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Esperança de recuperação econômica da Argentina está morrendo

Patrick Gillespie

24/08/2018 13h26

(Bloomberg) -- Ariel Lechenao está desiludido. Ele votou no presidente argentino Mauricio Macri em 2015 porque estava cansado da economia estagnada dirigida pela presidente anterior e acreditou nas promessas de uma vida melhor.

Inicialmente, as medidas de Macri para desfazer políticas populistas, impulsionar o crescimento e conter a inflação compensaram. Mas, apenas dois anos depois, a situação parece estar piorando para muitos argentinos: o país está à beira da recessão, o peso entrou em colapso e os preços ao consumidor estão subindo mais de 30 por cento ao ano.

"Resolvi votar em Macri porque achei que ele realmente mudaria as coisas para melhor", disse Lechenao, de 41 anos, que é motorista de táxi, tem dois filhos e está divorciado. "Eu acreditei em um monte de coisas - sou idiota, né?"

Mais de um terço dos argentinos afirma que o péssimo estado da economia é sua maior preocupação, seguido pela corrupção, apontada por 14 por cento, de acordo com uma pesquisa recente da consultoria Isonomia. A desilusão fez com que o índice de aprovação do presidente caísse em mais de um terço desde que ele assumiu o cargo. A confiança do consumidor caiu de 54 por cento para 36 por cento no mesmo período. E dados divulgados na quinta-feira mostraram que a atividade econômica de junho se contraiu 6,7 por cento em relação ao ano anterior, o pior desempenho em nove anos.

Resta saber se o declínio da popularidade de Macri e um Congresso menos cooperativo vão abalar sua capacidade de colocar a economia de volta nos trilhos e implementar as medidas adicionais de austeridade estabelecidas com o Fundo Monetário Internacional em troca de uma linha de crédito recorde de US$ 50 bilhões.

"Macri está em uma situação difícil, porque sua principal mensagem para o eleitorado era aperto no curto prazo para obter ganhos a longo prazo", disse Thomaz Favaro, diretor da consultoria Control Risks. "Até agora, os argentinos só sentiram o aperto."

Aumento da pobreza

Macri admitiu que a crise vai acabar com alguns dos recentes progressos da Argentina na redução da pobreza - uma de suas principais promessas de campanha. Os salários estão crescendo mais lentamente, e o desemprego está aumentando e se aproxima dos dois dígitos.

As perspectivas de crescimento têm diminuído. Economistas que no início do ano previam que a economia iria crescer 3 por cento em 2018 agora estimam uma contração de 0,3 por cento neste ano. Parada acima de 30 por cento, a inflação continua sendo a maior fonte de sofrimento, mesmo depois de o banco central aumentar as taxas de juros para 45 por cento, o nível mais alto entre os países do G-20.

O aumento de preço das contas de gás, luz e água se tornou uma realidade cotidiana para milhões de argentinos. Lechenao, o motorista de táxi, viveu a vida toda em um bairro de classe média de Buenos Aires, mas agora está perto da linha oficial da pobreza. Ele nem consegue se dar ao luxo de levar os filhos, fanáticos por futebol, para ver seu time favorito jogar.

"Minha qualidade de vida continua piorando com esse governo", disse ele.

O governo afirma que a economia permanecerá estável neste ano e iniciará uma recuperação modesta em 2019. Mas essa previsão "parece um pouco otimista demais", alertou Daniel Kerner, diretor administrativo para a América Latina do Eurasia Group. "A maioria das pessoas está duvidando muito do rumo da economia."