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Em meio ao apagão, churrascarias de Caracas estão lotadas

Andrew Rosati

13/03/2019 13h10

(Bloomberg) -- A equipe da Maute Grill não parava de abrir as garrafas de vinho tinto chileno. O lugar estava lotado à noite, e as luzes estavam acesas, enquanto cada centímetro de Caracas sem um gerador estava no escuro.

A famosa churrascaria tem um, é claro. "Estamos atendendo a um tipo específico de clientela", disse Ramón Villarreal, um garçom que servia filé mignon e lombo de porco aos clientes da hora do almoço na terça-feira. "Mas tem havido uma enxurrada de gente."

O grande apagão - em seu quinto dia em algumas partes da Venezuela - abalou o fornecimento de água, paralisou refinarias, interrompeu o funcionamento do metrô de Caracas e criou mais uma linha divisória entre ricos e pobres em uma economia devastada. Quem pode pagar tem passado o tempo em restaurantes e bares com energia elétrica ou reservou quartos em hotéis com abastecimento próprio. Boa parte do restante das pessoas continua colocando seus filhos para dormir à luz de velas.

A eletricidade começou a voltar aos trancos e barrancos, e as pessoas correm para poder carregar telefones celulares e fazer um balanço dos alimentos que apodreceram. Mas o forncecimento de água, intermitente até nos bons tempos, continua inexistente em grande parte da capital, talvez porque as estações de bombeamento que abastecem os reservatórios da área não tenham sido reativadas.

Na verdade, é impossível saber. A causa do apagão também é um mistério. O presidente Nicolás Maduro acusou os EUA de sabotagem, e o líder da oposição, Juan Guaidó, culpou a má administração e a negligência do governo. Muitos venezuelanos parecem inclinados a apoiar a teoria de Guaidó, em grande parte porque há anos testemunham a degradação da infraestrutura. A eletricidade confiável, afinal, é uma memória distante.

Independentemente de qual seja a teoria certa, não há dúvida de que Caracas mergulhou em um novo tipo de caos louco depois de anos de inflação galopante, lojas com prateleiras vazias e uma desesperadora escassez de remédios.

"É uma miséria", disse Maryuri Mata, de 42 anos, gerente de escritório que mora em uma parte da favela Petare que ainda estava sem energia na noite de terça-feira. Ela estava comprando ingredientes para o jantar em uma rua comercial perto de sua casa, em que homens e mulheres gritavam que tinham algo para vender - macarrão, atum, aspirina ou anticoncepcionais -- para qualquer um que pudesse pagar em dólares, euros ou pesos colombianos. Os bolívares venezuelanos não valem quase nada.

A churrascaria Maute Grill recorre a uma empresa privada para obter água, assim como fazem as pessoas em Caracas que têm dinheiro. As outras têm tentado nos últimos cinco dias consegui-la como podem, perambulando com jarras de plástico por via das dúvidas. Dezenas delas se apinhavam na terça-feira na lama ao redor de um cano estourado do lado de fora da Universidade Central de Caracas, para pegar a água malcheirosa que escorria dali.

"Isso é uma loucura, mas que outra coisa podemos fazer?", disse a manicure Jéssica Sánchez, de 30 anos, em sua quarta ida ao local. "É isso ou não poder dar banho nas crianças." Ninguém daquela multidão cogitava beber aquilo.

--Com a colaboração de Alex Vasquez e Patricia Laya.