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Regra de visto da Dinamarca atrapalha profissionais estrangeiros

Nick Rigillo e Peter Levring

28/05/2018 13h24

(Bloomberg) -- Aghiad Ghazal, pesquisador em nanotecnologia da Universidade Técnica da Dinamarca, estava ansioso com a visita de seus pais, que viajariam de Damasco para conhecer o primeiro neto.

Mas quando a embaixada dinamarquesa em Beirute rejeitou o pedido, Ghazal começou a se perguntar se ele deveria abandonar o emprego e ir embora da Dinamarca. A embaixada afirmou que não havia motivo urgente para uma visita dos pais dele e citou o temor de que, se viessem, nunca mais deixariam o país.

O homem de 34 anos, que é cidadão dinamarquês, diz que ficou "decepcionado e surpreso. Isso me fez pensar em mudar para um lugar mais acolhedor".

A ironia é que a Dinamarca enfrenta um dos piores déficits de mão de obra já registrados e precisa desesperadamente de trabalhadores qualificados, especialmente daqueles com experiência em tecnologia. Mas uma série de episódios imigratórios embaraçosos, que incomodaram profissionais altamente qualificados, agora pode fazer com que alguns especialistas pensem duas vezes antes de planejar um futuro na Dinamarca.

Com a geração de emprego em alta histórica e desemprego de apenas 3 por cento, as empresas da Dinamarca vêm reclamando da falta de trabalhadores. Microsoft, Oracle e Netcompany, uma consultoria de TI local, são apenas algumas das firmas de tecnologia que pedem mudanças na abordagem da Dinamarca à imigração.

Trabalhadores necessários

A gigante farmacêutica Novo Nordisk afirma que baixar a ponte levadiça é fundamental para administrar uma empresa multinacional. Os economistas dizem que os trabalhadores imigrantes ocuparam 40 por cento dos novos empregos criados na Dinamarca nos últimos cinco anos, ajudando o país a evitar um gargalo que poderia ter provocado um superaquecimento.

Mas mais mão de obra estrangeira se faz necessária. Em janeiro, a Confederação da Indústria Dinamarquesa informou que a porcentagem de fabricantes que relatam limites de produção provocados pela falta de trabalhadores qualificados subiu para 9 por cento, contra 6 por cento no ano anterior. Na semana passada, o grupo emitiu um novo alerta.

"A competição para atrair trabalhadores estrangeiros talentosos está ficando cada vez mais acirrada e não podemos dar como certo que conseguiremos continuar trazendo empregados do exterior", disse o CEO da confederação, Karsten Dybvad, em comunicado.

Segundo o economista-chefe da Nykredit, Tore Stramer, a escassez de mão de obra é parte do motivo pelo qual a Dinamarca tem registrado uma desaceleração no crescimento econômico trimestral.

Economia vulnerável

"Estamos vulneráveis", disse Stramer, em entrevista, em Copenhague. "A oferta de mão de obra pode ficar abaixo da demanda de uma hora para a outra, e isso provocaria superaquecimento."

O governo afirma que já tomou medidas para ampliar a força de trabalho, como a elevação da idade de aposentadoria. Mas o primeiro-ministro Lars Lokke Rasmussen admite que é preciso fazer mais e pediu "mais coragem política" em reunião recente da Câmara de Comércio.

Como uma visita a Damasco está fora de cogitação (o Ministério das Relações Exteriores "aconselha veementemente" os dinamarqueses a não viajarem para a Síria), Ghazal e sua parceira dinamarquesa, Sheila Kristensen, que está no final da gravidez, se perguntam o que devem fazer agora.

"É a primeira vez que me sinto discriminado na Dinamarca", disse Ghazal.

Repórteres da matéria original: Nick Rigillo em Copenhague, nrigillo@bloomberg.net;Peter Levring em Copenhague, plevring1@bloomberg.net