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Papel exótico aproveita desaceleração de gigantes de tecnologia

Yakob Peterseil e Luke Kawa

18/07/2018 13h05

(Bloomberg) -- Para quem teme o fim da bonança para ações de tecnologia após o tombo da Netflix, Wall Street acena com uma novidade: apostas nas empresas da sigla FANG em formato de notas estruturadas.

Os detentores desses instrumentos -- títulos complexos atrelados ao desempenho de Facebook, Amazon.com, Netflix e Google (via controladora Alphabet) - geralmente abrem mão do potencial estratosférico de valorização. Em troca, podem suportar até que o valor das ações do grupo caia pela metade, embolsando cupom com taxa de dois dígitos e, eventualmente, o principal.

A popularidade desses produtos está aumentando. Bancos de investimento venderam quase US$ 60 milhões em notas atreladas às FANG neste ano, contra US$ 45 milhões no mesmo período de 2017, de acordo com dados compilados pela Bloomberg.

"O ciclo já está adiantado, especialmente para essas ações", disse Guillaume Chatain, presidente da plataforma de notas estruturadas ResonanceX. "Tem gente que quer exposição, mas duvida que esses papéis voltarão a subir 80 a 100 por cento. A esperança é que esses papéis sigam juntos e continuem se movendo em sincronia."

O quarteto é responsável por mais da metade do ganho do Nasdaq 100 neste ano. Posições compradas nessas ações ? e nos papeis de Baidu, Alibaba e Tencent ? são as mais concentradas do mercado acionário, segundo sondagem do Bank of America Merrill Lynch junto a gestores de fundos realizada neste mês.

O mercado de opções sinaliza preocupação com o avanço das ações do setor de tecnologia neste ano e os investidores se mostram dispostos a punir quem decepciona. As ações da Netflix chegaram a desabar 15 por cento na segunda-feira, após o serviço de streaming de vídeo divulgar número abaixo do esperado de novos usuários.

Risco extremo

O Royal Bank of Canada vendeu notas atreladas às FANG em 27 de junho. Os instrumentos têm prazo de três anos e pagam cupom anual de 10,2 por cento contanto que nenhuma das ações subjacentes caia mais de 50 por cento a partir do nível inicial definido em datas trimestrais de observação. No vencimento, se o produto não tiver sido resgatado, os detentores recuperam o principal, contanto que nenhuma das ações tenha perdido mais da metade do valor.

As notas são efetivamente uma estratégia de derivativo exótico que envolve vender opções de venda com barreiras ? operação geralmente restrita a investidores sofisticados. Os detentores enfrentam riscos de resgate e contraparte, pouca liquidez e abrem mão do direito sobre dividendos. Em troca, podem obter cupom de até 17 por cento, no caso das notas vendidas pelo Credit Suisse Group em abril, com proteção contra queda de 40 por cento na ação de qualquer uma dessas empresas. Se a variação for maior, os detentores podem perder o principal todo.

Presidente da Family Management, David Schawel não é fã de produtos estruturados atrelados às FANG. No entendimento dele, os detentores das notas estão basicamente "vendendo volatilidade muito barata".

"O problema não é que eles definitivamente vão perder dinheiro, mas estarem vendendo por pouco uma opção atrelada a um risco extremo", ele disse.

Os compradores dos papéis também enfrentam risco de correlação. Embora os produtos ofereçam proteção contra queda, eles também apostam que as ações continuarão se movimentando juntas, lembra Chatain, da ResonanceX.

"É um produto interessante, mas é preciso entender onde está o risco."

Repórteres da matéria original: Yakob Peterseil em Londres, ypeterseil@bloomberg.net;Luke Kawa em Nova York, lkawa@bloomberg.net