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Herdeira gasta US$ 1 mi em guerra contra fraternidades nos EUA

John Hechinger

24/09/2018 15h10

(Bloomberg) -- É quase meia-noite quando Deborah Tipton se prepara para estudar as provas mais uma vez. Em sua enorme casa em Memphis, cenário de jantares elegantes e festas para captação de recursos, relatórios da polícia e anotações de investigadores particulares cobrem uma antiga mesa de jantar. Como se procurasse uma pista vinda além do túmulo, ela examina as páginas mais dolorosas, aquelas que contêm mensagens de texto de seu filho morto.

"Tomando um trote duro agora e precisando de Xanax. Nem dormi na noite passada e estava tremendo."

"Não posso confiar em ninguém no momento."

"O que eles poderiam fazer de tão ruim em duas horas? Eles só vão gritar com a gente e talvez nos obrigar a fazer exercícios ou a comer algo nojento. Eles não podem nos matar."

Tipton tem lutado para desvendar as últimas horas de vida de seu filho desde 26 de março de 2012, a segunda-feira de clima ameno em que os policiais lhe deram a notícia. Robert, 22, calouro da Universidade de High Point, na Carolina do Norte, havia falecido. As autoridades concluiriam posteriormente que a morte dele foi um acidente, causada por overdose de drogas, mais um exemplo de uma festa de fraternidade que saiu do controle. Caso encerrado.

Para a mãe dele, no entanto, o caso continua bem aberto. Sua peculiar tentativa de resolvê-lo pode colocar à prova o poder das fraternidades universitárias dos EUA, que vencem investigações do tipo há gerações. As fraternidades possuem US$ 3 bilhões em imóveis e abrigam cerca de 250.000 estudantes que se valem de uma rede sem igual de ex-alunos presidentes, parlamentares, executivos corporativos e investidores de Wall Street.

Diante de uma oposição assim, a maioria das pessoas poderia se intimidar. Não é o caso de Deborah Tipton. Herdeira de uma fortuna dos ramos de arroz e óleo de algodão, ela tem dinheiro e conexões para travar uma guerra eterna. Durante seis anos, ela investiu seus substanciais recursos para desvendar o enigma a respeito do que aconteceu naquele fim de semana na fraternidade de seu filho, a Delta Sigma Phi. O valor de US$ 1 milhão pago a investigadores e advogados -- até o momento -- não é uma barreira.

E Tipton afirma que encontrou muita coisa que a levou a questionar a versão oficial dessa história. Quatro anos após a morte de Robert, sua equipe colocou as mãos no arquivo policial completo. As fotos da autópsia mostraram que ele tinha fortes hematomas roxos no rosto, ao redor do pescoço, nas pernas e nas nádegas, além de um corte irregular na cabeça.

Uma investigadora da polícia fez anotações. "Contusões?", escreveu. "Como e de onde eles vieram? Falar com Frat Brothers." A detetive posteriormente reconheceu que nunca falou com eles. A Universidade de High Point havia insistido que apenas com intimação forneceria nomes, disse ela, mas o departamento de polícia nunca a enviou.

Tipton diz que a universidade está encobrindo a verdade, em parte porque o filho do presidente da Universidade de High Point, Nido Qubein, pertencia à fraternidade. Em sua opinião, a polícia não tem interesse em perseguir uma das instituições mais influentes da comunidade.

A universidade afirmou que "rejeita fortemente" as acusações de Deborah Tipton. A porta-voz Pam Haynes, que se recusou a disponibilizar Qubein ou outros funcionários para entrevistas, observa que um juiz removeu a universidade de um processo judicial de morte por negligência aberto pela família Tipton. O tribunal decidiu que, segundo a lei, a universidade e seus administradores não tinham o dever de proteger Tipton, uma decisão que foi mantida em recurso. "Continuamos tristes pela perda de Robert Tipton, cuja trágica morte em um complexo de apartamentos não afiliado à instituição e fora do campus, seis anos atrás, foi causada por uma overdose de drogas, segundo o examinador médico do estado", diz Haynes.

O juiz removeu também da ação a fraternidade nacional, que preferiu não fazer comentários para essa reportagem; os réus remanescentes são dois membros da fraternidade, que negam qualquer comportamento ilegal. Walt Jones, promotor distrital assistente de supervisão em High Point, diz que não há evidências de homicídio, nem qualquer motivo para reabrir o caso.

A mãe de Robert não se intimida. "Eles esperam que eu desapareça", diz ela. "Eu não vou desaparecer. Eles não deram apenas um trote no meu filho. Eles mataram meu filho."

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