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Mulheres brigam por espaço no mundo corporativo do México

Justin Villamil e Cyntia Barrera Diaz

08/03/2019 15h30

(Bloomberg) -- Quando Blanca Trevino conseguiu seu primeiro emprego, em uma empresa familiar no México, os novos chefes exigiram que ela assinasse uma carta de demissão em branco -- que seria usada caso ela decidisse se casar.

Posteriormente, eles renunciaram à cláusula de casamento porque ela se tornou importante demais, mas, àquela altura, ela já havia decidido seguir adiante com sua vida e abandonou o barco para criar uma nova empresa com suas próprias regras.

"Ainda vejo limitações sociais e familiares em relação ao que as mulheres podem fazer no México", disse Trevino, agora CEO da Softtek, uma empresa de serviços de TI que opera nas Américas, na Europa e na Ásia. "As mulheres não deveriam se sentir culpadas por dedicar tempo aos negócios."

Este refrão ganha cada vez mais corpo no México em um momento em que as mulheres lutam para garantir presença no mundo dos negócios e das finanças, dominado pelos homens. A única mulher em um cargo de CEO no índice Mexbol do país, Tania Ortiz Mena, da IEnova, diz que muitas vezes escuta a frase "você chegou aqui sozinha, senhorita?" ao entrar em uma reunião e lembra que recentemente foi a uma conferência sobre energia no México com cerca de 300 participantes. Apenas dois eram mulheres.

"Existe um preconceito inconsciente", disse. "O papel das mulheres não é visível, e os homens simplesmente acham isso natural -- não parece estranho para eles."

'Tocar o sino'

Claro que isso não impede a indústria de se congratular. Nesta sexta-feira, a maior bolsa de valores do país, a Bolsa Mexicana de Valores, vai "tocar o sino pela igualdade de gênero" em um evento em sua venerável sede em cúpula, no centro da Cidade do México. Mas não procure mulheres por lá. A bolsa conta com apenas uma mulher no conselho, formado por 16 membros, que é a própria Trevino. A BMV não respondeu a um pedido para comentar o assunto.

A questão não é destaque apenas na bolsa. A proporção de uma integrante por conselho é aproximadamente a média das 35 empresas que compõem o índice de ações de referência do país, o Mexbol. No total, 22 das empresas têm pelo menos uma mulher no conselho, mas as mulheres representam apenas 7,2 por cento do total de membros de conselho do índice.

Em comparação com os pares regionais, as maiores empresas do México têm mais probabilidades de contar com uma mulher no conselho. As empresas do Mexbol têm uma média de 0,9 mulher por diretoria, contra 0,8 no Ibovespa (Brasil) e 0,7 no Chile. A Colômbia lidera o grupo, com 1,2 por cento em média, segundo dados compilados pela Bloomberg.

Considerando as porcentagens, a Walmex está bem acima das demais, já que as mulheres representam 36 por cento de seu conselho. Das 35 empresas que compõem o índice, 12 não têm nenhuma mulher no conselho, incluindo a Becle, fabricante da popular marca de tequila Jose Cuervo, e a Gruma, produtora das tortilhas Mission. A Becle e a Gruma não responderam aos pedidos de comentários.

Repórteres da matéria original: Justin Villamil em Cidade do México, jvillamil18@bloomberg.net;Cyntia Barrera Diaz em Cidade do México, cbarrerad@bloomberg.net