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Herança de mulheres é menor no Islã. Um país quer mudar regras

Jihen Laghmari, Caroline Alexander e Tarek El-Tablawy

(Bloomberg) -- Halima Ben Diafi diz que seus irmãos passaram o verão aproveitando o litoral mediterrâneo da Tunísia enquanto ela ficou na capital, tentando juntar dinheiro suficiente para alimentar os filhos.

É que os homens receberam todo o dinheiro da família. Seu pai era bastante próspero de acordo com os padrões locais e deixou terras e uma casa no valor de cerca de US$ 200.000 quando faleceu. Mas, de acordo com as leis de herança do país, uma filha só tem direito a metade do que um filho recebe. E muitas mulheres, pressionadas por suas famílias e comunidades, acabam abrindo mão de sua parte.

Foi o que aconteceu com Halima. "Eu me sinto impotente e amargurada", disse ela no subúrbio degradado de Tunes, onde cuida do marido acamado e de três filhos. "Depois de receber toda a herança de nosso pai, meus irmãos só se preocupam com as próprias famílias. Eles viajam. Eles esqueceram que têm irmãs."

Na maioria dos países árabes, as leis sobre esses assuntos supostamente derivam dos textos sagrados do Islã. Mudá-las, em um clima onde o extremismo religioso prosperou, é um empreendimento de alto risco. No entanto, é isso que o presidente da Tunísia, Béji Caïd Essebsi, de 90 anos, propõe fazer ? e sua proposta repercutiu em todo o mundo muçulmano, promovendo um debate mais amplo sobre a modernização do islamismo.

Inovador islâmico

No mês passado, Essebsi solicitou uma revisão dos códigos civis que regem a herança, dizendo que a igualdade "é o fundamento da justiça e a base da vida em uma comunidade". Se isso requer reinterpretar os ensinamentos religiosos, disse o presidente, então melhor ainda: "Esta nova direção deve ser bem-vinda e encorajada".

Um país estancado durante a maior parte da história islâmica, a Tunísia encontra-se nesta década na vanguarda da mudança, mantendo um equilíbrio entre a democracia e o islamismo político de um modo que foi impossível em outros países da Primavera Árabe. Em alguns lugares do Oriente Médio, os islamitas instauraram governos teocráticos; em outros, foram assassinados, presos ou condenados à clandestinidade. Somente a Tunísia parecia oferecer um caminho intermediário. Lá, um partido islâmico ganhou as eleições, cedeu o poder pacificamente e depois voltou a entrar no governo em uma coalizão com parceiros seculares.

Não tem sido fácil. Desde a revolução de janeiro de 2011, a Tunísia teve oito governos. Também sofreu quatro grandes ataques de militantes islâmicos, o que dizimou a indústria do turismo, vital para o país. Os críticos da iniciativa de Essebsi dizem que essa iniciativa poderia provocar mais violência.

A Tunísia tem um histórico de promover os direitos das mulheres. Sob o comando de Habib Bourguiba, que presidiu durante a independência em relação à França, em 1956, e seu sucessor Zine El Abidine Ben Ali, a poligamia foi banida e as mulheres ganharam voz nos procedimentos de divórcio.

--Com a colaboração de Salah Slimani

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