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Acúmulo de cadáveres expõe desafio enfrentado por Porto Rico

Yalixa Rivera e Jonathan Levin

28/06/2018 14h43

(Bloomberg) -- Um indicador macabro da dificuldade de reconstruir Porto Rico pode ser encontrado nos trailers refrigerados que ficam atrás de uma barreira improvisada em um estacionamento de San Juan.

Dentro, segundo parlamentares e funcionários do departamento de ciências forenses, há cadáveres de várias dezenas de pessoas que pereceram nos tumultuados meses após a passagem do furacão Maria, em setembro. O acúmulo é tão grande -- 297 em meados de junho -- que a agência recorreu a um armazenamento suplementar fora de sua sede.

A mórbida pendência expõe as amplas falhas operacionais geradas durante anos devido à deterioração das finanças de Porto Rico e à burocracia cada vez mais letárgica. Sessenta e quatro cadáveres são vítimas do Maria; outros foram assassinados em uma onda de criminalidade subsequente. Mas grande parte do aumento de 52 por cento no número de corpos, em comparação com os níveis anteriores à tempestade, se deve ao que acontece -- ou ao que não acontece -- quando os cadáveres chegam às instalações.

Os funcionários afirmam que o departamento está mal equipado e tem poucos funcionários devido aos baixos salários e à migração, que fez a população da ilha encolher em cerca de 300.000 habitantes em cinco anos, para 3,3 milhões, antes mesmo da passagem do furacão Maria. Trinta funcionários pediram demissão no período de um ano encerrado em 30 de junho, deixando uma equipe de 240 funcionários, segundo Mónica Menéndez, subcomissária responsável pelo departamento. Muitos foram atrás de empregos nos EUA, que, segundo Menéndez, podem pagar o dobro e ser ainda mais rentáveis com certificações especiais e uma experiência maior.

"Os funcionários do departamento vivem em agonia", disse Annette González, presidente do sindicato que os representa.

A operação caótica expõe os desafios do governador Ricardo Rossello em um momento em que o estado livre associado dos EUA tenta simultaneamente pagar credores e pensionistas, a quem deve US$ 120 bilhões, consertar sua infraestrutura e reconstruir um governo limitado por décadas de corrupção e ineficiência.

Dezenas de corpos estão abandonados porque os parentes simplesmente não os buscaram, em muitos casos por dificuldades financeiras e receio de não conseguirem pagar o enterro de seus entes queridos, segundo Karixia Ortiz, porta-voz do Instituto de Ciências Forenses.

Nesta semana, Rossello jogou a culpa em um vilão familiar: um conselho de supervisão federal instalado pelo Congresso dos EUA por meio de uma lei que deu a Porto Rico acesso a uma forma de proteção contra a falência. O conselho vem pressionando pela redução dos gastos e, em teoria, torna o estado livre associado mais atraente para os negócios. O Instituto de Ciências Forenses provavelmente terá uma redução de até US$ 2 milhões no orçamento de cerca de US$ 17 milhões no próximo ano fiscal.

"Se deixarmos uma entidade tão importante quanto o Instituto de Ciências Forenses inoperante, será um desserviço para o povo de Porto Rico", disse Rossello a jornalistas em San Juan.

Se os cortes se confirmarem, disse González, a presidente do sindicato, será a gota d'água.

"Seria fatal para o departamento", disse ela.

Repórteres da matéria original: Yalixa Rivera em San Juan, yrivera14@bloomberg.net;Jonathan Levin em San Juan, Puerto Rico, jlevin20@bloomberg.net

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