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Bancos estrangeiros colocam mulheres para chefiar unidades no Brasil

Maria Silvia Bastos Marques foi nomeada presidente do Goldman Sachs no Brasil - Fabio Motta/Agência Estado
Maria Silvia Bastos Marques foi nomeada presidente do Goldman Sachs no Brasil Imagem: Fabio Motta/Agência Estado

Fabiola Moura e Felipe Marques

24/04/2018 12h53

(Bloomberg) -- Este tem sido um ano bom para as executivas brasileiras que querem chegar ao topo da hierarquia dos bancos --pelo menos para aquelas que trabalham para bancos estrangeiros.

O Goldman Sachs nomeou Maria Silvia Bastos Marques como presidente do banco no Brasil em fevereiro, a primeira mulher a liderar uma das operações locais da instituição na América Latina.

No mesmo mês, o Credit Suisse indicou Ana Paula Pessoa para um assento em seu conselho global --a primeira vez que um brasileiro é indicado para essa posição. Em março, o Deutsche Bank escolheu Maitê Leite para assumir a presidência do banco no país.

A situação, porém, é outra nos três maiores bancos locais, em que o recente progresso em reduzir a desigualdade de gênero ainda custa a alçar uma mulher para os cargos mais altos.

Entre os maiores bancos locais, apenas duas mulheres foram indicadas para ocupar cadeiras do conselho, uma no Bradesco e outra no Itaú Unibanco, e ambas são descendentes das famílias fundadoras dos bancos.

O Banco do Brasil não tem nenhuma mulher no conselho. Nas listas dos dez executivos de maior ranking dessas três instituições, as mulheres representam 13%.

Um dia, vamos ter vergonha de olhar para trás e ver que era assim.
Paulo Caffarelli, presidente do Banco do Brasil

BB: nenhuma mulher entre dez principais executivos

O Banco do Brasil não tem nenhuma mulher entre seus dez principais executivos nem em seu conselho, algo que Caffarelli diz estar empenhado em mudar.

Ele prometeu ter uma mulher em cada um dos níveis hierárquicos do banco, inclusive no conselho, até 2020, e disse que a instituição criou recentemente um conselho consultivo para ajudar com o tema. Entre os membros estão algumas das empresárias mais famosas do Brasil, como Luiza Trajano, proprietária do Magazine Luiza e ativista da causa da diversidade.

De acordo com Caffarelli, as mulheres já representam 16% do terceiro nível hierárquico do banco --o nível de gerente executivo-- em contraste com 6% em 2006. "O banco está avançando, mas uma mudança cultural maior é necessária", disse ele.

Empresas têm poucas mulheres no conselho

No Brasil como um todo, apenas 7,9% dos assentos em conselhos das 339 empresas de capital aberto são ocupados por mulheres, segundo o IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa). O percentual cai para menos de 4% se forem excluídas as mulheres que têm conexões familiares com as empresas.

"A situação ainda é precária, com muito poucas mulheres nos conselhos e principalmente os mesmos nomes", disse Pessoa, que aguarda a aprovação dos acionistas para entrar no conselho global do Credit Suisse, em entrevista.

"É preciso dar mais atenção às mulheres nos momentos de promoção, mas não acredito na imposição de cotas", disse Pessoa, que também é membro do conselho da empresa de mídia News Corp. e da construtora francesa Vinci.

Bancos de Wall Street nunca tiveram mulher no comando

Nos EUA, 367 empresas do índice Russell 1000 têm menos de duas mulheres em seus conselhos, de acordo com dados compilados pela Bloomberg. O número de companhias sem nenhuma mulher caiu de 176 em 2009 para 47 em 2018.

Os bancos estrangeiros que promoveram mulheres para altos cargos em suas operações no Brasil também têm seus problemas de diversidade na terra natal. Nunca houve uma mulher CEO de um grande banco de Wall Street.

Já a proporção de mulheres em cargos de gerência de bancos suíços é menor que em outras empresas do país, de acordo com o Schillingreport de 2017, com uma única CEO do sexo feminino entre 34 bancos.

As empresas financeiras brasileiras têm proporcionalmente menos mulheres parte do comitê executivo que a média global, segundo um estudo de 2016 da consultoria Oliver Wyman. No Brasil, as mulheres são 10% do comitê executivo, comparado a 16% na média global. Outros países da América Latina tiveram desempenho ainda pior: a Colômbia tem 7% e o México, 5%.

Nós, latino-americanos, crescemos em uma cultura machista sob diferentes aspectos. Por isso, os vieses inconscientes ligados às questões de gênero estão muito arraigados na maioria das pessoas.
Claudia Politanski, vice-presidente e membro do comitê executivo do Itaú Unibanco

Bradesco e Itaú dão sinais de mudança

No Itaú, as mulheres são 60% do quadro total de funcionários, participação que cai para 17% no comitê executivo e 14% na diretoria. Essa diferença está começando a estreitar, já que as mulheres representaram 35% das promoções para diretores no ano passado. O banco também indicou a primeira mulher para seu conselho de administração, Ana Lucia Villela, no mês passado.

O Bradesco também vem tentando aumentar a diversidade de seus quadros. No mês passado, nomeou Denise Pavarina como diretora de relações com investidores e promoveu Glaucimar Peticov para diretora adjunta, também parte da diretoria executiva do banco. No conselho, a única mulher é Denise Aguiar Alvarez, descendente do fundador do Bradesco.

"Existe uma mudança muito clara acontecendo, mas talvez não na velocidade que muitos gostariam, inclusive eu", disse Peticov, afirmando que o banco tem feito treinamentos para seus principais executivos na questão da diversidade.

(Com a colaboração de Jordyn Holman)