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Venezuelanos encurralados improvisam vida nova no Brasil

Samy Adghirni

28/08/2018 15h06

(Bloomberg) -- Há algumas semanas, Edilson Barros foi acordado pelo filho de 14 anos. O menino lhe disse que havia gente morando no quintal. Uma família de uma dúzia de venezuelanos acampava atrás da casa, na cidade de Pacaraima (Roraima), na fronteira com a Venezuela.

Belquis Torres e sua família tinham uma barraca, um varal, várias malas e algumas cadeiras de plástico. A venezuelana, vestindo uma saia e uma blusa inusitadamente arrumadas, passa boa parte de seus dias com seus parentes em uma espécie de sala de estar ao ar livre, a poucos metros da demarcação fronteiriça. Barros leva água para eles de vez em quando. O técnico de refrigeração de 50 anos, que divide dois quartos com a esposa e sete filhos, diz não cobrar aluguel dos venezuelanos porque "eles não têm onde ir". Mas receia que fiquem tempo demais e tragam problemas.

Por vários países da América do Sul, uma enxurrada de venezuelanos desesperados pressiona os serviços públicos, a hospitalidade local e a vontade política para acomodá-los. A coexistência improvisada das famílias Barros e Torres ilustra o quanto a situação está piorando no norte do Brasil, onde os pobres estão convivendo com a chegada de pessoas ainda mais pobres. Após deixar para trás a fome e a híperinflação, e tendo pela frente centenas de quilômetros de estradas desconhecidas e uma recepção cada vez mais hostil, uma comunidade está fincando base em Pacaraima.

"Se houver novos ataques contra nós, posso correr duzentos metros e atravessar a fronteira de volta à Venezuela. Mas me sentiria muito mais vulnerável em Boa Vista ou outra cidade longe da fronteira", diz Alfredo Rodriguez, um vigilante desempregado que se protegia do sol na sombra de um ônibus sucateado perto do posto fronteiriço.

Em comparação com os venezuelanos que fogem para a Colômbia, o Peru ou o Equador, muitos dos que chegam ao Brasil têm ainda menos conexões e recursos. Grande parte vêm de comunidades indígenas e rurais pobres, mal falam português e moram em barracas ou nas ruas. Os mais afortunados alugam quartos precários, mas nenhum refúgio é duradouro. Em 18 de agosto, uma revolta estremeceu Pacaraima após um comerciante local ser roubado e espancado num ataque que ele atribuiu a venezuelanos. Moradores da cidade caçaram refugiados e queimaram seus escassos pertences nas ruas, o que levou centenas deles a fugir, inclusive a família Torres. Muitos voltaram após dias de protestos.

"Voltamos porque na Venezuela não tem emprego nem comida, e o dinheiro não compra nada", disse Torres, de 40 anos, que já trabalhou como cozinheira, babá e empregada doméstica. "Vim para o Brasil para tentar conseguir um emprego. Meu plano continua sendo encontrar um emprego, qualquer emprego. Nós não viemos para invadir ninguém."

Economia

Pacaraima tem cerca de 12.000 habitantes, segundo o IBGE. No entanto, desde 2015 mais de 70.000 refugiados chegaram ao estado de Roraima, representando quase 15 por cento da população, segundo dados do governo estadual. Existem apenas 10 abrigos que acomodam cerca de 4.800 pessoas, de acordo com Ana Seabra, porta-voz da Operação Acolhida, criada em março pelo governo federal para responder ao fluxo de refugiados.

Em Pacaraima, há um posto de fronteira oficial, pelo qual transitam em média 700 venezuelanos todos os dias. Mas a demarcação entre os dois países é uma simples fileira de estacas de concreto espalhadas por um descampado de grama e mato. Depois de entrar no Brasil, os refugiados costumavam se dirigir ao sul, para Boa Vista ou outras cidades maiores. Agora, muitos ficam em Pacaraima.

Embora a economia local dependa há tempos do fluxo de venezuelanos, moradores de Pacaraima dizem que o tráfico de drogas e a prostituição estão aumentando por causa dos novos moradores. Crimes envolvendo venezuelanos em Roraima cresceram 173 por cento de 2016 a 2017, segundo o governo de Roraima.

Abrigos

Os abrigos erguidos no Brasil têm relativamente poucos refugiados, mas alguns políticos se opõem a eles. O prefeito de Pacaraima, Juliano Torquato, disse que a estrutura e a assistência oferecidas pela Operação Acolhida acabam incentivando mais venezuelanos a virem. "A situação está piorando a cada dia e ninguém está realmente nos ajudando", disse ele.

Mas Torquato e empresários locais dizem que fechar a fronteira devastaria a economia. Quase 70 por cento dos consumidores de Pacaraima são venezuelanos, segundo João Kleber Soares Borges, diretor da Associação Comercial e Industrial de Pacaraima. "O que estamos pedindo é simplesmente mais controle sobre quem entra e mais apoio do governo federal", disse ele.

Enquanto os políticos tentam encontrar uma solução, resta aos venezuelanos, como Belquis Torres, imaginar por quanto tempo terão que sobreviver em lugares como o quintal de Edilson Barros. "Não tenho ideia de como será nosso futuro", disse ela. "Por enquanto, tudo o que peço é que [Barros] deixe a gente ficar."

--Com a colaboração de Gabriel Shinohara e Andrew Rosati.