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Aperto no caixa justifica não-pagamento de dívida da Odebrecht

Cristiane Lucchesi, Felipe Marques e Aline Oyamada

26/04/2018 15h04

(Bloomberg) -- Uma análise dos números da gigantesca e atribulada Odebrecht Engenharia e Construção dá uma ideia do motivo pelo qual a empresa decidiu não efetuar um pagamento de título da dívida externa que vencia no dia 25 de abril.

A construtora do conglomerado Odebrecht SA tem cerca de US$ 3 bilhões em dívidas pendentes com detentores de títulos internacionais, a maior parte de longo prazo. Mas gasta cerca de US$ 150 milhões por ano apenas em pagamentos de juros, segundo a empresa, e viu sua posição de caixa cair 46 por cento em 2017, para US$ 700 milhões no fim do ano passado.

A construtora, que teve a imagem manchada pelo épico escândalo de corrupção de alcance global que prendeu alguns dos principais executivos do conglomerado e dificulta a empresa de conquistar novos projetos, informou na terça-feira que não havia enviado os recursos para pagar os R$ 500 milhões (US$ 143 milhões) em títulos offshore que venciam em 25 de abril. A Odebrecht, antes a maior construtora da América Latina, está com dificuldades para conseguir mais crédito bancário depois que os negócios foram praticamente paralisados pela Operação Lava Jato, que investigou o pagamento de propinas em troca de contratos com a Petrobras.

Vendas de ativos

A construtora não tem recebido muita ajuda da holding Odebrecht SA. Pelo contrário: a empresa controladora do conglomerado, que tem negócios em setores como petróleo e construção, ainda não pagou um empréstimo de US$ 400 milhões com a construtora porque seu programa de venda de ativos não saiu como o planejado. A tão aguardada venda da participação da Odebrecht na fabricante de produtos petroquímicos Braskem está paralisada há meses. O grupo conta também com o dinheiro da venda em setembro do projeto hidrelétrico de Chaglla, no Peru, para a China Three Gorges por US$ 1,4 bilhão. A empresa ainda não recebeu os recursos porque espera autorização do governo peruano.

A dívida total do conglomerado é de R$ 76,1 bilhões, segundo a empresa.

A S&P Global Ratings rebaixou a nota de crédito da construtora para CCC em fevereiro, citando a "dívida muito elevada e uma carga de juros considerável". Na época, a agência de classificação afirmou que os lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização estimados do braço de construção da Odebrecht deveriam ser de US$ 300 milhões a US$ 350 milhões em 2018 -- menos do que a empresa provavelmente teria que pagar entre multas, juros e vencimentos de dívida.

"Na nossa opinião, é improvável que ocorra uma recuperação significativa das encomendas de trabalhos a curto prazo", escreveram os analistas da S&P. "Acreditamos que os incentivos para a reestruturação da dívida -- com a consequente redução da elevada carga de juros -- serão grandes nos próximos 12 meses."

Negociações com bancos

O Banco Bradesco e o Itaú Unibanco Holding negociam com a holding um empréstimo de R$ 2,5 bilhões, mas querem preferência para pagamento sobre os demais empréstimos, disseram pessoas informadas sobre as negociações no início da semana. Para que isso aconteça, outros credores, como o Banco do Brasil e o BNDES, precisariam renunciar a suas prioridades, disseram as pessoas, acrescentando que as discussões com a empresa continuam.

Na terça-feira, a empresa informou em comunicado por e-mail que as negociações para um acordo para respaldar a construtora estão "em estágio avançado". Uma vez concluída, a transação permitirá "honrar nossas obrigações de pagamento atuais das notas sem garantia com vencimento em 2018 e 2025 antes do fim do período de carência aplicável de 30 dias".

Caso a empresa deixe de pagar e seja declarada inadimplente, um grupo de detentores de títulos com mais de 25 por cento da dívida garantida pela construtora poderia pedir o pagamento antecipado da totalidade da dívida pendente, segundo uma pessoa envolvida nas negociações.