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Deserção é grande entre membros da Guarda Nacional da Venezuela

Andrew Rosati e Ethan Bronner

06/02/2019 14h30

(Bloomberg) -- Mesmo antes de o líder da Assembleia Nacional da Venezuela, apoiado pelos EUA, pedir que os militares abandonem o presidente Nicolás Maduro, o governo já tentava deter uma onda de deserções e havia ordenado que guardas da fronteira barrem os soldados que tentarem sair do país sem permissão.

Dois documentos ilustram a erosão das forças armadas. Um deles lista cerca de 4.300 oficiais da Guarda Nacional que desertaram desde 2014, informando patentes e números de série. Assinado pelo comandante da Guarda, o major-general Jesús López Vargas, a decisão de 21 de dezembro remove-os do corpo militar. Todos são oficiais não comissionados ou homens e mulheres alistados e representavam cerca de 6 por cento da Guarda.

O outro documento, datado de 13 de novembro, foi assinado por Luis Santiago Rodríguez González, diretor do serviço de migração do país. Ele ordena o pessoal nos pontos de entrada e saída a impedir que membros das forças armadas e aposentados na reserva viajem para o exterior sem autorização específica.

Membros atuais e antigos das forças militares, familiarizados com documentos oficiais, examinaram os documentos e disseram que são autênticos. Porta-vozes do Ministério da Defesa da Venezuela não responderam a pedidos de comentários sobre as deserções nem sobre as restrições às viagens de soldados.

As forças armadas são a instituição mais poderosa da Venezuela, e a luta por sua lealdade está em andamento desde a controversa eleição do ano passado. A autocracia socialista de Maduro cultivou chefes militares, concedendo-lhes altos cargos no governo e negócios lucrativos - legais e ilícitos. Nos últimos oito anos, cerca de 1.300 oficiais foram promovidos para o cargo de general ou almirante, segundo o grupo de vigilância Control Ciudadano. Os EUA afirmam que o regime de Maduro faz vista grossa para esquemas de lavagem de dinheiro, fraude, mineração ilegal e tráfico de drogas conduzidos por soldados e oficiais.

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Seu rival, o líder da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, prometeu anistia aos desertores, uma oferta que até agora só foi aceita publicamente por uma fração dos milhares de altos oficiais. Um general e um coronel abandonaram as forças militares nas últimas duas semanas. Mas os documentos revelam como a pobreza e a disfunção endêmicas estão minando as forças armadas da Venezuela.

As forças armadas da Venezuela têm quatro ramos: Exército, Marinha, Força Aérea e Guarda Nacional, que se encarrega de tarefas internas, como postos alfandegários e controle de multidões. Além disso, o falecido presidente Hugo Chávez criou uma milícia civil após ter sido brevemente deposto por um golpe militar fracassado em 2002. Chávez, um oficial do exército, colocou esse ramo no controle dos principais equipamentos e arsenais, e cercou-se de seus antigos camaradas.

As deserções refletem uma insatisfação crescente. Maduro trabalhou duro para isolar os altos escalões das dificuldades, e o governo tomou medidas contra algumas tropas dissidentes, que foram acusadas de conspiração. Segundo a Coalizão pelos Direitos Humanos e Democracia, um grupo jurídico de Caracas, 163 membros das forças armadas estão atrás das grades por motivos políticos.

"Há medo no quartel, porque o governo de Maduro vem ameaçando e atacando os militares", disse Guaidó em resposta a perguntas enviadas por e-mail. "Oficiais foram forçados a gravar vídeos jurando lealdade a Maduro. Todos aqueles que se recusaram a fazê-lo foram alvo de violência por parte de seus superiores. Esta é mais uma medida desesperada de um regime que sabe que perdeu."

--Com a colaboração de Alex Vasquez.

Repórteres da matéria original: Andrew Rosati em Caracas, arosati3@bloomberg.net;Ethan Bronner em N York, ebronner@bloomberg.net