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Prosperidade do mercado de tequila pode acabar em ressaca

Daniela Guzman, Deena Shanker e Riley Ray Griffin

11/10/2018 14h40

(Bloomberg) -- Parece que o mundo tem uma sede insaciável de tequila.

Uma planta de agave-azul, valiosa matéria-prima dessa bebida, demora cerca de sete anos para crescer. Quando amadurecem, os fabricantes de tequila precisam extrair a "piña", o núcleo, para poder esquentar, esmagar, fermentar, destilar e, por último, engarrafar e vender em um bar perto de você como ingrediente de um coquetel moderno.

Mas nos últimos dois anos, a volatilidade de preço do agave disparou, em parte, devido à alta demanda por tequila. De acordo com uma pesquisa do setor feita pela Taste Tequila, a planta pode chegar a custar 25 pesos (US$ 1,31) por quilo, contra 2 pesos (US$ 0,10) em 2012.

Em Jalisco, no México, reduto do cultivo de agave, os agricultores estão tendo dificuldade para acompanhar o ritmo. Como esses produtores estão colhendo prematuramente para tentar lucrar enquanto os preços estão altos, a qualidade começa a cair. Ao mesmo tempo, a disparada do valor do agave gerou preocupações com a segurança, porque as plantas se tornaram alvos valiosos de roubo. Isso pode gerar mais despesas para agricultores que já apostam em uma safra de preço imprevisível.

A tequila saiu das destilarias artesanais mexicanas e entrou nos bares urbanos no início dos anos 1990. De 1995 a 2005, a produção de tequila dobrou à medida que marcas multinacionais aderiram, gerando enormes lucros e dando renome a marcas como Patrón, José Cuervo e Don Julio.

Embora a popularidade da bebida tenha crescido em todo o mundo, os EUA continuam sendo os maiores consumidores de tequila, e o país importou mais de 171 milhões de litros em 2017. A Espanha, segundo maior mercado, importou cerca de 5 milhões naquele ano, segundo dados do Conselho Regulatório de Tequila.

No entanto, acompanhar a demanda global está ficando cada vez mais difícil: o ciclo de sete anos de crescimento do agave exige um investimento de longo prazo para quem quer destilar. E, embora algumas marcas obtenham o agave de fazendas próprias, outras compram de agricultores ou fazem as duas coisas - o que deixa grande parte do setor à mercê dos preços de mercado, que oscilam descontroladamente. Sem um fornecedor garantido ou contratos prévios, uma marca pode facilmente ficar em apuros se o custo do agave disparar.

"Os preços do agave expulsaram do mercado marcas que não têm produção ou destilaria próprias", disse Nicolas Palazzi, proprietário da importadora de bebidas PM Spirits, que registrou um crescimento de 220 por cento na receita no ano passado, com a tequila como peça-chave.

Assim como os destiladores se preocupam com a alta dos preços do agave, os agricultores que o produzem temem uma desaceleração imprevisível.

Apesar da prosperidade da bebida, os maiores responsáveis pela tequila estão lutando para sobreviver. Por causa do longo ciclo de crescimento do agave e da volatilidade dos preços, muitos pequenos agricultores não podem se dar ao luxo de continuar no ramo quando os preços caem. Em 2011, havia 3.075 produtores de agave, segundo dados do Comitê de Regulação de Tequila. Em 2017, havia apenas 1.946. Simultaneamente, a produção de tequila aumentou de 261 milhões de litros em 2011 para 271 milhões de litros em 2017.

"Os produtores de agave são uma espécie em extinção", disse Raúl García Quirarte, presidente do Comitê Nacional do Sistema Produto Agave Tequila, em uma entrevista durante a Exposição de Alimentos e Bebidas na Cidade do México, em agosto.

Enquanto alguns produtores de agave têm parcerias com empresas de tequila e estão lucrando muito no mercado atual, os produtores independentes são forçados a apostar, incorrendo em altas despesas sem saber se os preços estarão muito baixos quando seu agave amadurecer, disse García Quirarte. Muitos produtores decidiram abandonar o setor, em vez de arriscar-se à ruína financeira, disse ele.

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