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De Agincourt ao Brexit, a rivalidade franco-britânica continua

Marc Champion e Gregory Viscusi

25/03/2019 15h29

(Bloomberg) -- Talvez Charles de Gaulle estivesse certo o tempo todo.

O ex-presidente francês e líder da resistência durante a guerra bloqueou a primeira tentativa do Reino Unido de se unir à então Comunidade Europeia, em 1963, argumentando que a Inglaterra era "marítima" demais, "insular" demais, "original" demais em suas tradições e ligada demais a mercados distantes para algum dia ser uma boa europeia.

Agora, enquanto a primeira-ministra Theresa May e o Parlamento dividido tentam descobrir como desembaraçar o país de mais de 40 anos de integração europeia até o novo prazo de 12 de abril, a França mostra-se novamente entre os menos dispostos dos estados-membros a atender Londres. Enquanto o Reino Unido caminhava em direção ao precipício de uma possivelmente catastrófica saída "sem acordo", na semana passada, o presidente da França, Emmanuel Macron, manteve a posição contrária a um cronograma mais generoso para evitar algo do tipo.

Macron disse aos jornalistas do lado de fora da cúpula de quinta-feira à noite, em Bruxelas, que se o Parlamento rejeitar novamente o acordo negociado pela União Europeia com May, na sequência viria um Brexit duro. "É isso. Nós estamos prontos."

Ninguém está nem remotamente pronto, por isso a postura francesa precisa ser explicada. O caos de um Brexit sem acordo tumultuaria os portos e o comércio da França. As autoridades alfandegárias francesas fizeram uma operação-padrão neste mês mostrando a que ponto o governo está despreparado, causando estragos no tráfego ferroviário para o Reino Unido. A França pode ser apenas a 15ª entre 27 países da UE em termos de custo potencial de um Brexit duro, segundo a Bloomberg Economics, mas também haveria empregos franceses perdidos. As frotas pesqueiras, em particular, correriam o risco de sofrer uma devastação.

Mesmo assim, a mensagem de Paris às vezes parece provocativa, mostrando até mesmo impaciência pela saída dos britânicos. A ministra francesa de Assuntos Europeus, Nathalie Loiseau, causou alvoroço depois que o jornal francês Le Journal du Dimanche noticiou sobre uma postagem privada no Facebook em que ela contou que batizou seu gato de Brexit: ele miou alto pedindo para sair de casa, não se convenceu a sair quando a porta foi aberta e depois parecia ressentido quando foi empurrado para fora. Foi uma piada, explicou ela depois (ela não tem gato), mas mordaz.

A atitude francesa em relação ao Brexit só pode ser parcialmente explicada por oportunismo comercial ou táticas políticas.

A popular mitologia francesa da Inglaterra como o inimigo remonta à medieval Guerra dos Cem Anos, na qual os reis ingleses descendentes da conquista normanda lutaram para afirmar suas reivindicações à coroa francesa. Para cada grande vitória ensinada nas escolas inglesas (pense em Henrique V dizimando a nobreza francesa em Agincourt, em 1415), as crianças francesas aprendem sobre uma vitória (Orleans, 1429), um massacre (Limoges, 1370) ou um mártir (Joana d'Arc, 1431) próprios.

Em termos mais gerais, Macron converteu o esforço renovado para a integração europeia em peça central de sua plataforma política para fornecer respostas às frustrações populares exibidas pelo movimento de protesto Gilets Jaunes, ou Coletes Amarelos. Ele não esperou a saída do Reino Unido para avançar com os planos para o chamado exército europeu e outros projetos integracionistas que nunca seriam possíveis enquanto o Reino Unido exercesse seu direito de veto dentro da UE.

Na França, porém, aparentemente o Brexit é lamentado apenas por uma minoria. Três pesquisas de opinião realizadas pela agência YouGov nos últimos dois anos apontaram consistentemente os franceses como os menos ansiosos, entre os cidadãos da UE participantes, pela permanência do Reino Unido no bloco.