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Desânimo toma conta de Wall Street apesar de lucro recorde

Max Abelson e Hannah Levitt

20/12/2018 15h54

(Bloomberg) -- Uma dupla de jazz tocava em um apartamento de Manhattan nesta semana enquanto Erika Karp, uma veterana de Wall Street, socializava com outras pessoas do mundo das finanças. Os grandes bancos estão encerrando um ano que deve ser o mais rentável de sua história, mas o clima na festa de Natal não estava animado. Às vezes, mergulhava no sarcasmo e na insatisfação.

Independentemente do que acontecer quando dezembro acabar, o JPMorgan Chase, o Goldman Sachs Group e os outros quatro pesos-pesados dos EUA ganharam tanto dinheiro nos primeiros três trimestres do ano que já superaram o total do ano passado. Impulsionados pelas reduções de impostos de Donald Trump, eles estão prestes a terminar o ano, pela primeira vez, com lucros de US$ 100 bilhões, superando o recorde de US$ 93 bilhões de 2016. Mas mesmo assim há pouco entusiasmo.

O que estraga o espírito natalino em Wall Street é a ansiedade com a deterioração dos mercados, a frustração com os péssimos preços das ações do próprio setor e o receio de que uma recessão finalmente chegue. Outra explicação para o ânimo moderado: os executivos do setor bancário são espertos o suficiente para não alardear lucros recorde apenas uma década depois de terem sido resgatados pelos contribuintes durante a crise financeira.

"Tem uma dose de realidade e uma dose de estratégia", disse Karp, que fundou a assessoria Cornerstone Capital Group após décadas em bancos internacionais, sobre a autodepreciação de Wall Street. Existem nervosismo e temores genuínos, disse ela, mas também há uma relutância generalizada em "mostrar que está tudo ótimo quando tem gente morrendo de fome".

Preocupação

JPMorgan, Morgan Stanley e Bank of America vão bater recordes de lucro neste ano, segundo estimativas compiladas pela Bloomberg. Goldman, Citigroup e Wells Fargo estão prestes a registrar o maior lucro desde pelo menos 2015. Tudo isso soma mais do que os bancos lucraram no auge da bolha, antes do crash, até mesmo adicionando os lucros dos rivais que, mais tarde, eles engoliram - Bear Stearns, Merrill Lynch, Washington Mutual, Wachovia e Countrywide.

Os executivos do setor bancário têm alguns motivos de preocupação reais. Analistas estão rebaixando as ações e diminuindo as projeções de lucros, e eles alertam que elas talvez não se recuperem no ano que vem. O Goldman atravessa seu pior escândalo em uma geração, graças a seu papel em uma transação criminosa na Malásia. As investigações sobre abusos contra consumidores cometidos pelo Wells Fargo ainda não acabaram, e o banco será investigado ainda mais rigorosamente quando os democratas assumirem o controle da Câmara dos Deputados dos EUA. O empurrão dado pelas reduções de impostos que Trump concedeu aos grandes bancos e corporações já está se dissipando. E o KBW Bank Index caiu quase 20 por cento em 2018.

A ostentação da riqueza de Wall Street está fora de moda agora, disse Karp.

"Você tem que dar a impressão de estar totalmente engajado", disse ela depois da festa no Upper West Side. "Como se você realmente desse a mínima para o que está acontecendo no resto do mundo."

--Com a colaboração de Michael J. Moore.

Repórteres da matéria original: Max Abelson em N York, mabelson@bloomberg.net;Hannah Levitt em N York, hlevitt@bloomberg.net