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Mercado imobiliário mais caro do mundo impulsiona ilegalidade

Lam Yik Fei/The New York Times
Imagem: Lam Yik Fei/The New York Times

Shawna Kwan

27/08/2018 14h41

(Bloomberg) -- Os preços estratosféricos dos imóveis de Hong Kong estão empurrando alguns habitantes para a ilegalidade.

Um número pequeno, mas significativo, de jovens está morando em prédios industriais, trocando conforto e comodidade por aluguel barato. Além de problemas como água contaminada por ferrugem e apagões intermitentes, há uma desvantagem muito grande: essas condições de moradia são ilegais.

Esse é um risco que o fotógrafo Wah Lee, de 32 anos, está disposto a correr. Embora compartilhe o prédio que fica perto do hipódromo de Sha Tin com uma unidade chinesa de armazenamento de óleo de ervas e com uma cozinha comercial que vende carne assada, ele e seu colega de quarto pagam cerca de 11.000 dólares de Hong Kong (US$ 1.400) por mês de aluguel, menos da metade do preço de uma unidade residencial na região.

Com uma pequena cozinha e um banheiro privado, o apartamento de quase 93 metros quadrados tem pé direito alto e janelas grandes, algo pouco comum para os padrões de Hong Kong, onde os apartamentos costumam ser apertados.

"Os aluguéis hoje em dia são irracionais", disse Lee. "Não tenho como pagar essas unidades residenciais". Outra vantagem: ele pode guardar seu equipamento fotográfico e tirar fotos em casa porque o espaço é grande.

Essa versão do chique industrial é só mais uma maneira que os moradores de Hong Kong encontraram para encarar o mercado residencial mais caro do mundo, onde uma residência média custa 19,4 vezes a renda média anual da cidade, de acordo com a Demographia. Os preços altíssimos deram origem a microapartamentos e a espaços de "moradia compartilhada", estilo dormitório. A demanda por unidades menores do que duas vagas de estacionamento disparou neste ano à medida que os custos continuam sua escalada implacável.

O governo analisou 18 opções para aumentar a oferta de terrenos na tentativa de controlar os preços de moradia e evitar um mal-estar social, mas permitir que pessoas morem legalmente em edifícios industriais não está na lista. As propostas vão desde recuperar mais terrenos perto do Porto de Victoria até construir casas sobre um terminal de contêineres.

"Os edifícios industriais não foram projetados para serem habitados", disse Chau Kwong Wing, professor de Imóveis e Construção na Universidade de Hong Kong e membro do grupo de trabalho sobre fornecimento de terrenos, em entrevista. "Isso envolve problemas de segurança."

Esses riscos ficaram em evidência quando um incêndio atingiu uma unidade em um prédio industrial nos Novos Territórios em agosto do ano passado, matando três pessoas. O apartamento era uma das 17 unidades subdivididas no andar.

Estima-se que 12 mil pessoas moravam em edifícios industriais em 2016, de acordo com a Society for Community Organization, um grupo de defesa de direitos. A organização não atualizou sua estimativa nos últimos anos, mas calcula que esse número diminuiu devido à intensificação das inspeções governamentais, de acordo com Angela Lui, uma organizadora comunitária do grupo.

Atualmente, se algum edifício industrial é descoberto alugado para fins residenciais, proprietários e inquilinos são obrigados a deixar de usá-los para esse fim. Mesmo assim, o governo propôs no ano passado a introdução de sanções penais. A proposta, se concluída, pode ser apresentada para aprovação já no próximo período legislativo, que começa em outubro.