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Como a guerra comercial de Trump pode afetar o comércio agrícola

Isis Almeida, Megan Durisin e Marvin G. Perez

(Bloomberg) -- O presidente dos EUA, Donald Trump, pode estar prestes a mudar o panorama do comércio global de commodities (matérias-primas com cotação internacional) agrícolas dos próximos anos.

A briga comercial que ele está comprando com países como a China e o México já sacudiu os mercados de alimentos e ganhará ainda mais peso se ele aplicar tarifas a US$ 34 bilhões em produtos chineses na sexta-feira (6), como o planejado --medida que o país asiático prometeu retaliar.

Os EUA são uma importante engrenagem do comércio agrícola global e cerca de dois terços de suas exportações agrícolas têm como destino países envolvidos em disputas ou negociações comerciais, segundo o banco de financiamento agrícola CoBank.

O México e a União Europeia já impuseram algumas barreiras comerciais aos produtos americanos e os carregamentos de soja dos EUA antes destinados à China têm sido redirecionados.

Os mercados americanos provavelmente serão os mais atingidos por uma possível guerra comercial e os fluxos de todo tipo de produto, seja carne de porco, algodão ou grãos, podem ganhar novos destinos pelo mundo.

"Estamos comprando briga com nossos parceiros comerciais sendo que eles têm outras opções", disse Tanner Ehmke, gerente e economista do CoBank, que tem sede em Greenwood Village, no Colorado, nos EUA. "Isso não traz nada de bom para nós."

Veja a seguir o que pode mudar em alguns dos mercados mais afetados:

Soja

A oleaginosa, usada para produzir óleo de cozinha e ração animal, responde por cerca de 60% dos US$ 20 bilhões em exportações agrícolas dos EUA para a China. Se a China retaliar com tarifas de 25%, os embarques americanos podem sofrer uma queda de US$ 4,5 bilhões, segundo estudo da Universidade do Tennessee.

O Brasil é quem mais deve ganhar com isso ao preencher o vazio deixado pelos EUA. O maior exportador do mundo já está sentindo os benefícios com a duplicação do prêmio obtido pelo produto brasileiro em relação aos contratos futuros em Chicago.

Ainda assim, a demanda anual da China, de quase 100 milhões de toneladas, é tão grande que o Rabobank International prevê que o país continuará comprando até 15 milhões de toneladas dos EUA.

Carne suína

A China, maior produtora e consumidora de carne suína do mundo, depende muito do farelo de soja para alimentar animais. Os preços mais altos da soja elevarão os custos para a indústria chinesa de carne suína, afirmaram a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e a ONU (Organização das Nações Unidas) nesta semana.

Isso poderia ajudar a provocar aumentos "notáveis" nos preços domésticos da carne suína e estimular a China a recorrer a ofertas da UE, do Canadá e do Brasil.

Grãos para ração

Uma disputa entre os EUA e a China pelo sorgo, no início do ano, já havia interrompido o comércio. A China recebeu 80%, ou quase US$ 1 bilhão, das exportações dos EUA no ano passado. A briga pode levar a China a consumir seus estoques de milho e aumentar as importações de outros grãos para ração, notadamente a cevada, segundo a OCDE e a ONU.

Algodão

A perda do mercado chinês geraria grande impacto nos agricultores americanos, já que mais de US$ 900 milhões da fibra foram para o país asiático no ano passado.

Um país que poderia preencher a lacuna na oferta para a China é a Índia, onde a rúpia mais fraca está tornando o algodão mais atraente. A Austrália e o Brasil também oferecem qualidades de algodão semelhantes e podem ajudar a enfrentar a iminente escassez de fibras de alta qualidade.

Lácteos

Os EUA respondem por 55% dos embarques de soro de leite para a China, que depende quase inteiramente das compras do exterior, o que significa que nenhum outro país é capaz de fornecer uma quantidade suficiente, segundo o Rabobank. As tarifas sobrecarregarão os produtores dos EUA e o setor de ração animal da China, o maior usuário de soro de leite importado.

(Com a colaboração de Justina Vasquez)

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