -- A ideia de que o mundo está repleto de poupança -- um dos fatores que fundamentam a teoria da estagnação secular -- é, aparentemente, convincente. Pena que talvez não seja verdadeira.

Sim, a geração do pós-guerra é mais rica que qualquer outra antes dela. Mas o valor real de qualquer investimento depende da capacidade de poder convertê-lo em dinheiro e, assim, gerar poder aquisitivo. Na verdade, o patrimônio acumulado do mundo -- em torno de US$ 250 trilhões, de acordo com o Relatório Global de Riqueza, do Credit Suisse -- é quase indubitavelmente incapaz de materializar seu valor tangível. Deste modo, o número geral exagera amplamente a suposta abundância de economias.

A maioria dessas economias é mantida de dois modos: bens imóveis, principalmente residências principais, e carteiras de aposentadoria investidas em ações e títulos.

O valor de ambos está aumentando. O crescimento populacional, as rendas mais altas, o maior acesso ao crédito, os juros baixos e, em alguns casos, a oferta habitacional limitada elevaram o preço das casas; quem entrou cedo nesse mercado se saiu especialmente bem. Ao mesmo tempo, o aumento dos lucros e dos dividendos, impulsionado pelo crescimento econômico e pela inflação, elevou o valor das ações. Assim como as políticas monetárias flexíveis projetadas para combater a Grande Recessão desde 2009.

No entanto, a valorização da própria casa não se traduz automaticamente em poder aquisitivo. A residência principal não gera nenhuma renda. De fato, os custos de manutenção, as contas dos serviços públicos e os impostos imobiliários -- que muitas vezes acompanham o aumento de preço das casas -- implicam que esse fluxo de caixa é negativo.

Para monetizar os ganhos, seria necessário contrair empréstimos usando o valor do imóvel como garantia. O serviço desses empréstimos custa dinheiro e expõe os proprietários às flutuações do valor do imóvel. Claro que sempre é possível vender o imóvel. Mas é provável que grande parte do lucro seja consumida pelos custos da transação e da realocação -- sem falar no custo de uma nova casa, que também terá aumentado de valor.

Os preços altos dos imóveis dependem da existência de um número suficiente de possíveis compradores capazes de bancar as hipotecas cada vez maiores que ajudaram a elevar o valor dos imóveis durante os últimos cinquenta anos. Esse número pode estar diminuindo: a estagnação da renda, o declínio dos vínculos empregatícios seguros e duradouros e o aumento dos trabalhos por contrato minam o apetite por empréstimos e a capacidade de contraí-los. Mudanças demográficas e novos obstáculos à imigração vão reduzir o tamanho das populações como um todo. Considerações semelhantes se aplicam ao investimento imobiliário.

Os preços das ações, por sua vez, representam fluxos futuros, não presentes, de receitas. Os juros baixos, que terão que acabar subindo, aumentaram artificialmente o valor descontado desses fluxos de caixa. Grande parte dos ganhos apenas reflete múltiplos de preço e resultados mais altos, não receitas e lucros maiores. O crescimento mais lento e a inflação mais baixa significam que os fluxos de renda futuros poderão ser mais fracos.

Nos últimos anos, a avaliação das ações também se beneficiou com a crescente fatia de receita nacional capturada pelos lucros corporativos, o que pode ser insustentável. As recompras de ações financiadas por dívidas e a atividade corporativa que estimula as avaliações -- como as fusões -- podem desacelerar. As empresas não podem recomprar mais que determinado nível de ações em circulação se quiserem manter sua listagem na bolsa de valores e a liquidez da negociação das ações. As fusões vão acabar encontrando temores relativos à concorrência.

Os instrumentos de renda fixa não oferecem necessariamente um refúgio seguro. A qualidade do crédito das dívidas soberana e corporativa caiu. Modificações regulatórias estipulam que os títulos emitidos por bancos poderão sofrer baixa contábil em caso de crise financeira. Como os investidores assumiram mais riscos para compensar a queda dos retornos, eles enfrentam retornos cada vez mais incertos para o capital.

Um fator importante está modificando os fluxos dos fundos. O aumento do patrimônio, em parte respaldado por economias obrigatórias para aposentadoria ou incentivadas por impostos, criou mercados fortes para os ativos financeiros no período do pós-guerra. Agora, muitos dos investidores estão envelhecendo e vão consumir essas economias ao mesmo tempo para financiar sua aposentadoria. Considerando as desgastadas redes de segurança em todo o mundo desenvolvido, a extração desse dinheiro poderia ser enorme -- de fato, maior que os novos fluxos de entrada. Isso reduzirá os fundos disponíveis para investimento, assim como a demanda por imóveis, ações, títulos e outros ativos.

Tudo isso poderia desencadear um círculo vicioso. A redução do preço dos ativos diminuirá a receita tributária. Ao mesmo tempo, a demanda por serviços essenciais aumentará, porque muitas pessoas não poderão bancar suas próprias necessidades. As posições fiscais ficarão abaladas, o que resultará em menos gastos governamentais e em impostos mais altos. Isso só vai acelerar o desinvestimento.

A incapacidade de transformar o investimento em dinheiro vivo com as avaliações atuais significa que os indivíduos podem ser muito menos ricos do que eles imaginam. Eles podem ter que consumir menos agora para garantir que terão dinheiro suficiente para cobrir as necessidades futuras, o que reduz a atividade econômica. Os níveis mais baixos de patrimônio também limitam as opções de política monetária de governos e bancos centrais, que dependem da mobilização das economias para estimular o crescimento e administrar os altos níveis de dívida.

Talvez a ironia final seja que não importa se as economias reais são maiores ou menores do que se supõe atualmente, o resultado poderia ser o mesmo: uma economia global atolada em um longo período de estagnação.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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