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Maior risco para Ciro é o PT e não temperamento, diz Eurasia

Marisa Castellani e Josue Leonel

22/06/2018 07h00

(Bloomberg) -- O pré candidato Ciro Gomes (PDT) é quem mais deve sofrer com ascensão do PT na corrida eleitoral, o que deve acontecer tão logo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cuja candidatura deve ser negada pelo TSE por causa de sua condenação em segunda instância, indique um nome para substituí-lo na disputa presidencial, disse Christopher Garman, diretor executivo para Américas da Eurasia.

"Quando ficar claro quem é o candidato de Lula, o nome do escolhido sobe de 2% para 2 dígitos", disse Garman, em entrevista no escritório da Bloomberg em São Paulo, nesta quarta-feira, 20. Para ele, a candidatura do PT tem chances iguais ou maiores do que a de Ciro Gomes de chegar ao 2º turno.

Essa é a maior fragilidade de Ciro, não o seu temperamento considerado difícil e sua língua solta, que aumenta sua coleção de desafetos e dificulta articulações. Na eleição atual, os destemperos de Ciro talvez não sejam um passivo tão grande quanto em 2002, porque transmitem autenticidade ao eleitor, disse o diretor da Eurasia.

O pré candidato no extremo à direita do espectro político, Jair Bolsonaro (PSL), tem uma "chance razoável e boa" de ir ao 2º turno, porque consegue impor uma imagem anti-establishment, tem apelo no eleitorado que demanda pulso firme e segurança e, no contexto de descrédito nas instituições, "tem um valor que não se deve subestimar, que é autencidade".

Quanto ao pré candidato do PSDB, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, seu desafio é chegar ao 2º turno, já que suas chances para isso estão abaixo de 50%, segundo estimativa da Eurasia. Se chegar lá, contudo, tem boa probabilidade de vencer as eleições.

Para melhorar, Alckmin precisaria desconstruir as candidaturas de Bolsonaro - que está "comendo" a base tucana em São Paulo - e de Álvaro Dias, do Podemos, que pontua bem no Sul em eleitorado que tem votado no PSDB em eleições passadas. Além disso, Alckmin precisa apostar que a esquerda tenha o voto igualmente distribuído entre os candidatos, sem focar em um único nome, que se tornaria muito forte.

As eleições deste ano no Brasil têm uma analogia no pleito da França, onde Emmanuel Macron saiu vencedor. Até isso acontecer, era difícil prever quem chegaria ao segundo turno, porque as diferenças entre os candidatos eram de poucos pontos percentuais. No Brasil, basta um candidato ter de 15% a 20% no primeiro turno para ter chance de ir ao segundo. E de quatro a seis candidatos têm chances de chegar à final, segundo Eurasia.

Chances de vitória e reformas

A Eurasia separa os principais pré candidatos no Brasil em três grupos, os "reformistas", os "quase reformistas" e os "antirreformistas", relacionando-os da maior à menor capacidade de entregar a aprovação de reformas estruturais, principalmente a da Previdência.

As chances dos quase-reformistas, como Jair Bolsonaro, Marina Silva e Álvaro Dias, subiram de 40% para 45% do início do ano até agora, segundo estimativas da Eurasia; as dos reformistas, como Alckmin, Rodrigo Maia e Henrique Meirelles, caíram de 40% para 25%; as dos antirreformistas, como Ciro Gomes e um candidato do PT, subiram de 20% para 30%.

Ainda que faça essa separação, Eurasia tem "convicção de que vai haver alguma reforma", qualquer que seja o candidato eleito. Para Garman, a pergunta correta não é se o Brasil terá reformas ou não, mas sim a consistência das mudanças e se elas não vão demorar demais, fazendo com que as fragilidades se ampliem excessivamente. "O desafio fiscal é tão grande que o que está em jogo é a qualidade do ajuste e o custo que pagaremos até se chegar a essa reforma."

Alianças improváveis

Para Garman, "parece improvável alguma aliança que possa mudar o jogo na disputa eleitoral". Algumas poderiam ajudar certos candidatos, mas apenas na margem.

Na lista das alianças improváveis, ele cita Ciro Gomes e PT, Geraldo Alckmin e Álvaro Dias, Marina Silva e Dias, Marina e Ciro. Se Alckmin se coligar com o Democratas ou MDB, caso esses partidos desistam de suas candidaturas próprias, poderia ser ajudado na margem, mas a desvantagem é associar-se ao governo de Michel Temer e seu recorde de impopularidade. Ciro teria mais chances de coligar-se com PP do que com Democratas.

O que quer o eleitor

Na visão da Eurasia, nos últimos três meses o desencanto do eleitor se aprofundou, ao mesmo tempo em que a visão favorável a um candidato anti-establishment foi ampliada. "A greve dos caminhoneiros deixou esse desencanto a nu", tendo sido apoiada pela população mesmo causando desabastecimento. Ao mesmo tempo, o ritmo da recuperação econômica está lento.

"A macroeconomia pode estar melhorando na margem, mas o que preocupa mais a classe C - saúde, educação e segurança - está piorando", disse. Essa nova classe média teve uma "ascensão brutal", tem novas demandas e está associando a não entrega desses serviços à corrupção.

A candidatura Bolsonaro tem sido favorecida pelo perfil que o ex-capitão procura cristalizar de anti-establishment. Mas Lula, embora esteja preso por denúncias de corrupção, também se beneficia O pensamento desse eleitor é de que "se todos os políticos são corruptos, pelo menos minha vida melhorou com Lula", disse Garman.