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Setor siderúrgico enfrenta caos antes de tarifas nos EUA

Katia Dmitrieva

22/03/2018 13h33

(Bloomberg) -- Em algum lugar nos oceanos Atlântico e Pacífico, navios de carga com destino aos EUA transportam 5.000 toneladas de aço encomendadas pela distribuidora de David Wolff, com sede em Michigan.

Em algum lugar do Centro-Oeste americano, Wolff -- diretor de operações da Peerless Steel Company -- corre de cliente em cliente oferecendo todas as orientações possíveis nos últimos e agitados dias antes de as tarifas aplicadas pelo presidente Donald Trump ao aço entrarem em vigor, na sexta-feira. Mas o próprio Wolff admite que não sabe ao certo o que vai acontecer depois.

Ele não sabe se sua carga passará pela alfândega antes do fim do prazo, à meia-noite, gerando milhões de dólares em economia para a empresa ("estamos rezando"). De forma mais ampla, também não sabe que aumento precisará aplicar aos preços, nem por quanto tempo. Wolff diz que em três décadas no setor nunca viu um caos como esse. "É uma bagunça", disse, pelo celular, na terça-feira. "É como no Velho Oeste."

A Peerless e a maioria de seus clientes têm sede no país de Trump, os estados do cinturão da ferrugem que levaram o presidente a uma vitória eleitoral inesperada. Ele prometeu recuperar empregos em uma região industrial antigamente orgulhosa e hoje esvaziada pelo livre comércio. Para os defensores, as medidas desta semana -- taxas de 25 por cento ao aço e de 10 por cento ao alumínio -- representam o pagamento da primeira parcela da promessa. Para a maioria dos economistas, são um passo perigoso rumo a uma possível guerra comercial que pode ameaçar muito mais empregos do que é capaz de criar.

Plano B

A Peerless planeja absorver parte do custo adicional e repassar o restante a clientes que empregam dezenas de milhares de pessoas. Algumas dessas empresas já estão elaborando planos de contingência que envolvem transferências ou fechamentos de fábricas, disse.

Isso mostra por que os economistas estão tão unidos nas hostilidades aos planos de Trump. As tarifas criarão empregos na produção de aço e alumínio, indústria que emprega cerca de 140.000 americanos -- e pressionarão os negócios que usam metais na manufatura, setor que oferece empregos a um número de pessoas mais de 30 vezes maior.

As boas notícias já estão surgindo, com anúncios de reaberturas de fábricas de empresas como U.S. Steel e Republic Steel.

As más notícias serão mais dispersas geograficamente e podem levar mais tempo para chegar. E não é possível saber o quanto a situação vai piorar enquanto não houver uma resposta global clara às medidas da política "EUA em primeiro lugar" de Trump.

As tarifas aplicarão um custo anual de US$ 347 milhões às fabricantes de cerveja dos EUA, por exemplo, e eliminarão mais de 20.000 empregos, segundo a associação Beer Institute, ao aumentarem o custo de cada lata em uma fração de centavo.

A UE ameaça aplicar tarifas retaliatórias de 25 por cento a uma série de produtos de exportação dos EUA. A China prepara taxas que atingirão setores e estados onde vivem e trabalham partidários de Trump, segundo o Wall Street Journal.

Wolff é republicano e votou em Trump. Ele reconhece que o presidente está cumprindo uma promessa feita aos trabalhadores do setor siderúrgico que votaram nele. Mas "a longo prazo, será prejudicial", diz. "Não acho que tenham refletido o suficiente a respeito."

--Com a colaboração de Andrew Mayeda e Joe Deaux

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